O calvário britânico

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 11 Junho 2017

Theresa May, tendo ganho as eleições, perdeu contra si própria.

A convocação, por David Cameron, do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia constitui a decisão mais dramática da política britânica das últimas décadas. O que começou por ser uma manobra política que, internamente, visava reforçar o Partido Conservador e esvaziar o UKIP e, externamente, pretendia endurecer a posição britânica na sua negociação permanente com a União Europeia transformou-se num terramoto cujas ondas de choque irão perdurar por muitos anos. As eleições gerais que, na passada quinta-feira, ditaram a perda da maioria absoluta dos conservadores estão intimamente ligadas a este processo, tendo sido convocadas pela primeira-ministra Theresa May com dois objetivos.

O primeiro objetivo consistia em reforçar a sua legitimidade política. No parlamentarismo britânico a mudança de primeiro-ministro no decorrer da legislatura é habitual. Margaret Thatcher cedeu o poder a John Major em 1990, na sua terceira legislatura, e Major terminaria a legislatura, revalidando a maioria conservadora em 1992. Gordon Brown sucedeu a um desgastado Tony Blair na chefia do governo em 2007 e as eleições seguintes tiveram lugar no ano previsto, em 2010. Porém, o caos em que Brexit submergiu o Reino Unido alterou a política britânica e May entendeu que as negociações com a Europa requeriam uma legitimidade renovada.

O segundo objetivo da primeira-ministra passava por aproveitar o que entendia ser a debilidade do Partido Trabalhista e ampliar a maioria absoluta de que já dispunha. Com uma eleição “fresca” e mais deputados conservadores, seria mais fácil enfrentar o embate com Bruxelas (e com Berlim e Paris). A aparente incapacidade de Jeremy Corbyn de controlar o próprio partido conjugada com as suas fracas perspectivas eleitorais pareciam criar uma oportunidade que poderia, no pensamento conservador, ser posteriormente invalidada pela emergência de uma nova liderança na oposição ou por um eventual revés quando as negociações formais arrancassem.

Theresa May, tendo ganho as eleições, perdeu contra si própria. Os conservadores obtiveram mais votos e mais deputados e a aritmética parlamentar permite-lhes governar (ao contrário do que aconteceu em Portugal em 2015), mas todos os objetivos que a primeira-ministra tinha estabelecido fracassaram e a sua liderança, no governo e no partido, é hoje muito mais débil do que antes das eleições. A Europa não tardou a reagir e, serenada pelos recentes resultados eleitorais que afastaram (para já) o fantasma da chegada ao poder de partidos anti-sistema, pretende aproveitar as novas circunstâncias britânicas para ganhar vantagens na negociação. O primeiro passo desta estratégia ficou visível em algumas declarações, na manhã de sexta-feira, a exigir o cumprimento dos prazos accionados pelo artigo 50º do Tratado de Lisboa.

Jeremy Corbyn, por seu lado, tendo perdido as eleições, ganhou contra si. As expectativas eram baixas. A luta travada, há um ano, contra o grupo parlamentar; o pouco entusiasmo com que encarou a campanha pelo remain; e um programa social-democrata clássico de ruptura com a terceira via e com o “old new labour” pareciam fazer da sua liderança um corpo estranho e anacrónico. Mais ume vez, as análises falharam (mea culpa) e Corbyn, numa abordagem ao eleitorado jovem que teve semelhanças com a de Bernie Sanders, estava subtilmente a captar votos. Tudo isto num país em que o sistema eleitoral torna praticamente impossível o aparecimento de novas formações que, ao estilo do Podemos ou do Movimento 5 Estrelas, consigam arregimentar o voto dos mais desiludidos com os actores políticos tradicionais.

Nota: Por decisão pessoal, o autor não escreve de acordo com o novo acordo ortográfico

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Presidente da Câmara de Comércio Portugal – Atlântico Sul e professor universitário

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