Não herdámos a Terra dos nossos pais, pedimo-la emprestada aos nossos filhos

  • João Wengorovius Meneses
  • 4 Dezembro 2020

No BCSD Portugal, estamos convictos de que, depois da transformação tecnológico-digital em curso, desde o início do século, será a sustentabilidade o maior fator de competitividade das empresas.

«Never before have we had such an awareness of what we are doing to the planet, and never before have we had the power to do something about that.»
Sir David Attenborough, Encontro Anual do World Economic Forum, Davos, 2019

Em 2019, a economia mundial consumiu 100 mil milhões de toneladas de recursos naturais (2), a maioria dos quais não renováveis ou com ciclos longos de renovação, sem os quais não teríamos tido acesso à maioria dos bens de consumo que integram o nosso quotidiano e são fundamentais para o nosso bem-estar, nomeadamente, casas, carros, aviões, comida, roupa, medicamentos, telemóveis, eletrodomésticos, livros, entre tantos outros.

Sendo esses recursos naturais – minérios, madeira, plantas, animais, combustíveis fósseis, entre outros – a base da maioria dos bens que consumimos no dia-a-dia, não será de estranhar que metade do PIB mundial dependa diretamente deles, isto é, de capital natural. Num planeta morto, não haveria nem economia nem empregos.
Mas a natureza não nos proporciona apenas desenvolvimento económico e bem-estar material, ela é também decisiva para a nossa qualidade de vida – por exemplo, ao nos proporcionar o ar que respiramos e a água que bebemos –, e ao regular a temperatura terrestre. Sem estes serviços, não haveria vida na Terra. Por fim, é também uma fonte importante de bem-estar emocional e espiritual.

Apesar da sua importância vital, a verdade é que a natureza ou a biodiversidade (3) estão em sério risco – e o aumento esperado da população mundial irá agravar ainda mais o problema. Os 7,7 mil milhões de pessoas que atualmente habitam na Terra representam apenas 0,01% do peso total de todos os seres vivos (4), mas o seu impacto na biosfera e nos seus ecossistemas é cada vez mais dramático e irreversível.

O ritmo atual de extinção de espécies é dezenas a centenas de vezes superior ao da média dos últimos 10 milhões de anos (5) – e continua a acelerar. Entre a comunidade científica, é consensual que a atividade humana já alterou de forma significativa 75% dos ecossistemas terrestres e 66% dos ecossistemas marinhos (6).

A vida selvagem sofreu um declínio de 60% nos últimos 40 anos (7), mais de metade das florestas e dos recifes de coral já desapareceram e dois terços dos rios estão mortos ou seriamente poluídos. A cada minuto, a deflorestação da Amazónia aumenta três campos de futebol (8). É à luz destes números que se compreende bem o desabafo do historiador Yuval Harari, em A Brief History of Humankind: “Historical records makes Homo sapiens look like an ecological serial killer”.

Este ano, a pegada ecológica da humanidade atingiu o limite da sustentabilidade, ou seja, o seu overshoot day, no dia 22 de agosto (9). Deste então, vivemos a crédito das gerações futuras. Portugal atingiu-o ainda mais cedo, no dia 25 de maio. Desde a década de 1970 que o planeta atinge o overshoot day antes do dia 31 de dezembro, ou seja, há mais de 50 anos que vivemos a crédito das gerações futuras.

Desde a revolução industrial, mas sobretudo nos últimos cem anos, o mundo acelerou. Entre 1900 e 2019, a população mundial passou de 1,65 mil milhões para 7,7 mil milhões de pessoas, o PIB mundial aumentou mais de 20 vezes, passando de 3,42 para 87,2 biliões de dólares, e a esperança média de vida aumentou de 29 para 73 anos.

