Jornalismo para a paz?premium

O Comité atribuiu o Nobel da Paz a dois jornalistas, Maria Ressa e Dmitry Muratov, que representam o jornalismo no mundo enquanto salvaguarda da liberdade e da democracia. Mas como?

"Esqueçam encontrar trabalho", disseram-nos num dos primeiros dias de universidade. Acabei o curso de Ciências da Comunicação em 2007, quando o país vivia uma enorme crise e o mercado de trabalho de jornalismo estava estagnado como nunca. Em Portugal, a única forma de entrar numa redação era via estágio curricular, não pago portanto, e contavam-se pelos dedos as pessoas que, depois dos três meses de trabalho a custo zero, em redações, eram convidadas a ficar (e, sempre, a troco de salários muito baixos e, tantas vezes, sem contrato de trabalho). Eu fiz cinco estágios, um dos quais profissional (o único pago), até conseguir ser contratada por uma redação: trabalhava tanto que, realmente, o salário mínimo que me pagavam era o valor ideal para o pouco tempo que tinha para o gastar (estou, obviamente, a ser irónica). Este pequeno relato, em jeito de auto-relato, pode ser repetido infinitas vezes, multiplicado pelo número de jovens jornalistas que entraram pela primeira vez, ao longo dos últimos anos, em redações de todo o mundo: é sinal da realidade.

O brutal enfraquecimento dos leitores enquanto dinamizadores da economia do jornalismo, aliado a um enorme desinvestimento no negócio em si -- motivado pela fraca rentabilidade que se traduz, tantas vezes, em buracos de milhões de euros de prejuízos anuais -- fizeram com que, um pouco por todo o mundo, notícias sobre despedimentos em massa e encerramento de marcas de informação sejam muito recorrentes.

Maria Ressa e Dmitry Muratov foram esta sexta-feira agraciados com o Nobel da Paz. Dois jornalistas com o Prémio Nobel da Paz. Fascinante, não é? Imaginamos os heróis com poderes que transcendem em muito um bloco de apontamentos e uma caneta, desconhecendo tantas vezes a capa de super-herói que escondem debaixo de coletes anti-balas em reportagens arriscadas, camuflado pelas ameaças de censura, de perseguição e, muitas vezes, até de morte.

O Comité Nobel Norueguês justificou a decisão de premiar dois jornalistas com os "seus esforços de salvaguardar a liberdade de expressão, uma pré-condição da democracia e o garante da sua durabilidade". "Um jornalismo livre, independente e baseado em factos serve para proteger do abuso de poder, das mentiras e da propaganda de guerra", sublinha ainda o Comité, admitindo "que a liberdade de expressão e de informação ajudam a assegurar um público informado". "Estes direitos", sublinha a Academia, são pressupostos essenciais da democracia e protegem contra a guerra e o conflito. (...) Sem liberdade de expressão e liberdade de imprensa, será difícil de promover de forma bem-sucedida a fraternidade entre as nações, o desarmamento e uma melhor ordem mundial que responda aos desafios do nosso tempo".

Há muitos anos que estudiosos e líderes procuram colmatar o desinvestimento publicitário decorrente do enfraquecimento da qualidade e da relevância da informação veiculada pelos meios de comunicação. É fácil perceber porquê: menos relevância ou mais informação condicionada leva a menos leitores; menos leitores conduzem a receita inferior. Menos dinheiro, menos meios. Menos meios, menos informação. E por aí adiante.

Media de todo o mundo experimentam modelos de subscrição paga, conferências com patrocínios, branded content. Patrocínios misturados com informação misturada com histórias de gente com muita, pouca ou nenhuma voz. E, tantas vezes, ingerências superiores, sugestões de "alterações" numa lógica em que a objetividade é tida como objetivo essencial muitas vezes pouco conseguido, para não falar dos perigos em países em que a violência e a busca da verdade andam de mãos dadas.

"O poder está a tornar-se mais poderoso", escreve Katharine Viner, editor-in-chief do britânico The Guardian, apelando à participação e ao investimento dos leitores naquilo que são os projetos de investigação do jornal. "Durante décadas, as investigações do Guardian galvanizaram o progresso expondo coisas que estavam erradas no nosso mundo. Agora precisamos do seu apoio", escreve a jornalista esta semana, na sequência da publicação de mais uma investigação colaborativa, os Pandora Papers. Os apelos sucedem-se por todo o mundo, em meios locais a internacionais -- só variam em, recorrência e tom, dos mais polidos aos mais dramáticos --, mas as ameaças são sempre as mesmas: neste caso, a necessidade não aguça o engenho, só o enfraquece.

Considerar um setor como o do jornalismo o último reduto da paz mundial e do equilíbrio fraterno entre as nações tem tanto de perigoso como de desafiante. "Perigoso", porque as redações são espaços de gente a trabalhar demasiadas horas, sujeita a pressões tantas vezes externas à própria profissão, a censura e, também, a condições de trabalho precárias, sem proteção face a ameaças e, na larga maioria das vezes, com salários que conduzem a uma situação financeira deficitária que conduz a uma menor capacidade de dizer "não". "Desafiante", porque o Nobel deste ano parece um apelo à ação contra a inevitabilidade do fim da saúde, ou melhor, da sobrevivência da democracia: ou mudamos a forma como fazemos as coisas (escrevi sobre isto na semana passada, se bem se lembra), ou as nossas ações conduzir-nos-ão a um resultado que até já pudemos testemunhar nos últimos anos. Uma enorme -- e tão inconsciente -- impotência na hora de mudar o mundo. Por desinformação.

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