Mantenha a sua carteira longe do greenwashing do ESG

Menos de um terço da carteira dos fundos ESG está exposta a ativos sustentáveis. Isso faz com que os investidores destes fundos estejam a pagar três vezes para terem exposição a esse tipo de ativos.

Quando em maio do ano passado as autoridades policiais alemãs entraram de rompante nas instalações do Deutsche Bank e da sua sociedade gestora de ativos DWS, o greewashing (ou lavagem verde, em português) passou rapidamente de má publicidade para um enorme risco legal que deixou toda a indústria de gestão de ativos em alerta.

O banco alemão e a DWS são suspeitos de promoverem fraude de greewashing na comercialização e gestão de alguns dos seus fundos relacionados com os critérios de ESG, que selecionam ativos conforme o respeito e a promoção de compromissos éticos e de responsabilidade ambiental, social e governativa dos seus emitentes.

“Consideramos haver suficientes indicações factuais de que, ao contrário da informação contida nos prospetos de venda dos fundos da DWS, os critérios do ESG só foram efetivamente tidos em conta numa minoria de investimentos, não foram tidos em conta num grande número de investimentos (fraude nos prospetos)”, escreveu a porta-voz da Procuradoria de Frankfurt, Nadja Niesen, em comunicado.

O caso da DWS e do Deutsche Bank foi apenas mais um episódio que extrapolou para o lado criminal. Também no ano passado, o Goldman Sachs e o BNY Mellon pagaram multas no valor de 4 milhões e 1,5 milhões de dólares, respetivamente, após o regulador norte-americano (SEC) ter acusado os dois bancos de terem enganado os seus clientes em matéria de ESG na gestão dos seus fundos.

O greewashing no universo dos fundos de investimento que fazem a apologia aos critérios de ESG na seleção de empresas é debatida há muito tempo no seio da indústria. E na carteira dos investidores, esta realidade não é uma total novidade.

Em 2021, a britânica The Economist estudou os 20 maiores fundos ESG do mundo e descobriu que cada um deles detinha investimentos em produtores de combustíveis fósseis, enquanto outros apresentavam participações em petrolíferas, produtores de carvão, tabaqueiras, casinos e em empresas a operar no setor das bebidas alcoólicas.

Mais recentemente, num trabalho académico publicado em dezembro de 2022, Malcolm Baker, Mark Egan e Suproteem Sarkar da Universidade de Harvard, descobriram que mais de dois terços das carteiras dos fundos ESG estão aplicadas “exatamente nos mesmos ativos” que os fundos que não seguem os princípios ESG.

Segundos os investigadores, por cada 100 euros investidos num fundo que promove a sua política de investimento em ativos que respeitam a responsabilidade ambiental, social e governativa, os investidores ganham exposição a apenas 32% dos ativos que, de outra forma, não o conseguiram fazer pela via dos fundos tradicionais.

Não é por acaso que entre as principais posições da maioria dos fundos acionistas mundiais de ESG encontram-se participações em empresas como a Apple, a Alphabet (dona do Google), a Microsoft ou o JP Morgan Chase. Estas empresas são das maiores do mundo e, por isso, com elevado peso nos principais índices acionistas. Mas não é apenas isso.

Como menos de um terço dos ativos dos fundos ESG carregam verdadeiramente o carimbo “verde” e as comissões de gestão destes fundos incorrem sobre todo o portefólio, significa que os investidores em fundos ESG pagam três vezes mais pelo que estão interessados em investir (ativos ESG).

De acordo com dados da Morningstar, apesar de no primeiro trimestre deste ano o volume de capital investido em fundos ESG ter registado uma contração homóloga de 24%, a febre pelo investimento verde continua em alta: nos últimos cinco anos, os investidores investiram, em média, mais de 380 mil milhões de euros por ano em fundos de investimento e em fundos cotados de ações ESG.

Essa “corrida” pelo sustentável poderá até ser uma resposta à ideia de, como alguns defendem, que os fundos ESG são mais robustos do que os fundos convencionais. No entanto, os números mostram que isso não é verdade. Os fundos ESG ganham e perdem tanto como os fundos convencionais.

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No último ano, por exemplo, enquanto o desempenho das ações ESG, replicado pelo índice MSCI World ESG Leaders, foi de 2,95%, as ações mundiais, medidas pelo índice MSCI World, tiveram um desempenho de 2,61%. É uma diferença pouco significativa, que se torna ainda menos relevante com o alargamento do horizonte temporal.

A cinco anos, as posições invertem-se ligeiramente, com as ações mundiais a valorizarem 11,5% por ano e os títulos ESG a ganharem 11,2% por ano. No entanto, a 10 anos, ambos os índices registaram o mesmo desempenho: 9,17% por ano.

O forte fluxo de capital que entrou nos fundos ESG espelha bem o apelo que os investidores têm mostrado por fundos socialmente responsáveis. Afinal, quem é que não gosta da sensação de investir enquanto está a contribuir para um planeta melhor e a promover o bem?

O problema é que, segundos os dados conhecidos da indústria, ao investir em fundos ESG não está a tomar uma posição nem mais nem menos responsável do que investindo num fundo convencional, e nem está a investir em ativos mais rentáveis no longo prazo. Está apenas a pagar três vezes mais pela gestão do seu dinheiro. E isso ninguém quer.

Artigo publicado na edição de 19 de junho do Portefólio Perfeito, a newsletter de finanças pessoais do ECO, que pode subscrever aqui.

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