Escrutinar emoções

A contestação fácil a grande parte do que escrever sobre estes assuntos é a eterna referência aos interesses que seriam servidos pelo que ficar escrito.

Há uns anos, as organizações ambientalistas tinham uma grande credibilidade e desempenhavam o papel das boas consciências. Hoje, o movimento ambientalista, tal como era, está morto, o que existem são organizações frequentemente radicalizadas, dominadas por funcionários ou por quem tem mais tempo – os “activistas” – e com frágeis raízes na sociedade.

É possível – não é fácil, mas é possível – mobilizar umas centenas de pessoas contra um furo para prospecção de petróleo, mas é praticamente impossível fazer uma discussão séria sobre as inacreditáveis regras de gestão do Fundo Ambiental – 420 milhões de euros de dinheiro dos contribuintes usados com base na mera assinatura de um ministro – e sobre os resultados ambientais das opções tomadas.

Escrevo isto sendo, como sou ainda, presidente de uma associação de conservação da natureza que tem sido, e espero que continue a ser, beneficiária do Fundo Ambiental, ou seja, não estou a pôr-me fora deste retrato desencantado do movimento ambientalista e muito menos estou a dizer que o movimento ambientalista que existe não desempenha um papel social relevante.

Pessoalmente causa-me desconforto ver as mesmas organizações apanhar a onda de demagogia do corte de consumo na carne de vaca nas cantinas da Universidade de Coimbra e terem acordos com grupos de grande distribuição para a promoção da carne de vaca proveniente de um determinado modelo de produção.

Eu conheço, e reconheço, a bondade associada à argumentação que está na base deste aparente paradoxo: “nós denunciamos os problemas, mas queremos estar do lado das soluções”.

O problema é que a denúncia é feita respondendo às emoções do público que se quer atingir – não há planeta B, portanto é preciso apoiar decisões como a do reitor da Universidade de Coimbra, não quero venenos no prato, portanto é preciso proibir o glifosato, temos de mudar o modelo económico, portanto não faz sentido prospectar petróleo, nunca houve incêndios assim, só pode ser por causa dos eucaliptos – emoções que se fundam em mitos simples, umas vezes simplistas, outras vezes claramente errados, o que condiciona a defesa de soluções racionais, sensatas e equilibradas.

É natural que estes e outros mitos apareçam muitas vezes por aqui. A contestação fácil a grande parte do que escrever sobre estes assuntos é a eterna referência aos interesses que seriam servidos pelo que ficar escrito.

Há também uma declinação mais sofisticada deste tipo de contestação, que consiste em dizer que sendo verdade que o modo de produção é que é a verdadeira questão de sustentabilidade, não a carne em si, o consumo está tão desequilibrado e a urgência climática é tão grande, que não se podem desperdiçar esforços discutindo pormenores sobre a decisão do reitor da Universidade de Coimbra, tem de se apoiar o valor simbólico que reforça a ideia de que temos de reduzir o consumo de carne.

Por mim, não tenciono fazer a menor concessão a este tipo de argumentos, as asneiras que escrever serão as asneiras que não me parecerem asneiras, isto é, por muito barulho que exista sobre o potencial cancerígeno do glifosato, tenciono escrever que a única organização credível que fala desse potencial o coloca no mesmo plano do potencial cancerígeno que atribui à sopa muito quente, ao trabalho em cabeleireiros, ao uso de lareiras ou ao consumo de carnes vermelhas, que é um grupo de potencial cancerígeno abaixo do atribuído ao presunto e ao vinho.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico.

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