O ataque à liberdade de imprensapremium

O apagão digital de que foram vítimas o Expresso e a Sic Notícias é um sinal perigoso dos tempos que vivemos.

O crime cometido contra os títulos de informação do grupo Imprensa veio demonstrar de forma inequívoca a necessidade de as empresas estarem preparadas para os vetores de risco digitais. Mas veio também, e acima de tudo, recolocar na praça pública a importância social do jornalismo de qualidade e a necessidade da defesa intransigente da liberdade de imprensa - até porque este e outros tipos de ataques podem estender-se a outros títulos.

É óbvio que, tendo ocorrido um crime que está sob investigação, não possa haver muita informação disponível. Ainda assim, foi impressionante ver a facilidade com que este tema ocupou a discussão pública nas diversas redes sociais. Apareceram do nada vários comentadores avulsos e pseudo-especialistas para todos os gostos (alguns até insistindo em usar apenas o Facebook para comunicar com as massas, sinal claro do seu profundo entendimento dos riscos do digital). Mesmo quando confrontados com a ausência de pedido de resgate, quase todos continuaram a jurar a pés juntos que o ataque tinha apenas motivação económica. É interessante ponderar porque é que parece assim tão improvável que ocorra um ataque ao jornalismo de qualidade.

O jornalismo confronta poderes. A informação editorial devidamente trabalhada é incómoda e tira o sono a muitos. Claro que todos gostaríamos que o jornalismo fosse mais capaz de denunciar os escândalos e de servir melhor as suas comunidades. Mas isso não anula o facto de que há muito trabalho bem feito em várias redações portuguesas. O Expresso faz parte, por mérito próprio, de redes internacionais de jornalismo de altíssima qualidade; a Sic Notícias faz alguns dos melhores trabalhos de investigação que se têm visto em Portugal. Quer um título quer outro produzem diariamente jornalismo de grande qualidade e têm nos seus quadros alguns dos melhores profissionais do mercado. Não é de todo inverosímil que tenha sido vítima de uma sabotagem - e, ao sê-lo, afetou todos os portugueses.

Quando um título é impedido de publicar a informação que produz, a comunidade a que ele se dirige é vítima de um atentado à liberdade de imprensa; quando um ataque destrói um dos mais importantes arquivos de imprensa da democracia portuguesa, é todo o país que perde memória; e quando os leitores que subscrevem um meio de imprensa de qualidade perdem o seu acesso, há uma violação ao direito de estar informado.

O que algumas pessoas parecem não querer lembrar é que a liberdade de imprensa é um bem frágil e fugaz, que está mais em risco do que parece nestes tempos instáveis. Há muitas formas de atacar o jornalismo e atiçar fantasmas populistas, e não é por acaso que se intensificam cada vez mais as manobras de desinformação diversas e de promoção de propaganda. O assalto ao Capitólio americano que ocorreu há um ano foi ao mesmo tempo causa e consequência de um enorme processo de fragmentação dos média - e está aí para nos lembrar dos riscos da degradação da informação. Estamos, felizmente, longe disso. Mas não tão longe quanto deveríamos estar.

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