O que tanto incomoda a Nova SBE?

A censura não se esgota em riscar textos a lápis azul (ou a caneta vermelha) ou em impedir, total ou parcialmente, alguém de publicar.

Certa vez, uma amiga falava-me da prima. Tinha sido muito boa aluna, terminara a licenciatura com uma óptima média; a faculdade havia-lhe oferecido um lugar de assistente, mas ela preferira trabalhar. Sublinho a adversativa, “mas”. É esta a ideia que muita gente tem da carreira universitária: não é trabalhar. E, aparentemente, também deve ser um mundo virtual, porque há muito quem mencione o “mundo real” por oposição à Universidade.

Os académicos seriam, assim, pessoas indolentes e alheadas da realidade, porque, fechadas nos seus gabinetes, a ler sobre o mundo, a analisar os dados sobre o mundo, a reflectir sobre o mundo – sem trabalhar! –, furtam-se a essa poderosa metodologia, o umbiguismo, que consiste em andar pelas ruas e confundir realidade com aquilo que se consegue apreender pela experiência própria.

Bom, a verdade é que muitos académicos evitam, efectivamente, não o conhecimento do mundo, mas a partilha desse conhecimento. Trancam-se num quarto de uma torre de marfim e só dele saem para irem à sala, também na torre. É que, como dizem que Einstein terá dito, “qualquer tolo inteligente consegue fazer coisas maiores e mais complexas, mas é preciso um toque de génio e muita coragem para ir na direcção oposta”.

Reconhecendo a necessidade de ter “Rapunzeis” nessas torres, o novo Estatuto da Carreira Docente Universitária, aprovado em 2009, veio acrescentar às funções dos docentes a participação em actividades de “extensão universitária, de divulgação científica e de valorização económica e social do conhecimento” e, correspondentemente, incluiu-a nos elementos de avaliação de desempenho dos professores.

Essa alteração foi ao encontro das recomendações feitas, dez anos antes, pela Comissão Kellogg. Um dos relatórios deste grupo de trabalho criado pela Association of Public and Land-grant Universities para se debruçar sobre o futuro do ensino superior foi, precisamente, dedicado à envolvência das universidades na sociedade em que se inserem. Aliás, o tema da abertura da Academia é, ele próprio, objecto de reflexão académica, levando já 20 anos de debate, como se descreve no livro Building the Field of Higher Education Engagement, havendo até um Journal of Higher Education Outreach and Engagement.

Abraçando este espírito, a Nova School of Business and Economics (Nova SBE), a marca com que se apresenta a Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, diz que a sua missão é “ser uma comunidade aberta”, com “impacto no mundo” e coloca a “abertura ao mundo” como um dos seus valores. Na apresentação que fazem a potenciais alunos, apontam como factores para serem por estes escolhidos a “cobertura regular nos media”.

Mas não basta escrever isto num site. O envolvimento das instituições com o “mundo real” não se pode ficar pela intenção, tem de ser uma prática de que haja evidência, inclusivamente porque é um dos critérios para obter acreditações. Por exemplo, a Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching tem uma Community Engagement Classification. Por isso, faz sentido que a Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa queira ter a sua marca associada à presença que os seus docentes têm em conferências, em entrevistas, em programas de televisão, em artigos de opinião e que, em Abril deste ano, por e-mail, os tenha instruído nesse sentido: referir sempre a afiliação académica.

Foi, por isso, muito surpreendente ler o artigo de Bruno Faria Lopes na revista Sábado, onde é relatado o resultado de uma reunião do Conselho Restrito de Catedráticos da Nova SBE, ocorrida no início de Maio. Este órgão decidiu que os professores da instituição deveriam omitir o nome da faculdade na sua assinatura nas intervenções mediáticas em que estejam a dar a sua opinião.

