Editorial

Efacec, um manual para não repetir

O Governo nacionalizou a empresa porque era estratégica, agora vai ter de pagar para a conseguir vender. É um manual de instruções sobre como o Estado não se deve meter onde não é chamado.

2 de julho de 2020, briefing de Conselho de Ministros: Pedro Siza Vieira anuncia a nacionalização da maioria do capital da Efacec que estava nas mãos de Isabel dos Santos, e afirma que “é uma empresa centenária, com uma reputação de excelência na engenharia portuguesa”. “É uma empresa que tem um volume de negócios significativo, que teve resultados positivos no ano passado. É uma empresa com viabilidade no mercado”, salientou Siza Vieira naquela conferência de imprensa. E até revelou que havia uma enorme lista de candidatos a comprar a companhia.

2 de setembro, comunicado de conselho de Ministros (sem direito a briefing, nem a ministro). O Governo decide passar para uma terceira fase de negociação com os candidatos que chegaram até ao fim, dois apenas, com um eufemismo: Para haver a possibilidade de os candidatos melhorarem as suas propostas.

A história já é conhecida, e Pedro Siza Vieira já não aparece a protagonizar a nacionalização de uma empresa que há mais de um ano era absolutamente estratégica para o país. No entretanto, o Governo ‘enterrou’ 70 milhões de euros de fundos públicos na Efacec sob a forma de garantia pública a empréstimos de um sindicato bancário, e que, como é óbvio, já são dados como perdidos.

Há cerca de um mês e meio, o ECO revelou em primeira o que é a demonstração do desastre que foi a nacionalização. Da enorme lista de interessados, sobraram duas empresas de capital português, a DST e a Sodécia. E candidatos anunciados como firmes, egípcios, chineses e espanhóis, avaliaram as contas da empresa e desistiram do processo. Portanto, a Efacec é estratégica para Portugal, sabe-se lá porquê, e não é estratégica para quem está no negócio, para quem investe e quer ganhar dinheiro no mercado.

O problema não termina aqui. Como o ECO revelou, as contas da Efacec de 2020 revelam um EBITDA ajustado (leia-se o efetivo, o que conta mesmo para quem avalia a possibilidade de comprar a empresa) de 60 milhões de euros negativos. 60 milhões, leu bem. Foi nesta empresa estratégica que o Governo decidiu nacionalizar. E em 2021, os dois candidatos antecipam um resultado operacional da ordem dos 25 milhões de euros negativos.

O contexto de gestão da Efacec, é justo reconhecer, é difícil. Como se já não bastasse a situação acionista por causa de Isabel dos Santos, veio a pandemia. Tudo somado, a degradação da atividade da empresa é crescente desde o início de 2020, e o que estava para trás já estava longe de revelar uma empresa saudável.

Agora, o Governo vai passar o processo de venda de mais de 71% do capital para uma terceira fase, com as mesmas duas empresas portuguesas, e as razões não são boas. As propostas são péssimas para o Estado, e exigem até mais garantias públicas (e todos sabemos como acabam os negócios em que o Estado dá garantias, certo? Basta ver o que se passa no Novo Banco).

A Efacec, a empresa que era “um símbolo da qualidade da engenharia nacional”, vai acabar dividida, vendida às postas aos dois candidatos. E mesmo assim o Estado vai ter de pôr mais dinheiro público, que vai obviamente perder. Sobra uma espécie de manual sobre como o Estado não deve meter-se em negócios privados porque, quando isso sucede, são os contribuintes que acabam a pagar a fatura.

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