Crescimento global: velocidade cruzeiro… ou talvez não?

Quando os decisores económicos, políticos e investidores se reunirem nos próximos dias em Washington, dificilmente a dicotomia entre o “sentimento” e os números podia ser maior.

As estimativas de crescimento estão pouco alteradas e continuam a prever uma expansão a um ritmo cada vez mais acentuado até pelo menos 2022, quer para os países desenvolvidos quer para emergentes. Mais do que isso, a volatilidade do crescimento económico irá descer para níveis recorde, ou seja, para além de continuar a crescer, o panorama para a economia mundial é o mais “previsível” (ou aborrecido) de sempre.

E isto ocorre num período em que os bancos centrais se preparam para remover grande parte dos estímulos sem precedentes que duram há praticamente 10 anos, em que a incerteza geopolítica impera, com uma administração americana imprevisível, com o Brexit e com eleições em vários países da área do Euro e que podem pôr em causa o projeto europeu. Uma das medidas mais em voga atualmente para medir esta incerteza – o Policy uncertainty Index, que segue notícias publicadas nas maiores economias mundiais – continua perto dos máximos.

Claro que, como também reconhece o FMI no “World Economic Outlook” e no Global Financial Stability Report”, existem riscos substanciais para a atividade caso esta incerteza se mantenha ou se materialize em más políticas económicas: principalmente o protecionismo ou o falhanço das reformas fiscais nos Estados Unidos. Mas para o FMI são “apenas” riscos….

Em bom rigor o cenário macroeconómico permanece mais ou menos inalterado face ao último relatório de outubro, sendo até o crescimento das economias desenvolvidas revisto marginalmente em alta. Curiosamente, as maiores revisões foram precisamente para a economia portuguesa (mais 0,4 pontos percentuais em 2017) e britânica (mais 0,5 pontos, isto depois dos cenários mais dantescos do pós-referendo não se terem materializado. O crescimento esperado para a década de 2010 até 2020 é o mais baixo desde os anos 90 – ou seja os fantásticos anos 2000 estão definitivamente para trás – e neste caso a diferença é ainda maior nos países emergentes.

Mas o que fazer então desta dicotomia entre as estimativas e a incerteza? Alguma delas terá de ceder. É impossível ter sol na eira – a menor incerteza de sempre nas estimativas, e chuva no nabal – a maior incerteza de sempre sobre os próximos passos dos decisores económicos. E sem querer ser um adivinho e simplificar a resposta: provavelmente serão as estimativas a variar daqui para a frente. Como referi na semana passada, o crescimento da área do Euro deverá abrandar, o Reino Unido irá agora começar a sentir o impacto do Brexit, o crescimento dos EUA teima em não acelerar e dificilmente Trump conseguirá passar as suas reformas fiscais. E finalmente quanto aos emergentes, ainda que a maioria continue de boa saúde, dificilmente resistirão incólumes a um abrandamento nos desenvolvidos. Assim, o melhor a fazer é aproveitar a calmaria, enquanto durar!

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