Editorial

Exorcizar o Gaspar que há em Mário Centeno

Mário Centeno já não governa para os portugueses, governa para Bruxelas. Se este é o preço a pagar para equilibrar as contas públicas, não esconjurem o Gaspar que há em Mário Centeno.

“Se voltarmos a ter uma operação especulativa sobre a nossa dívida que faça disparar novamente os juros, estamos em condições de dizer que isso não tem consequências na nossa dívida?”

A pergunta não é da jornalista Helena Garrido, mas é do entrevistado João Oliveira. Na entrevista publicada esta segunda-feira no ECO, o líder parlamentar do PCP faz aquilo que todos os comunistas fazem: faz as perguntas certas e dá as respostas erradas.

A solução, para João Oliveira, é só uma: reestruturar a dívida: Só assim, para os comunistas, o país estará em condições de enfrentar, de peito aberto, uma nova crise financeira. É a solução mágica dos comunistas e bloquistas para todos os nossos males: por que haveríamos nós de resolver os nossos problemas quando os outros o podem fazer por nós?

Mas João Oliveira faz a pergunta certa: estamos blindados à variação dos humores do mercado quando o BCE terminar o seu programa de compra de obrigações? A resposta é negativa. É por isso que Mário Centeno apresentou, na sexta-feira, um Programa de Estabilidade com metas conservadoras para o período 2018-2022.

Apesar do estrebuchar da esquerda, Mário Centeno não desviou um milímetro e manteve a meta do défice de 0,7% este ano, prevendo em 2020 um excedente orçamental de 0,7%. É uma missão difícil e digna de um 007. O mérito será de Centeno, de Mário Centeno.

O PCP foge do Programa de Estabilidade como o diabo foge da cruz, chegando João Oliveira ao cúmulo de, na conversa com Helena Garrido, fazer esta afirmação: “Apoiar o Governo? Mas nós não apoiamos o Governo”. É caso para perguntar, então quem apoia o Governo?

O Bloco de Esquerda, sempre mais pragmático, vai apresentar um projeto de resolução no Parlamento para mudar a meta do défice dos 0,7% para 1,1%. Catarina Martins avisou Mário Centeno para não “repetir os piores erros de Vítor Gaspar em nome de décimas de défice”.

A esquerda radical quer exorcizar o Gaspar que há em Mário Centeno mas, até ver, o fantasma de Gaspar continua a assombrar as contas públicas e o ministro das Finanças almeja alcançar aquilo que nunca foi conseguido em democracia em Portugal: ter um excedente nas contas públicas e baixar a dívida pública.

“Nem despesismo, nem austeridade”, é a mensagem que Mário Centeno colocou no Twitter no dia em que apresentou o Programa de Estabilidade. E fez questão de traduzir esse tweet para inglês: ‘No spending spree, no austerity‘. Definitivamente, o espírito de Gaspar tomou conta de Mário Centeno. O ministro das Finanças está possuído por uma ambição de, como contava o Expresso este fim de semana, saltar para o cargo de comissário europeu.

Mário Centeno já não governa para os portugueses, governa para Bruxelas. Já não quer ser ministro das Finanças português, ambiciona ser ministro das Finanças europeu. Se este é o preço a pagar para equilibrar as contas públicas, não esconjurem o Gaspar que há em Mário Centeno.

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