O Facebook e o desafio da inteligência

A rede de vigilância massiva continua a devorar a nossa privacidade. E nós continuamos a oferecê-la de bom grado, a troco de nada.

No final do ano fiz um resumo da relação dos cidadãos com a tecnologia em 2018, chamando-lhe “O ano em que decidimos ser estúpidos” e onde escrevi que as coisas ainda iam piorar. Não demorou duas semanas para ter o pessimismo confirmado: bastou o “desafio dos dez anos” nas redes sociais para que muito boa gente fizesse o favor de publicar fotos suas agora e há dez anos.

Algo que parece inocente não o é de todo: como bem alertou Kate O’Neill, a gigantesca quantidade de dados publicamente disponíveis é uma enorme ajuda para treinar algoritmos em reconhecimento facial e envelhecimento. Kate O’Neill, que escreveu um livro sobre a necessidade de introduzir princípios humanistas na tecnologia, explicou num texto da Wired de que forma é que uma rede como o Facebook pode rentabilizar os dados e aproveitar para abusar mais uma vez da privacidade dos seus utilizadores.

Tudo isto é grave a três níveis.

  1. Em primeiro lugar, porque oferece à rede social uma vantagem competitiva desproporcionada que lhes permite melhorar os seus algoritmos.
  2. Em segundo, por transformar os dados dos consumidores em dinheiro para o Facebook sem qualquer retorno para os utilizadores.
  3. E, finalmente, coloca a privacidade dos indivíduos e da sociedade em causa.

É grave a nível individual e a nível coletivo, porque é mais um passo para transformar uma comunidade num ambiente de vigilância permanente. Treinar algoritmos para reconhecer a cara de cada um serve para várias coisas, todas elas más: para facilitar o reconhecimento individual em situações públicas, contribuindo para a criação de um estado de supervigilância; Para associar um rosto a um perfil e distribuir publicidade direcionada no espaço público; Para prever o envelhecimento de cada cidadão e garantir que, mesmo que se abandone a plataforma, o Facebook possa continuar a lucrar com os perfis criados. A “vantagem”? Diz o Facebook que assim podemos encontrar mais facilmente os amigos que postam novas fotos.

Ser ignorante em relação aos nossos dados é tão grave como não querer saber o que o Estado faz dos nossos impostos ou o que os eleitos fazem do nosso voto. É uma questão de cidadania, porque os dados pessoais começam a ser tão ou mais importantes que o voto ou os impostos – e, se não cuidamos do que é nosso, não temos o direito de exigir que os outros o façam por nós.

O senhor Zuckerberg já demonstrou várias vezes que não merece ser o guardião dos dados. Não só porque é frequente vítima de assaltos, mas também porque abusa da confiança dos utilizadores e dá acesso aos seus dados privados, sempre para beneficiar monetariamente dessa exploração. Aliás, o escândalo Cambridge Analytica teve um início semelhante: Uma aplicação aparentemente inocente que acabou por servir para explorar dados privados que depois alimentaram uma máquina de manipulação, que ajudou a eleger Trump e a definir o Brexit. Que continuemos, em nome do entretenimento, a alimentar estas máquinas devoradoras da nossa cidadania só confirma que queremos continuar a ser estúpidos.

Ler mais: Pela primeira vez neste espaço, vou propor um livro que (ainda) não li, mas a autora dá garantias e o tema enquadra-se na perfeição. Publicado esta terça-feira, chama-se The Age of Surveillance Capitalism e é da autoria de Shoshana Zuboff, uma catedrática da Harvard Business School. O argumento do livro é que as plataformas como o Google e o Facebook transformaram a experiência humana num produto vendável, criando um mercado para experiências comportamentais em que o produto somos nós e o lucro vai todo para as plataformas.

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