De como as energias alternativas e o politicamente correto se repelem

  • Miguel Geraldes Cardoso
  • 22 Junho 2020

Numa solução de micro ou mini geração haverá uma responsabilização efetiva dos consumidores ligados a essas redes, para os quais a necessidade de energia deixará de ser um conceito vago.

Se durante um pouco de tempo pensarmos qual é a principal característica de interação entre o seres vivos e a Natureza chocar-nos-á (ou concluiremos) que sobrevivem os que se adaptam.

Como fortíssima e delicada imagem ilustrando esta maneira de ver, pensemos no colibri voando parado com o seu longo e finíssimo bico sugando o pólen de flores. Tudo nele está transformado e adaptado à sua alimentação.

O Homem, estando sujeito a esta mesma necessidade natural, no entanto, como ser inteligente e transformador, tentou perceber os meandros do mundo físico e até mudá-lo de acordo com as suas necessidades.

Mas até onde é isto possível?

A Humanidade tal como a conhecemos desde que há História, aproximadamente sec. XXX A.C. até ao sec. XIX da nossa Era, viveu sem preocupações diretas profundas de energia externas à alimentação, se excetuarmos a necessária para o aquecimento e confeção de alimentos e a ligada a meios de produção muito específicos (fundição de metais, por exemplo). Quanto a energia ligada ao movimento, a única conhecida durante esse intervalo enorme (à escala humana…) de quarenta e nove séculos, foi a do aproveitamento do vento nas embarcações. Tudo o resto se movia pelo seu pé ou por tração animal.

No sec. XIX o mundo mudou.

As experiências primevas de Papin e Cugnot que tiveram o seu corolário em James Watt levaram à criação da máquina a vapor. Logo se moveram fábricas, o comboio começou a encurtar distâncias e os mares a ser sulcados por navios que desprezavam os ventos.

Com a criação do motor de explosão por Otto, no fim do sec. XIX, a revolução aconteceu: estava criada a máquina que permitia a retirada da energia dos derivados do petróleo ou de outros líquidos ou gases combustíveis transformando-a em trabalho. E essa invenção, graças à enorme energia disponível por kg de petróleo, permitia a disponibilidade, com relativo pouco peso e espaço ocupado, de enormes potências. Toda a tração se transformou.

Abria-se assim o caminho ao transporte absoluto por todo o lado, inclusive pelo céu. Mesmo para máquinas estáticas (geradores, bombas…) o motor de explosão mostrava a sua total adaptabilidade e disponibilidade.

Paralelamente a todo este desenvolvimento, outra manifestação de energia se robustecia: a eletricidade. A relativa facilidade do seu transporte e transformação em todo o tipo de trabalho levavam ao seu sucesso em atividades com áreas de atuação bem delimitadas.

A energia disponível na Terra e as máquinas que a transformam permitiram a modificação total da vida nos locais e Países que tiveram, por razões culturais e históricas, a oportunidade de as utilizar.

Essa modificação condicionou a maneira de pensar, o estilo de vida, as relações sociais de uma percentagem enorme da população mundial.

Como consequência inevitável da facilidade de circulação, a informação, as mercadorias, o conhecimento, as ideias, a medicina, espalharam-se pelos mais diversos meios para todos os cantos do mundo.

Esta evolução encontra o seu espelho na evolução da população mundial : em 1750 o Mundo teria 800.000.000 pessoas, em 1850 esse número estaria nos mil milhões (um acréscimo de 25%). Mas em 1950 já tinha crescido duas vezes e meia para 2.500.000.000 e em 2000 (meio século apenas depois) tinha quase triplicado para 6.000.000.000.

Se analisarmos por zonas do mundo claramente se consegue perceber uma estabilização da população, a partir dos anos 70/80 do sec. XX, nos países mais desenvolvidos enquanto continua uma expansão descontrolada nos de menor rendimentos per capita.

Por outro lado é indiscutível o paralelo entre desenvolvimento humano e consumo de energia e os números desse consumo são avassaladores globalmente, embora fortemente assimétricos quanto à distribuição e ao seu aumento percentual. Se bem que a tendência, nas últimas décadas, para a estabilização do consumo energético se verifique nos Países mais desenvolvidos, eles, por si, já consomem muito. Por outro lado nos países em desenvolvimento mais importantes, se o aumento per capita possa não ser tão relevante, os valores altíssimos da população implicam aumentos percentuais muito grandes no consumo.

O reverso da medalha deste desenvolvimento passa pelo esgotamento de reservas do mundo, a poluição criada, a tensão entre “ricos” e “pobres”, natural mas amplificada por ideologias de toda a ordem e, nas últimas décadas, a difusão global da informação por via da informática que pode levar a que o mais remoto intocável da Índia tenha a aspiração de possuir o Rolls-Royce do lorde ou, a contrário, procurar impedir por todos os meios ao seu dispor que o dito lorde o tenha…

Os governos, que têm de prover a uma procura contínua de necessidades básicas/bem-estar por parte das populações, sabem que uma relativa paz social está diretamente ligada ao referido provimento.

Assim teremos:

População/Desenvolvimento versus Energia/Sustentabilidade/Paz Social.

Eis cinco premissas que não são normalmente misturadas desta forma simples mas de que faço o mix para conseguir chegar à conclusão que pretendo.

