O coworking como anti-viral

  • Fernando Mendes
  • 4 Agosto 2020

Coworking não é uma nova solução de escritório e muito menos uma área de negócios baseada em operações imobiliárias.

Passaram dez anos desde o lançamento dos primeiros espaços de coworking no país e quinze desde que o termo, que constitui um novo verbo, passou a identificar o movimento. Coworking não é uma nova solução de escritório e muito menos uma área de negócios baseada em operações imobiliárias. Na realidade, não começou como negócio sequer. Pelo contrário, o coworking radica na necessidade de partilha e colaboração entre o crescente contingente de freelancers.

Partilhar, colaborar e aprender de forma mais ágil e rápida é imperativo num mundo que opera em função de dois vetores – escala e velocidade. Nada é suficientemente grande, tal como nada é suficientemente rápido. Veremos como esta voracidade tecnológica, a que se juntou a pandemia da Covid-19 (também ela alimentada de escala e velocidade), afeta os espaços de coworking, em Portugal e no mundo.

Apesar das profundas alterações dos princípios basilares do movimento, sobretudo nos últimos anos, um espaço de coworking em Lisboa é, na sua essência, similar a um qualquer congénere noutro ponto do globo. A informalidade, a abertura, a promoção de diversidade como combustível criativo e até uma certa forma de assemelhar fisicamente estes espaços às nossas casas, são características que, exatamente, identificam estas “casas fora de casa”. Nesse sentido, é difícil conjugar a ideia de um espaço de e para todos com uma emergência de saúde que nos força ao distanciamento físico. De um dia para o outro, a vida desapareceu destes lugares de colisão criativa. O regresso faz-se lentamente e ainda a medo.

As opiniões dividem-se. Uns decretam a morte do coworking. Sem uma dimensão física, sem uma ideia de comunidade participada e sem uma economia em retoma que alimente o “tecido não tecido” dos freelancers, dos independentes, das startups e das pequenas empresas que operam na denominada economia criativa, o coworking deixa de fazer sentido.

De forma mais esperançosa, outros acreditam que este é exactamente o momento em que o coworking pode ser uma peça fulcral no combate ao momento que atravessamos. As empresas, as instituições, o Estado e a maioria da população, perceberam, em modo acelerado pela pandemia, que é possível trabalhar e aprender remotamente. Expressões como trabalho remoto, nomadismo digital e até o regressado teletrabalho são tudo menos novidade para quem opera nestes espaços na última década, mas o que era uma possibilidade para poucos, é agora o desejo de muitos.

A Deskmag, fonte de informação de referência nesta área, antecipa que o coworking pode beneficiar da procura de espaços, por parte de empresas e profissionais, que ofereçam flexibilidade contratual. Alinhando pelo mesmo diapasão, o último boletim da Coworking Insights lista uma série de notícias que alimentam a visão de que os espaços de coworking, mais do que estarem para ficar, são finalmente entendidos como o mais adequado modelo para o “futuro do trabalho”, enquanto lhe continuarmos a chamar trabalho, claro.

Portugal tem espaços de coworking de Viana do Castelo ao Algarve e do continente aos Açores e Madeira. Todos ou quase todos, nós conhecemos e, embora não tenhamos um formato corporativo, foi possível reunir uma boa parte dos atores do coworking nacional numa pequena mas participada conferência online, com mesas redondas que discutiram os temas mais relevantes do movimento em Portugal.
Foi preciso um ser quase infinitamente pequeno para nos permitir olhar para o quase infinitamente grande.

*Fernando de Pina Mendes é fundador do NOW_Beato.

  • Fernando Mendes

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