O Brexit toca Clash

Shoud I Stay or Should I Go tem mais de 30 anos, mas o refrão sintetiza tudo: se ficar, há problemas; se sair, vão ser a dobrar. O Brexit é o funeral antecipado da economia britânica.

Quando o Euro nasceu, perguntaram a Helmut Kohl por que razão não tinha feito um referendo quanto ao abandono do Marco alemão. O antigo chanceler respondeu de forma enfática: não o fiz, por uma única razão. Tê-lo-ia perdido!

A história ensinou pouco a David Cameron e, talvez ainda menos, a Theresa May. Passaram dois anos e meio desde que a Grã-Bretanha votou por abandonar a União Europeia e reforçar a soberania. O que resta é uma perigosa encruzilhada entre o abismo e uma sobrevivência à tona de água.

Se o parlamento britânico chumbar o acordo com a União Europeia, mais ainda do que a previsível demissão do governo, são as consequências económicas que assustam. Começam numa fatura pesada de indemnização a Bruxelas, passam por um beco sem saída na questão da fronteira com a Irlanda e terminam numa revolução do dia a dia para milhares de empresas e milhões de cidadãos.

Rasgar quatro décadas e meia de regulamentação comercial conjunta ameaça todo e qualquer esquema logístico instalado, desde a simples importação de medicamentos, fruta, legumes ou carne, até às mais intrincadas operações de compra de electricidade, venda de serviços financeiros ou troca de informações de segurança.

A estimativa da indústria britânica aponta para uma imposição de tarifas médias na ordem dos 5,7% para os produtos europeus a entrarem na Grã-Bretanha e de 4,3% em sentido contrário. Impor barreiras alfandegárias vai aumentar a inflação num país que depende muito do exterior, tanto quanto baixar os lucros de quem exporta. Um chumbo implica uma depreciação da Libra na ordem dos 10%, perda de poder de compra, juros a subir e maior dificuldade de crédito para as empresas.

Afundar um acordo é ainda abrir uma espécie de Êxodo dos tempos modernos: os quase 4 milhões de cidadãos europeus na Grã-Bretanha vão, mais cedo do que tarde, perder o direito de permanecer, de trabalhar e de reunir família, tanto como os britânicos verão suprimidos os privilégios que usufruem nos restantes países europeus. E que só uma parceria salva. E só até 2021. É claro que haverá sempre excepções, tanto como muita burocracia e grandes entraves. Afinal, “No means no”!

A grande “lavandaria” internacional vai igualmente engasgar e acelerar um processo de deslocalização financeira que ganhará mais velocidade com o fim do passaporte europeu que permite ao dinheiro entrar nas ilhas e circular por toda a Europa. Não espanta que o FMI aponte para uma queda de 5% do PIB britânico ao fim de meia década de barafunda comercial. Tudo numa economia que ainda não recuperou o poder de compra pré-crise de 2008 e que apresenta como melhor performance um desemprego de 4%, o mais baixo desde os anos oitenta.

Talvez pior ainda que a quebra de rendimento seja a dor de alma: a OMC impõe uma fronteira física entre a República da Irlanda e os seis condados da Irlanda do Norte se o Brexit for de supetão, sem acordo. O pesadelo está em contagem decrescente. Daqui por uma semana saberemos onde estamos. Mas este pode bem ser uma espécie de “Armagedão das Ilhas”, com inevitáveis consequências no continente. E logo agora que a conjuntura está a mudar.

Nota: Por opção própria, o autor escreve segundo a antiga ortografia

  • Jornalista. Subdiretor de Informação da TVI

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