Editorial

O Sporting é o novo BES?

O Sporting já bateu no fundo? Não, ainda não, mas corre o risco de se transformar no novo BES. Mas, neste caso, não haverá um 'Bom Sporting' ou um 'Mau Sporting'. Simplesmente, não haverá Sporting.

Uma crise sem precedentes, um nível de violência que chocou o país, suspeitas de jogos comprados, indícios de corrupção. O Sporting bateu no fundo? Não, ainda não. Quando se vê um histórico do clube como José Maria Ricciardi, sem meias-palavras, a pedir a demissão imediata do presidente do clube, Bruno de Carvalho, a alertar para os riscos que o clube está a atravessar do ponto de vista económico e financeiro, rapidamente vem à memória o que aconteceu no BES, os seus avisos, à data isolados dentro da família, e depois a queda de um grupo que parecia indestrutível. O Sporting é o novo BES? Já estivemos mais longe.

O que se passa no Sporting nos últimos meses de forma pública e notória – e podemos imaginar hoje o que já se passava nos gabinetes – permite dizer sem arriscar muito que o que está em causa é mesmo a sobrevivência de um clube histórico. Para lá das dimensões judiciais na sequência do inacreditável ato de violência de que foram alvo os jogadores e o treinador do clube, há uma dimensão empresarial que é absolutamente crítica para o Sporting ultrapassar esta crise. E tendo em conta que Bruno de Carvalho continua agarrado ao poder – tal como estava Ricardo Salgado no BES -, parece que quer ser responsável por uma última decisão: a falência do Sporting. Recorde-se, o Sporting quer adiar um reembolso do empréstimo obrigacionista de 2015, no valor de 30 milhões de euros, previsto para de 25 de maio, para novembro, e tem uma assembleia geral de obrigacionistas no próximo dia 20… Se não for aprovado, o risco de ‘default’ é enorme. Talvez se perceba melhor, agora, porque é que o BCP e o Novo Banco decidiram ‘perdoar’ 94,5 milhões de euros de dívida. Para tentar receber algum a prazo, coisa que, agora, parece mais distante.

Agora, em vez de apresentar já a demissão ou, no mínimo, acelerar a convocatória de eleições, quer reunir a assembleia geral para discutir o estado do clube. Mesmo? Há dúvidas? Há dois riscos evidentes para uma ‘besização’ do Sporting, um primeiro imediato e outro a prazo, e cada dia que passa aproxima o clube do abismo:

  1. Em primeiro lugar, a falência económica e financeira, na sequência de um possível (mais do que provável) pedido de rescisão dos contratos dos melhores jogadores por justa causa. Seria um rombo ingerível, e neste quadro, é no mínimo questionável perceber quem é que estará disponível para investir em obrigações da SAD do clube, desta vez são 15 milhões de euros, que vão ser emitidas nas próximas semanas. A NOS, o principal patrocinador, mantém para já os contratos, mas Miguel Almeida já deixou avisos.
  2. Em segundo lugar, os casos judiciais conhecidos nos últimos dias sobre as suspeitas de compra de resultados nas modalidades ditas amadoras e também no futebol podem ter consequências desportivas gravíssimas, eventualmente até à descida de divisão.

O Sporting parece, por estes dias, bloqueado numa crise institucional, porque está refém de um presidente, mas poderá ultrapassar esta fase se Bruno de Carvalho sair já, antes que o clube caia na crise financeira. Esta é a linha vermelha para evitar uma catástrofe. É ‘só’ isto que está em causa. Mais do que procurar novos candidatos à presidência do clube, o Sporting e os seus órgãos sociais têm de demitir Bruno de Carvalho com caráter de urgência, sob pena de virem a lamentar o que não fizeram. Porque aqui não haverá um ‘Mau Sporting’ e um ‘Bom Sporting’. Nem vão aparecer fundos americanos ou asiáticos para tomarem conta do clube. Simplesmente, não haverá Sporting.

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