Hidrogénio verde – oportunidade ou aventura?

  • João Marques Mendes
  • 22 Julho 2020

Ignorar o hidrogénio limpo não só é estar em desalinhamento com as prioridades europeias, como é também desperdiçar uma oportunidade para o setor energético e industrial português.

Até recentemente desconhecido da generalidade das pessoas, o hidrogénio é hoje um dos temas mais quentes da atualidade política e económica.
A Estratégia Nacional para o Hidrogénio submetida a consulta pública há menos de dois meses tem agitado a opinião de especialistas, economistas e políticos, gerando posições por vezes extremadas. Vale, pois, a pena perceber do que estamos a falar.

Comecemos pelo princípio.

Quando nos referimos ao hidrogénio falamos do átomo mais simples da natureza. Contudo, na Terra, o hidrogénio não se apresenta na sua forma simples, pelo que obtê-lo pressupõe dispendiosos processos de decomposição das moléculas onde se encontra, tais como a água e os hidrocarbonetos.

O tema saltou para a ordem do dia a respeito do chamado hidrogénio verde, nome pelo qual é conhecido o hidrogénio produzido através de eletricidade renovável, mediante a eletrólise da água e sem emissão de gases poluentes. A esmagadora maioria do hidrogénio atualmente utilizado é produzido a partir de combustíveis fósseis, gerando emissões poluentes e sendo incompatível com a agenda ambiental atual.

A Estratégia Nacional para o Hidrogénio perfila a aposta no hidrogénio verde como fundamental para alcançar a descarbonização da economia. Prevê-se um investimento significativo na cadeia de valor do hidrogénio até 2030, a ser cofinanciado por fundos públicos (na sua maioria, europeus), grande parte dos quais no projeto âncora de produção de hidrogénio verde em Sines.

Esta estratégia tem merecido aplausos, mas também fortes críticas. O enfoque destas últimas é colocado na imaturidade e nos elevados custos da tecnologia, bem como na não explicitação clara dos pressupostos económicos e financeiros da estratégia. Existe fundamento nas críticas apresentadas – a Comissão Europeia reconhece que a tecnologia não será competitiva antes de 2030 e o investimento a realizar será substancial. Questão diferente é a de saber se tal deve deter a aposta no hidrogénio verde. Por três razões principais, entende-se que a resposta deve ser negativa – as atuais insuficiências tecnológicas do hidrogénio devem ser vistas como desafios, mas não entraves.

Primeiro, a transição energética para uma sociedade descarbonizada – desígnio incontornável da Europa e de Portugal – não será possível apenas com tecnologias já maduras ao dia de hoje. Se a elas nos cingíssemos, a hercúlea tarefa de alcançar a neutralidade carbónica em 2050 dificilmente passaria de uma miragem.

Segundo, o hidrogénio apresenta vantagens em relação a outras tecnologias disponíveis, a principal das quais a de permitir a penetração de energias limpas em atividades onde a eletrificação se mostra inviável, tais como indústrias que são consumidoras intensivas de energia ou o transporte aéreo ou marítimo.

A estas utilidades somam-se outras, como seja a de permitir o armazenamento de energia por longos períodos, dando flexibilidade ao sistema elétrico, e a rentabilização de ativos das redes e infraestruturas de gás natural, evitando a sua ociosidade. Os baixos preços de produção de energia solar que Portugal foi capaz de atrair podem conferir-lhe uma relevante mais-valia competitiva na produção de hidrogénio verde.

Terceiro, esta aposta está em linha com a estratégia europeia, que para ela direcionará uma bateria de apoios nos próximos anos. O Pacto Ecológico Europeu olha para o hidrogénio como um eixo central da transição energética, e a estratégia europeia para o hidrogénio apresentada pela Comissão no dia 8 de julho cristaliza esta visão.

Assim, ignorar o hidrogénio limpo não só é estar em desalinhamento com as prioridades europeias, como é também desperdiçar uma oportunidade para o setor energético e industrial português.

Isto não significa que o hidrogénio verde deva ser promovido a qualquer custo. A aposta deve ser financeiramente sustentável. É necessária a análise detalhada dos pressupostos económicos e financeiros dos investimentos e do mérito dos apoios que sejam canalizados para este setor, sem esquecer a análise comparativa de outras tecnologias que possam servir a descarbonização, como a captura e armazenamento de carbono de hidrogénio convencional.

Porém, o rumo tomado merece aplausos. Como já foi reconhecido, os passos dados na década de 2020-2030 serão determinantes no caminho para alcançar a neutralidade carbónica até 2050. Por ser assim, não é cedo para investir no hidrogénio.

  • João Marques Mendes
  • Sócio na área de Público PLMJ

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