Fazer oposição é uma maçada!

Sou solidário com Rui Rio. Fazer oposição é um aborrecimento, causa stress e sentimentos negativos em nós e nos visados. Há que zelar pela saúde pública.

Confesso que manifesto alguma solidariedade com Rui Rio. A vida dele não é fácil. Os jornalistas não o largam à procura de um soundbite contra o Governo para fazer manchete. Ele só quer “colaborar” com o Partido Socialista, encontrar “consensos”, não se quer aborrecer com divergências políticas. Em Maio, o líder social-democrata pedia a demissão de Mário Centeno por não ser “leal ao Governo”. De facto, Rui Rio percebe de lealdade. É tanta, perante o governo e o PS, que se esquece para o qual (e por quem) foi eleito.

Regularmente, Rio dá palmadinhas nas costas a António Costa e apara-lhe algumas quedas. Apesar de acumular vitórias internas no PSD, assume uma abordagem de derrotado perante os seus opositores externos. Após vencer Santana Lopes – um ex-primeiro-ministro – em 2018 e de conquistar uma moção de confiança um ano depois, silenciando – por alguns meses – a ala crítica liderada por Montenegro, conseguiu este ano novamente vencer os seus adversários (Montenegro e Pinto Luz) no congresso do PSD. Pelos vistos, não lhe bastou para ter a força necessária para exercer uma forte oposição. Os militantes do PSD revelam uma fé em Rio que faz corar qualquer crente religioso.

Mesmo perante este novo fôlego que o seu partido lhe deu no início do ano, 2020 tem sido pródigo em manifestações de Rui Rio de descrédito pelo papel da oposição e pelo seu em particular:

  • Janeiro

    Durante a campanha eleitoral para um novo mandato à frente do PSD, o seu lema foi “Portugal ao Centro”. Não deixou dúvidas sobre qual seria o seu propósito: um PSD de “poucochinho”, uma oposição tão moderada que seria indistinguível do PS – mantendo a toada do mandato anterior.

  • Fevereiro

    À procura de algum espaço mediático – mas evitando ferir o governo, naturalmente – lembrou-se do trunfo que os populistas tanto apreciam: reduzir o número de deputados (até o André Ventura terá ficado orgulhoso da proposta do seu ex-colega de partido). Como? Ainda não faz ideia, mas até sugere que os lugares vazios no parlamento reflitam o peso dos votos em branco. Esta proposta, apresentada de forma isolada, representa apenas um tiro na oposição – a tal que ele deveria liderar e, em certa medida, proteger. A matemática é simples: reduzir deputados perante o modelo de círculos eleitorais atual e o método de Hondt conduz à perda de deputados pelos partidos mais pequenos. A oposição perde. Mas isso, para Rio, pouco interessa. As suas propostas são recorrentemente pouco sustentadas, pouco preparadas. São ideias avulsas que vai tirando da cartola para recuperar algum oxigénio num PSD que passa a maior parte do tempo em apneia.

  • Março

    Perante uma pandemia para a qual nenhum de nós estava preparado, e em que todos os contributos políticos e da sociedade seriam bem-vindos, do que se lembra Rui Rio? Aproveita a oportunidade e suspende a oposição: “Precisamos de unidade nacional. O país tem um governo democraticamente eleito. Fragilizar o governo é fragilizar o nosso combate. Temos de pôr de lado a lógica da oposição.“.

  • Abril

    Como as declarações em Março não surtiram efeito suficiente, o líder do PSD foi mais longe e decretou silêncio dentro do seu partido. Numa carta aos militantes, referia que “temos todos de estar unidos e solidários”, e que criticar o governo não seria “uma postura eticamente correta” nem “uma posição patriótica”. Patriótico é representar os 28% de eleitores que votaram nele, cerca de um milhão e meio de portugueses. No entanto, parece que o vírus ficaria fragilizado e fugiria para outras bandas se os nossos partidos estivessem em perfeita harmonia.

  • Maio

    Após tantos esforços de Rui Rio e um mês depois de Marcelo Rebelo de Sousa ter anunciado o “milagre português”, finalmente o líder social-democrata recebeu o merecido reconhecimento. O Presidente da República aproveitou para “saudar” Rui Rio, enaltecendo que foi “exemplar” durante a pandemia, tendo sido um “líder com sentido de Estado”. Parece que até Marcelo decidiu patrocinar esta nova forma de fazer política: submissão ao poder vigente sem tirar partido do que de melhor tem a democracia, o combate de ideias.

  • Junho

    Perante um provável apoio do PS à recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa a Presidente da República, Rio diz que esse apoio é “honroso” para o PSD. Num país que peca por estar cada vez mais na cauda da Europa, este é mais um sinal de uma harmonia desconcertante entre três das figuras mais importantes do nosso sistema político: Presidente da República, primeiro-ministro e líder da oposição. Não deveria ser “honroso” para Rio, nem deveria ser tão óbvio o apoio de Costa a Marcelo. Isto sucede-se porque, cada vez mais, o importante e histórico papel político do PSD não se vislumbra atualmente. É um partido conformado em sentir-se colado ao seu oponente e com receio de divergir.

  • Julho

    E que tal, por decreto, limitar a oposição ao governo? “Boa ideia”, terá pensado Rui Rio. Recentemente, propôs o fim dos debates quinzenais, reduzindo o número de presenças do líder do governo no parlamento. Para o líder do PSD, o primeiro-ministro “tem é de trabalhar”, “não pode passar a vida em debates”. Pensava eu, erradamente, que a política, em democracia, consistiria, em grande medida, na confrontação de ideias. Quando não se gosta de algo num sistema democrático, tentamos limitá-lo. Parece-me uma tendência, no mínimo, preocupante, já ensaiada por outros países de forma radical e com resultados pouco recomendados. Fortalecer o poder de escrutínio e fiscalização do governo deveria ser um cavalo de batalha dos partidos da oposição num país democrático, e não o contrário.

Nas últimas legislativas, o candidato a primeiro-ministro Rui Rio referiu que “a abstenção é um grande inimigo da democracia”. Entretanto, o líder da oposição Rui Rio decide abster-se de fazer oposição. Parece que Rio não concorda com Rio. Eu concordo com Rio, o candidato a primeiro-ministro, e não compreendo o outro.

Todavia, a ciência está do lado do líder social-democrata. O stress envelhece, a elevada pressão no trabalho pode causar burnout e a ansiedade retira-nos anos de vida. E o líder do PSD não está para isso! Quer desfrutar de um percurso político tranquilo, a menos que surja mais algum opositor interno, porque perante estes ele veste a pele de lobo.

Rio faz inveja aos próprios militantes socialistas. Arrisca-se a ser o melhor e mais fiel elemento da estrutura socialista, sem o ser. Um dos principais segredos da estabilidade e tranquila governação de António Costa tem o seu nome: Rui Rio. Uma medalha, do qual, provavelmente, os seus militantes não se orgulham.

Dr. Rui Rio, sei que a sua função é exigente, por vezes, quase uma “maçada”. Mas, sabe, também é uma maçada sermos governados por uma espécie de geringonça 2.0 disfarçada e termos um líder de oposição que não se quer dar ao trabalho de fazer… oposição. Merecemos (muito) mais.

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