Para conseguir a harmonização das premissas/valores acima indicadas começou a nascer e a ser difundida a ideia que as energias alternativas, chapéu convenientemente vago para cobrir qualquer coisa que seja diferente dos combustíveis fósseis tradicionais, seriam a panaceia para que o mundo continuasse o seu desenvolvimento sem a poluição inerente àqueles.

E foi criada uma narrativa, politicamente correta, que endeusa as referidas energias alternativas sem justificação técnica sólida que a sustente, antes pelo contrário defendendo-a mais por amor à Natureza…

Ou seja: tem-se abdicado de trazer à opinião pública corrente factos seguros, estudos sólidos, soluções talvez mais desagradáveis, e optado por uma comunicação que balanceia entre a solução miraculosa ou a perspetiva apocalíptica.

Desta abordagem, paradoxalmente, saem a perder as energias alternativas que acabam por não ser tratadas no lugar e da forma que merecem e sim utilizadas porque a opinião pública as come melhor que outras soluções…

Sejamos claros: a sustentabilidade do mundo está posta em causa por um aumento de população desregrado e porque a curto, ou mesmo médio prazo, é impossível aos países em desenvolvimento suprirem este mesmo desenvolvimento sem quantidades enormes de energia que serão inevitavelmente conseguidas, salvo milagre que não prevejo, por meios clássicos poluentes, carvão e petróleo, estando a solução nuclear (não poluente de forma direta) travada por razões técnicas, de custo inicial, militares e políticas (já que nesses países a opinião pública, aliás relativamente fraca, não lhe será tão adversa como nos países desenvolvidos).

Por sua vez a ideia de globalização, um produto diretamente nascido do consumo de energia e difusão de informação, é talvez uma inevitabilidade, mas não necessariamente um bem absoluto.

As energias alternativas não são, por si só, solução da equação energética mas podem trazer uma contribuição para ela se integradas com outras formas de produção (clássicas ou menos clássicas).

A mística de que o sol ou o vento vão resolver problemas pode ser um wishful thinking mas é perigoso vendê-la como panaceia universal, tanto mais que aqueles dois elementos são incapazes de garantirem produção com continuidade. A ideia, acessória, que começa a espalhar-se, de armazenagem em baterias é perigosa: os materiais para o seu fabrico estão em franco aumento de custo, não são abundantes na Natureza e a tecnologia de exploração tem limitações.

Para mais o paradigma existente em todo o mundo na produção e distribuição de eletricidade é o da interligação de redes com produção comum, o que obriga a ter centrais “pesadas” com produções baseadas em geradores de grande inércia, mas de velocidade de rotação de relativo fácil controlo. Sobre esta realidade tem existido a tendência de deixar entrar na rede centrais (de energia alternativa) de mais baixa potência e com frequências geradas eletronicamente, não tão perfeitas como as conseguidas naturalmente, criando dificuldades de estabilização e gestão, não impedindo ainda a necessidade de se ter sempre a par, com as “renováveis”, centrais clássicas de forma garantir a continuidade de serviço.

Isto tem assim sido muito porque o político se tem sobreposto ao técnico, impondo soluções para as quais muitas vezes falta experiência e mesmo algum conhecimento científico. E é claro que o negócio as agarra se a sociedade as pede ou impõe.

Ora é suposto que governar seja prever e se atentarmos às medidas sucessivamente propagandeadas, mantidas ou abandonadas nos últimos anos estamos muito longe de um percurso sólido como o foi por exemplo a política nuclear de De Gaulle, que garantiu uma independência energética grande à França ou, mais modestamente, a da eletrificação nacional em Portugal do Eng. Ferreira Dias nos meados do sec. XX.

Tudo isto somado parece-me mais sensato, na procura de uma sociedade mais equilibrada, que a par de efetivas políticas de redução de consumos nos países mais avançados, conduzindo por isso mesmo a sociedades mais sóbrias (e eventualmente mais “pobres”, convém não ignorar à partida este dado), se procure uma descentralização de produção, não em unidades “familiares” incapazes de gerar sinergias relevantes, mas sim “grupos de famílias” ou de atividades, a estudar caso a caso, com produção própria de energia elétrica e térmica com recurso misto às energias solar, vento, gás ou outros combustíveis, não esquecendo queima de resíduos/madeira, numa procura de resolução local das necessidades energéticas com efetiva desligação da rede nacional e em acordo com a gestão desta.

Numa solução deste tipo, que se pode definir como de micro ou mini geração, existe uma separação efetiva de problemas que, em vez de se tornarem magnos, serão sempre pequenos e localizados, haverá uma responsabilização efetiva dos consumidores ligados a essas redes para os quais a necessidade de energia deixará de ser um conceito menos vago, mas mais responsabilizante, e, last but not the least, partindo este conceito de países mais desenvolvidos poderá ser um exemplo para o futuro de países em desenvolvimento ajudando-os a saltar a etapa que nos conduziu a níveis de consumo elevados.

E, no fundo, estaremos a fazer como o colibri: adaptarmo-nos para conseguir continuar.

  • Miguel Geraldes Cardoso
  • Engenheiro, coordenador da implementação do Programa Operacional de Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (PO SEUR) na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

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