Instabilidade à italiana

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 19 Dezembro 2016

Matteo Renzi enfrentou os poderes instituídos do Partido Democrático. Agora, depois da demissão, haverá uma contagem de espingardas e, caso saia vencedor, poderá ir outra vez a jogo nas legislativas.

A União Europeia vive um período conturbado, o que torna cidadãos, políticos e mercados mais sensíveis a tudo o que ocorre em cada Estado-membro. Só assim se explica a atenção dedicada pela generalidade dos órgãos de comunicação social à eleição presidencial austríaca. O presidente, na Áustria, tem poderes ainda mais limitados do que em Portugal, mas a repetição da segunda-volta e, sobretudo, a participação de um candidato de extrema-direita deixaram os governos e os investidores em suspenso até à confirmação da vitória do ecologista Alexander Van der Bellen.

O alívio foi efémero e, poucas horas depois, os europeus eram confrontados com o regresso da instabilidade à política italiana, depois de quase três anos de governo de Matteo Renzi. Desde que assumiu a função de presidente do Conselho de Ministros, Renzi vinculou a sua governação à aprovação de uma revisão constitucional profunda e de uma nova lei eleitoral que facilitasse a formação de maiorias de um só partido. Qualquer dos projectos abalava as fundações do sistema parlamentarista italiano, em parte responsável pela instabilidade que tem marcado o país desde que a Constituição de 1948 entrou em vigor.

Matteo Renzi, um dos mais jovens líderes políticos italianos, teve a coragem de afrontar uma série de poderes instituídos. Começou no Partido Democrático (PD), herdeiro do velho Partido Comunista Italiano, conquistando a liderança contra a vontade da ala histórica que domina as estruturas desta formação política. A manutenção do poder permitiu-lhe conter eventuais revoltas internas mas não tornou a sua liderança consensual.

A forma como Renzi monopolizou a política italiana, ao longo deste período, também acabou por fazer soar os alertas nos outros partidos. O Movimento 5 Estrelas, uma formação sem ideologia e que tem como único propósito o desmantelamento do sistema político, viu a sua evolução limitada pela resistência do PD nas sondagens. A direita italiana, por outro lado, com a demissão forçada de Silvio Berlusconi (2011) e a sua posterior inabilitação para o exercício de cargos públicos, está órfã de liderança.

Perante este deserto, talvez Matteo Renzi tenha visto a sua demissão do governo como um compasso de espera. Por agora, manteve a liderança do partido e é provável que entre numa etapa de contagem de espingardas para perceber a força que tem em comparação com o sector histórico.

Caso saia vencedor dessa primeira batalha, estará em condições de enfrentar eleições legislativas e de procurar obter a legitimidade política com que não contava. Caso as lideranças partidárias sejam as actuais, o líder do PD terá de enfrentar uma direita decapitada e um populismo com dificuldades em superar os 25% dos votos.

O autor escreve em conformidade com o anterior acordo ortográfico.

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Presidente da Câmara de Comércio Portugal – Atlântico Sul e professor universitário

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