Essa surpresa decorre do que escrevi nos parágrafos anteriores, que se aplica a qualquer universidade, mas também do facto de que, tratando-se de uma escola de Economia, é suposto que os seus docentes conheçam a teoria dos contratos e percebam que a relação entre leitor e colunista de opinião é assimétrica. Tal como o nível de habilitações serve para o candidato a um emprego sinalizar ao empregador que é qualificado para as funções que pretende assumir, ter uma pequena biografia sobre quem opina fornece ao leitor um contexto sobre aquilo que vai ler e permite-lhe ajuizar melhor a opinião proferida.

Naturalmente, cada um de nós assume vários papéis nas suas vidas. E diferentes circunstâncias exigem diferentes “chapéus”. Por exemplo, quem aqui quiser saber quem é esta pessoa que escreve este artigo vai encontrar uma descrição que difere da que dei quando uma grande amiga, cuja amizade se confunde com as nossas vidas, me convidou para ser oradora num encontro de Psicologia, mostrando que as áreas científicas são, mais que caixinhas, sacos de rede, que assumem várias formas e que permitem contacto. Eu sou a mesma, mas o que me trouxe à opinião do ECO é diferente do que me levou ao encontro de Psicologia e, por isso, a informação sobre mim deve ser a que melhor permite compreender o porquê da minha presença em cada um dos espaços.

Depois de surpresa, fiquei confusa ao constatar que José Ferreira Machado, o catedrático que lançou a discussão sobre a (in)conveniência da assinatura com afiliação, publicou, a 12 de Maio e a 16 de Junho deste ano, dois artigos no jornal Observador onde se apresenta como professor de Economia e de Econometria na Universidade Nova de Lisboa; também António Nogueira Leite, que o secundou, indica, na revista Visão, que é professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa e, no Jornal de Negócios, Daniel Traça dá a sua opinião e aparece como Professor na Nova SBE. São apenas exemplos, porque, como referi, era a própria Nova que pedia aos docentes que a mencionassem, portanto, deveria ser a prática generalizada.

É a prática de Susana Peralta, colunista do Público. E aqui a confusão começa a desaparecer. Como se lê no artigo da Sábado, na referida reunião, Susana Peralta foi referida como estando a gerar uma associação da marca, a Nova SBE, a posições políticas “desagradáveis” e “de esquerda”, contrariando a matriz liberal da Nova. Irónico. Eu não passei a achar que a faculdade onde estudei era apologista de ditaduras, quando ouvi o seu Director a pedir que olhássemos com abertura para o modelo político chinês. Mas, pronto, isso sou eu, que separo instituições de pessoas.

E, então, a surpresa e a confusão deram lugar à tristeza. Tristeza por ver que, na minha alma mater, não se acolhe o pluralismo, embora no site a palavra “diversidade” venha várias vezes referida com uma conotação positiva. Quando se assume que há liberdade de pensamento numa instituição, nunca as posições assumidas pelos seus elementos podem ser tomadas pela matriz da organização. É mera questão de lógica. Que é especialmente verdade no contexto da Academia, onde os professores gozam, estatutariamente, de autonomia pedagógica e científica.

Dir-me-ão que não tenho razões para estar triste, porque não se trata de censura. Direi eu que a censura não se esgota em riscar textos a lápis azul (ou a caneta vermelha) ou em impedir, total ou parcialmente, alguém de publicar. Quando a Susana Peralta fica a saber que os seus artigos incomodam a instituição, que provocam telefonemas desagradados de entidades envolvidas com a faculdade, está obviamente a ser condicionada. Ainda que não lho digam frontalmente: só estipulam uma regra que os próprios não aplicam.

À Susana Peralta, de quem sou amiga (fica a declaração de interesses feita), só tenho uma coisa a dizer: também os teus artigos de opinião, assertivos e bem fundamentados, têm um grande “impact factor”. Na verdade, tenho mais uma, um conselho: passa a assinar como professora da FEUNL.

Nota: A autora escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

Disclaimer: As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente a sua autora.

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