Editorial

Lisboetas deram “lição exemplar” a Costapremium

Carlos Moedas ganhou a Câmara de Lisboa, foi um entre 308 concelhos, mas o mais importante. António Costa ganhou as autárquicas, mas perdeu onde não poderia ter perdido.

26 de setembro de 2021. Os lisboetas deram uma "lição exemplar" a António Costa nestas eleições autárquicas, a lição que o primeiro-ministro queria dar a uma empresa privada. É uma ironia. O PS tem uma enorme vitória em número de câmaras e em mandatos, mas acaba por ter uma derrota com estrondo e talvez se possa encontrar aqui o início do fim da governação socialista. Lisboa é apenas um dos 308 concelhos, mas a vitória de Carlos Moedas vale quase tudo numa noite eleitoral que serviu para mostrar que não vale tudo, que o eleitoralismo tem limites, que a arrogância e a prepotência não chegam para ganhar eleições.

António Costa nacionalizou a campanha para as autárquicas mais do que qualquer outro primeiro-ministro (talvez só com paralelo com os anos cavaquistas da pós entrada na Comunidade Económica Europeia), prometeu mundos e fundos com o Plano de Recuperação e Resiliência debaixo do braço, qual caixeiro-viajante que distribui tudo a todos. Além das prometidas descidas de impostos e da libertação do país. Bem pode Fernando Medina assumir que a sua derrota é "pessoal e intransmissível", mas a derrota também é de Costa.

As eleições autárquicas têm obviamente uma dimensão local, ou 308 dimensões. Os resultados têm explicações que devem ser lidas ao nível concelhio, sim, mas são também um reflexo do que é a política nacional e a governação quando o partido do Governo é o partido que controla a câmara, especialmente nos grandes centros urbanos. Foi o que sucedeu em Lisboa (e em Coimbra, para citar outro exemplo). Carlos Moedas ganhou -- de forma surpreendente e talvez mesmo só o próprio acreditasse nisso --, Rui Rio ganhou na escolha que fez, Francisco Rodrigues dos Santos ganhou na boleia, Fernando Medina e António Costa perderam. E perderam com estrondo.

A governação socialista do país e de Lisboa abusou do poder, e não teve o pudor da contenção nos meses de campanha eleitoral. Não deixa de ser uma "lição exemplar" dos lisboetas, que quiseram uma mudança. Moedas ganhou, mas sobretudo Costa e Medina perderam. Os lisboetas disseram 'basta'. O novo presidente da câmara afirmou no discurso de vitória que o ciclo de mudança começou em Lisboa... e só faltou dizer que o país ganhou um novo líder. Mas, antes, ainda vai haver mais Rio.

Os resultados destas autárquicas medem-se a partir da realidade existente, e aí Rui Rio tem razão. O líder do PSD perdeu, mas ganhou um novo fôlego para a luta interna, ganhou uma nova legitimidade para um novo mandato à frente do partido e será provavelmente o líder do PSD a ir às próximas eleições legislativas. E depois do que sucedeu com as sondagens em Lisboa, seria no mínimo cínico começar já a antecipar outra derrota nas próximas legislativas. Rio foi até agora um péssimo líder do da oposição, foi Costa a perder nesta noite eleitoral, e talvez a comprovar-se a tese, outra vez, que o poder perde-se mais do que se ganha. Mas quem arrisca o que pode suceder em 2023?

As condições de governabilidade do país mudaram. Não foi apenas Lisboa, que tem ainda mais relevância porque foi a partir daqui que Costa se fez líder do PS. Foi Coimbra e foi também o Porto e o Funchal. Em alguns dos principais centros urbanos o PS perdeu. Um eleitorado que decide o seu voto também em função das decisões políticas do Governo em funções, especialmente quando é o primeiro-ministro e secretário geral do PS a nacionalizar as eleições. Mesmo com promessas de milhões, com chantagens evidentes sobre a escolha dos eleitores. No curto prazo, para negociar este orçamento, chega-lhe a derrota do PCP (mais uma) e a irrelevância autárquica do BE.

Costa não é Guterres, não haverá uma declaração de pântano esta segunda-feira, menos ainda qualquer coisa que se aproxime a um 'atirar a toalha ao chão' do primeiro-ministro. Mas já não chegará prometer milhões. Costa vai ter de mudar de vida, e talvez já não chegue para evitar uma mudança de ciclo político que parecia impossível há 24 horas. Ou talvez tenha sido o sinal que faltava para Costa acabar já com o tabu sobre o seu futuro político em Portugal e não fazer ao PS o que Cavaco fez ao PSD.

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