Crescimento do PIB: acidente de percurso ou sinal de alarme?

Ainda que este trimestre não ponha em causa a recuperação em curso deverá servir pelo menos de alerta para a prevalência das fragilidades estruturais da economia portuguesa.

Acompanhar o crescimento do PIB de uma pequena economia como a portuguesa tem destas coisas: as surpresas são constantes já que os mais pequenos fatores podem ter um grande impacto. Ora os últimos trimestres, incluindo o segundo trimestre deste ano, confirmam esta dificuldade.

Segundo o INE, no segundo trimestre o crescimento homólogo manteve-se nos 2,8%, enquanto que o crescimento em cadeia desacelerou substancialmente para 0,2%, depois de três trimestres com um crescimento médio de perto de 1%.

Esta estabilização do crescimento homólogo e a desaceleração em cadeia vem de certa forma contrariar a informação dos indicadores avançados que apontavam para uma nova aceleração – algo comum também aos restantes países da área do euro. A informação era igualmente positiva no que diz respeito aos indicadores reais – a maioria apenas disponíveis até ao mês de maio. Neste caso é de salientar a aceleração das vendas a retalho e principalmente das vendas de automóveis comerciais. Pelo lado menos positivo, há a salientar alguma desaceleração no investimento residencial, já que o consumo de cimento registou em junho a primeira desaceleração em mais de um ano. Somente os dados do comércio externo apontavam para alguns riscos. Não tanto devido às exportações que continuam com crescimentos de dois dígitos, mas devido ao crescimento das importações que vão seguindo a recuperação da procura interna.

Só no próximo dia 31 é que o INE divulgará o detalhe com o contributo dos diversos componentes. No entanto, com a informação qualitativa conhecida hoje já é possível ter algumas pistas não só sobre o que levou a esta desaceleração, mas também sobre o seu impacto no crescimento dos próximos trimestres. Neste trimestre, grande parte do contributo positivo para o crescimento em cadeia terá vindo principalmente do investimento, em particular da variação de existências que terão compensado assim a queda do primeiro trimestre. As exportações terão continuado a crescer, mas dada a forte aceleração das importações de o contributo do comércio externo foi negativo. Ou seja, tudo leva a crer que sem o contributo positivo da variação de existências, muito provavelmente a economia portuguesa teria estagnado entre março e junho.

Quanto ao crescimento do PIB para 2017 e depois de conhecidos estes dados, dificilmente ultrapassará os 2,5%. Ainda assim bastante positivo tendo em conta o passado recente da economia portuguesa. No entanto, ao contrário do ano passado, a segunda metade do ano deverá já revelar uma clara tendência de desaceleração. O primeiro semestre, com um crescimento de 2,8%, deverá ser o mais forte do ano, sendo provável que próximos trimestres registem uma desaceleração, já que o termo de comparação com o final do ano passado será menos favorável. Já o crescimento em cadeia não deverá voltar a um ritmo acima dos 0,4% por trimestre — a não ser que por algum motivo pontual as existências ou as exportações, liquidas (por via das importações) voltem a ajudar — deverá abrandar, já que grande parte do impacto dos estímulos internos (reposição de salários e pensões) e externos (efeito desfasado das politicas do BCE e recuperação europeia) irá diminuir.

Este cenário para 2017 não está isento de riscos, mas que ainda assim se mantêm equilibrados:

Pela negativa: i ) quaisquer choques externos nos principais destinos das exportações porão em causa este padrão de crescimento. Uma redução rápida dos estímulos do BCE (cada vez mais improvável) poderá por em causa não só o financiamento da republica, mas também a confiança dos investidores.

Pela positiva: i) a tendência favorável do mercado de trabalho poderá se intensificar e desta forma levar a uma recuperação do consumo mais sustentada e não baseada na devolução de rendimentos ou em menos poupança ii) uma eventual melhoria do rating da república pode levar não só a uma redução dos custos de financiamento do estado mas também dos bancos e empresas não financeiras.

Concluindo, ainda que este trimestre não ponha em causa a recuperação em curso -– suportada até pelo mercado de trabalho – deverá servir pelo menos de alerta para a prevalência das fragilidades estruturais da economia portuguesa: mesmo com um setor exportador mais pujante do que no passado, há limites para o contributo da procura interna, principalmente do consumo, já que facilmente as importações “eliminam” esse contributo. Ou seja, provavelmente ainda é cedo para esperar por um crescimento económico sustentadamente acima de 2% sustentado na procura interna – isso só deverá acontecer se o peso das exportações no PIB continuar a aumentar. Entre 2010 e 2016 passou de 30 para 50%, é preciso mais, mas o mais difícil já foi feito!

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