O nacionalismo de suposição

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • 29 Outubro 2017

O bloco independentista avançou escudado em meras suposições e não em factos. A política exige improvisação, mas não pode basear-se exclusivamente em desejos. As oito suposições erradas desta deriva.

O choque entre a declaração de independência do parlamento catalão e a aprovação das medidas propostas pelo Governo, ao abrigo do artigo 155º da Constituição, pelo Senado espanhol foram (por agora) o desfecho possível de um processo de independência marcado pelos erros dos seus impulsionadores.

Seria tudo isto assim tão imprevisível? Não. Um olhar mais atento e mais crítico sobre a história recente de Espanha e sobre os seus actores talvez tivesse sido suficiente para não embarcar numa fantasia que mantém a Catalunha em suspenso há dois anos. No momento em que o nacionalismo catalão moderado incluiu a independência no seu programa e em que contribuiu para constituir um bloco ideologicamente transversal cometeu o seu erro fundador: pensar que um Estado poderia ser fundado ao arrepio de uma Constituição que ele próprio (nacionalismo moderado) ajudara a redigir e a aprovar.

A desvalorização da dimensão jurídica está na génese da sucessão de enormes erros cometidos pelos capitães do processo de desconexão. O formal/legal pode recuar face ao político, mas sobretudo quando é considerado ilegítimo pela comunidade internacional (por exemplo, colonialismo português nos anos 70) ou quando conta com uma maioria clara no contexto social em que se insere. Nenhum destes pressupostos parece ter sido preenchido. O bloco independentista avançou, assim, escudado em meras suposições e não em factos. A política exige improvisação, mas não pode basear-se exclusivamente em desejos.

Foram oito as suposições erradas em que se baseou esta deriva:

  1. Supor que o nacionalismo catalão teria uma votação claramente acima dos 50% nas eleições autonómicas de 2015.
  2. Supor que a aliança entre a marca regional do Podemos e Ada Colau, a presidente da câmara de Barcelona, alinhariam no processo.
  3. Supor que o PSOE de Pedro Sánchez e o PSC de Miguel Iceta assumiriam uma posição neutral em função do desprezo que nutrem por Mariano Rajoy e pelo Partido Popular.
  4. Supor que a União Europeia, no rescaldo da maior crise da história da integração, poderia tolerar o início do desmantelamento de um Estado-membro.
  5. Supor que o Estado espanhol não iria reagir e que os enormes escândalos de corrupção que abalaram o partido do Governo (minoritário) impediriam Mariano Rajoy de actuar.
  6. Supor que o quadro autonómico já teria um peso político equiparável a uma constituição e que o Estado não teria coragem de accionar o artigo 155º (suspensão parcial da autonomia).
  7. Supor que iriam votar mais de três milhões de pessoas no dia 1 de Outubro mesmo no meio do caos e das irresponsáveis cargas policiais do Estado.
  8. Supor que a causa é suficientemente forte para conferir coesão a um bloco constituído por conservadores, liberais, sociais-democratas e militantes anti-globalização.

O nacionalismo catalão transformou-se num nacionalismo de suposição, sem uma alternativa ao guião traçado inicialmente. Este foi o seu maior erro.

Nota: O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

  • Filipe Vasconcelos Romão
  • Presidente da Câmara de Comércio Portugal – Atlântico Sul e professor universitário

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