No século XX, a humanidade alcançou um nível de desenvolvimento ímpar na sua história, ainda que com assimetrias geográficas e entre classes sociais relevantes. É um século que fica marcado pela positiva pelo crescimento económico e da esperança média de vida, pela afirmação da classe média (10), e pela tentativa de consolidação das democracias liberais e dos mecanismos de Estado-providência, sobretudo nos países da OCDE. Porém, esse progresso teve um custo demasiado elevado para o planeta, para os equilíbrios básicos da biosfera, algo que agora coloca em sério risco o nosso bem-estar presente e futuro.

Os impactos provocados no planeta por uma única espécie – a que se distingue das demais pela sua inteligência – são tão profundos que os cientistas denominam a nova era geológica em que estamos a entrar de “Antropoceno”, ou seja, o período em que, pela primeira vez na história, o ser humano é o detonador de uma nova era de alterações geológicas à escala do planeta. Pela primeira vez, a humanidade coloca em risco a vida no planeta. Em 500 milhões de anos de vida na Terra, estamos a entrar na sexta extinção em massa – a última foi há 66 milhões de anos e foi a que extinguiu os dinossauros e 60 a 76% da vida na Terra (11) –, sendo que desta vez somos nós o detonador. Neste momento, há um milhão de espécies em risco de extinção (12) e todos os dias se extinguem 200 espécies (13).

Neste contexto, não será de estranhar que, ao longo dos últimos anos, no Global Risks Report anual do World Economic Forum, geralmente apresentado em Davos, a perda de biodiversidade apareça como um dos riscos cada vez mais sérios, tanto em termos de impacto, como de probabilidade de ocorrência, para os negócios, as economias e a humanidade nos próximos dez anos (14). O desafio é tão sério que no The 2019 Edelman Trust Barometer 76% dos milhares de inquiridos em todo o mundo indica que deseja que as empresas liderem a transição para um novo modelo de desenvolvimento sustentável, não deixando esse papel entregue (apenas) aos Estados, e no The 2020 Edelman Trust Barometer a maioria dos inquiridos afirma mesmo que capitalismo faz mais mal do que bem.

Apesar da pandemia provocada pelo COVID-19 ter adiado para 2021 a realização de vários eventos importantes no domínio da biodiversidade, tais como, o Congresso Mundial de Conservação da IUCN e a Cimeira da Diversidade Biológica (COP15), o tema mantém-se incontornável na agenda internacional e europeia, assumindo um papel central no âmbito do Pacto Ecológico Europeu – e tendo a Comissão Europeia já publicado a nova estratégia da UE para a biodiversidade para 2030.

É de esperar que o tema da biodiversidade saia reforçado da pandemia global COVID-19, já que as zoonoses não são fatalidades da natureza – como são, por exemplo, os vulcões ou os tsunamis –, pelo contrário, resultam de desequilíbrios no modo como nos relacionamos com a biosfera e os ecossistemas. Como afirma Elizabeth Maruma Mrema, Secretária Executiva da Convention on Biological Diversity (CBD), “the COVID-19 pandemic has provided the public with a new understanding of our relationship with nature, and that human well-being is threatened by our degradation of species and ecosystems.” (15)

Seja por imperativo ético, mitigação de riscos, pressão de stakeholders, sobretudo reguladores, investidores, clientes e trabalhadores, ou apenas por oportunidade de negócio, a boa notícia é que a biodiversidade se tem vindo a tornar um tema cada vez mais relevante para as empresas, havendo muitas que já procuram avaliar as implicações, riscos e oportunidades da biodiversidade para os seus modelos de negócio e cadeias de valor. Inclusive, há já empresas que ambicionam adotar modelos de negócio que sejam não apenas sustentáveis, mas regenerativos, isto é, com uma contribuição líquida positiva para a natureza e a biodiversidade. Serão estas as empresas do futuro.

No BCSD Portugal, estamos convictos de que, depois da transformação tecnológico-digital em curso, desde o início do século, será a sustentabilidade o maior fator de competitividade das empresas.
Foi, pois, com o objetivo de mobilizar e ajudar as empresas portuguesas a proteger, promover e restaurar a biodiversidade, os ecossistemas e os serviços que estes prestam, que o BCSD Portugal lançou a iniciativa act4nature Portugal. Trata-se de uma call to action urgente às empresas para que assumam compromissos de base voluntária, integrando nos seus modelos de negócio ações concretas para a conservação e valorização da diversidade biológica, bem como para o uso sustentável, se possível regenerativo, dos recursos naturais.

