Jornalistas e redes sociais

As reações a um código de conduta jornalística nas redes sociais são um bom exemplo da forma como ainda se lida com a digitalização da sociedade.

O Expresso aprovou uma atualização ao Código de Conduta dos seus jornalistas, especialmente no que toca à participação nas redes sociais. O objetivo foi clarificar a forma como os jornalistas se devem apresentar nas redes e que tipo de discurso devem manter. A reação histérica dos utilizadores das redes sociais quase deu razão aos jornalistas do Expresso: entre gritos de censura, de ataque à liberdade de expressão e até de inconstitucionalidade, foi um fartote de disparates.

A verdade é que não só nada impede que se aprove um código de conduta deste género como a sua aprovação pelos jornalistas é salutar. Muitas organizações de comunicação social a nível global adotaram soluções semelhantes e, embora tenham alcances diversos, elas visam o mesmo propósito: responsabilizar de alguma forma a presença digital do jornalista. Um interessante estudo publicado em 2015 pela académica Cátia Mateus confirma a necessidade de pensar esta questão: 72,5% dos leitores inquiridos considera que os jornalistas “não devem emitir opinião ou juízos de valor, sobretudo se focarem pessoas ou temas que acompanhem no exercício da sua profissão.”

É verdade que algumas alíneas do código agora aprovado parecem excessivamente rigorosas, mas o que verdadeiramente assusta no texto atualizado pelo Expresso é o tom: no que está ali escrito as redes sociais parecem ser algo perigoso e incómodo, a encarar só em caso de inevitabilidade absoluta.

Ora a realidade não poderia estar mais longe desse cenário: as redes sociais são hoje os locais onde as pessoas estão, pelo que a relevância do que lá se passa é absoluta e os jornalistas têm de estar a par dela. Esta visão estritamente utilitária das redes sociais é limitativa e reflexo da má estratégia digital dos meios. Não há nenhum meio de comunicação português que não tenha criado um grupo de leitores no Facebook, ou que tenha nas suas fileiras um gestor de comunidades. Estas, entre outras, são estratégias trabalhadas com resultados comprovados em várias latitudes que não se limitam a encarar as redes como um espaço para caçar cliques.
E a verdade é que este é apenas mais um sintoma da desadequação da maioria das redações com a realidade digital.

As redações tradicionais estão hoje partidas em dois blocos: um composto de jornalistas seniores, instalados, na sua maioria impermeável à digitalização e pouco interessados em mudar o status quo; outro composto por jornalistas jovens, precários, nativos digitais que acabam por disfarçar as limitações dos títulos mas que nem por isso são valorizados. Há vários jornalistas em meios de referência que nem ‘smartphone’ têm, quanto mais redes sociais.

Dos cinco elementos da direção do Público, apenas um usa o Twitter com regularidade; Dos três do Diário de Notícias e dos quatro da TSF, o mesmo cenário: apenas um em cada. Quer isto dizer que um bom jornalista precisa de ter Twitter? Claro que não. O padrão de ausência serve apenas como exemplo da ignorância sobre a digitalização da sociedade que é norma nas redações (e nas administrações dos média tradicionais, já agora). Há muitas razões para a crise dos média: Uma delas é garantidamente a inadequação ao mundo digital.

Ler mais: Pioneiro do jornalismo digital e académico, Alfred Hermida escreveu um livro que se encaixa que nem uma luva neste tema: Tell Everyone explica como as redes sociais são hoje essenciais porque amplificam vozes e alteram a forma como pensamos o mundo. E, ao dissecar o poder e o valor da partilha, expõe a forma como o mundo mudou.

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