
Montenegro age como se já tivesse ganho o Grand Prix, mas ainda está nas voltas de aquecimento
Para Montenegro, o exercício de auto-promoção ao anunciar um novo hospital e o regresso da F1 ao Algarve não foi muito benéfico, pois tal como nos autódromos, na política o timing é crucial.
Não tenho nada contra a Fórmula 1. Antes pelo contrário, retenho vivas memórias dos grands prix no Estoril nos anos 80 e 90 e as inesquecíveis rivalidades entre Senna, Prost e outros. Estou certo, portanto, que os fãs do automobilismo irão delirar com o regresso da prova a Portugal. Não duvido, claro, que o grande evento trará benefícios à região algarvia, além dos diretos económicos também os indiretos de promoção, como vincou o primeiro-ministro no discurso em Quarteira na quinta-feira. Mas, infelizmente para Luís Montenegro, o seu próprio exercício de auto-promoção ao anunciar um novo hospital e o regresso da F1 ao Algarve não foi muito benéfico, pois tal como nos autódromos, na política o timing das manobras é crucial.
O líder do PSD até começou o discurso de forma correta, ao falar de não esquecer os que estão a sofrer o flagelo dos incêndios florestais e sobre os esforços do Governo. Mas rapidamente começou a justificar a realização da Festa do Pontal do PSD, “um encontro político, de liberdade de expressão, para falarmos do país, daquilo que temos andado a fazer e daquilo que queremos fazer em nome de todos”. Usando como ‘muleta’ o respeito pelo critério legítimo das televisões dividirem o ecrã para transmitir em simultâneo a festa e os incêndios, disse que também deve ser respeitado o critério do partido optar “encontrar com a sua família política”. A liberdades e legitimidades já lá vamos, mas ficou logo a pergunta: o que é que uma coisa tem a ver com a outra?
Não obstante a reveladora necessidade de Montenegro se autojustificar, é óbvio que o partido tem toda a liberdade para realizar o encontro. A questão não é essa, a questão crítica é como opta por usufruir dessa liberdade. Tendo em conta as circunstâncias, com uma parte do país em chamas, deveria Montenegro ter optado por adiar a festa? Claro que sim, por uma questão de respeito, mas não só. Em termos políticos, foi uma saída da pista. Em vez de ter uma atitude estadista e que teria protegido o Governo, acabou por provocar um coro de críticas, não apenas sobre o evento, mas também sobre não ter cancelado as férias numa altura de incêndios. Acabou por desistir dessa pausa no dia seguinte, de forma tardia e apenas após confirmada a primeira vítima mortal.
Após a tremida e desconfortável partida, o presidente do PSD tentou acertar a condução, mas foi em vão. O triunfalismo dos anúncios sobre o novo hospital, barragens, e os grandes eventos não foram suficientes para compensar o prejuízo inicial. Aliás, dedicados ao Algarve, soavam como promessas para as eleições autárquicas agendadas para 12 de outubro.
O pior da ‘festa’ estava, no entanto, ainda por vir. Embalado pelo espírito de campanha local, Montenegro carregou no acelerador e elencou o rol de ‘feitos’ do seu segundo Governo. Na habitação, sublinhou que aumentou de 26 mil para 59 mil o objetivo concreto de construção na esfera pública. Na saúde, destacou que o novo hospital no Algarve é prova de ação depois de nenhum público ter sido inaugurado pelos socialistas em oito anos de governação. Na imigração, depois das farpas pouco veladas à decisão do Tribunal Constitucional, reiterou a intenção de avançar com nova legislação, que classifica de “mais regulada e humanista”. Na economia sublinhou o bom desempenho (com menos impostos) e prometeu um novo excedente orçamental este ano.
Montenegro está no poder há pouco tempo e já teve de lidar com uma interrupção eleitoral. É natural que queira demonstrar ação decisiva, num país em que algumas crises se tornam agudas e num quadro parlamentar fragmentado. Mas é precisamente por isso que tem de ser mais paciente, consolidar os resultados e só depois disso apresentá-los como vitórias. Não pode andar a apresentar resultados que ainda não colheu, senão arrisca-se a não conseguir navegar as curvas e despistar-se.
Por exemplo, na habitação, falar sobre ter estado na inauguração de 49 novas habitações como se fosse um grande sucesso é contraproducente. É uma gota de água no drama habitacional atual. Só mostra que as metas de milhares de casas novas são difíceis, senão impossíveis. Na saúde, arrancar um novo hospital que estava há muito ‘emperrado’ é uma boa notícia, claro, mas não resolve o drama das urgências que vimos mais uma vez este verão. Na imigração, Montenegro já festeja o sucesso de novas regras que ainda nem foram aprovadas, garantindo que vamos ter os imigrantes que precisamos, isto apesar da inovação da ‘Via Verde’ dar sinais fraquinhos de eficácia.
Sobre o excedente orçamental, num país que ainda sofre do trauma de falências é sempre bem-vindo, mas há que relativizar a importância. Ficamos muito contentes por ter as contas certinhas, mas preferíamos realmente que nos dessem casa e médico.
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