As relações entre as empresas e a natureza são complexas, difusas e muitas vezes indiretas. Poucas são, ainda, as empresas para as quais a biodiversidade é uma das primeiras prioridades nas suas análises de “materialidade”, e muitas têm dificuldade em integrar este tema na relação com os seus stakeholders, nas suas estratégias e nas suas operações quotidianas. Com esta publicação, pretende-se apresentar os primeiros passos dados pela iniciativa act4nature Portugal, com o objetivo de ajudar as empresas a compreender melhor qual o potencial papel da biodiversidade nos seus modelos de negócio.

A iniciativa act4nature Portugal enquadra-se nos compromissos assumidos, em 2019, pelo BCSD Portugal, ao integrar a coligação Business for Nature16, e tem como objetivo envolver as empresas em compromissos que contribuam para reverter a perda de biodiversidade e a degradação dos ecossistemas e dos serviços que estes prestam. Constitui uma réplica do act4nature international, lançado em França, em 2018, pela associação EpE – Entreprises pour l’Environnement, em parceria com dezenas de multinacionais francesas. A EpE é a congénere francesa do BCSD Portugal, fazendo também parte da Rede Global do WBCSD – World Business Council for Sustainable Development.

Às empresas que aderiram ao act4nature Portugal desde o início, assumindo os 10 compromissos comuns e estabelecendo os seus compromissos individuais, bem como aos 18 membros do seu conselho consultivo, os meus parabéns e agradecimento. Bem-hajam. A equipa do BCSD Portugal tudo fará para que o act4nature Portugal seja um sucesso!

Notas:

  1. “Não herdámos a Terra dos nossos pais, pedimo-la emprestada aos nossos filhos” – Provérbio índio americano.
  2. www.circularity-gap.world/2020
  3. A biodiversidade é a diversidade de organismos vivos e inclui as espécies, os habitats e ecossistemas que coexistem na Terra e que fornecem os serviços de ecossistemas vitais dos quais os humanos e a natureza dependem (IUCN, 2020).
  4. https://fr.weforum.org/reports/nature-risk-rising-why-the-crisis-engulfing-nature-matters-for-business-and-the-economy
  5. www.un.org/sustainabledevelopment/blog/2019/05/nature-decline-unprecedented-report/
  6. https://ipbes.net/news/Media-Release-Global-Assessment
  7. https://c402277.ssl.cf1.rackcdn.com/publications/1187/files/original/LPR2018_Full_Report_Spreads.pdf?1540487589
  8. www.theguardian.com/world/2019/jul/25/amazonian-rainforest-near-unrecoverable-tipping-point e www.ecowatch.com/
  9. www.overshootday.org/
  10. Atualmente, o número de pessoas que pertence à classe média aumenta mais de 160 milhões de pessoas por ano, sendo 60% do aumento na Índia e na China – vide www.brookings.edu/research/the-unprecedented-expansion-of-the-global-middle-class-2/
  11. www.nationalgeographic.com/science/prehistoric-world/mass-extinction/
  12. https://ipbes.net/news/how-did-ipbes-estimate-1-million-species-risk-extinction-globalassessment-report
  13. www.consilium.europa.eu/pt/policies/biodiversity/
  14. Segundo o último relatório do Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services (IPBES), a perda de biodiversidade deve-se, sobretudo, a cinco principais fatores: sobre-exploração dos solos e do mar, alterações climáticas, sobre-exploração de recursos naturais, poluição e impacto de espécies invasoras.
  15. www.theguardian.com/world/2020/apr/06/ban-live-animal-markets-pandemics-un-biodiversity-chief-age-of-extinction
  • João Wengorovius Meneses
  • Secretário Geral do BCSD Portugal

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