O voto tecnológico

O teste de uma nova tecnologia em ambiente real provocou uma pequena desgraça na escolha do candidato a Presidente americano e serve de aviso contra o solucionismo tecnológico

Na primeira das muitas batalhas estaduais para a escolha do candidato democrata à Casa Branca, optou-se por usar uma aplicação para telemóvel que nunca tinha sido testada e nem sequer estava aprovada nas lojas oficiais da Google e da Apple. O resultado foi um caos sem precedentes que pôs a nu o desalinho entre o marketing de algumas start-ups e a sua capacidade real de apresentar um produto em condições. Mas este caso revela algo de mais profundo – e preocupante. Revela a facilidade com que se aceitam soluções “tecnológicas” para problemas que não o são, e demonstra a fé que se colocam em soluções que não se compreendem.

Numa apresentação de Powerpoint, esta app estranha até poderia fazer sentido; no mundo real, com pessoas reais, era um desastre à espera de acontecer. O grau de ignorância tecnológica e impreparação técnica dos decisores políticos é um problema dramático. As pessoas que aprovaram uma aplicação mal concebida e ainda nem testada são as mesmas que, num lugar de poder público, poderiam perfeitamente fazer o mesmo numa eleição federal ou nacional – e não há qualquer sinal de que os políticos portugueses, espanhóis ou italianos estejam mais bem preparados.

As soluções tecnológicas evoluíram demasiado depressa e ganharam um estatuto de infalibilidade que não está de acordo com o que se passa no mundo real – como demonstram os muitos crimes do Facebook e os abusos na aplicação de soluções de inteligência artificial. Yuval Harari, o conhecido historiador israelita, bem alertou para os riscos da “religião tecnológica” alimentada a dados que servirá como solução universal para todas as questões da existência, mesmo que isso acabe por dispensar o fator humano.

É certo que há problemas relacionados com a participação eleitoral que a tecnologia pode ajudar a resolver. E até é possível que, no futuro, opções como a blockchain venham a servir para garantir uma impressão digital única que valide o voto individual. Mas nos tempos mais próximos devia ser proibido sequer conceber a introdução de qualquer tecnologia que registe e armazene o voto individual sem o correspondente comprovativo em papel, efetuado por uma presença física.

Claro que o papel não é infalível e o voto individual continua a poder ser manipulado, mas tecnologia torna demasiado fácil potenciar o efeito de rede e manipular milhares ou milhões de votos com um clique. E este cenário pode tornar-se num pesadelo quando estamos prestes a entregar a gestão estratégica das nossas telecomunicações a empresas que estão a soldo de governos anti-democráticos e expansionistas.

Se queremos empregar soluções tecnológicas para resolver problemas relacionados com a participação eleitoral, faríamos melhor em monitorizar o problema da desinformação nas redes sociais. Essa, que é uma questão muito amplificada pela tecnologia, deveria ter soluções apropriadas fornecidas pela tecnologia – mas a desresponsabilização das empresas que criam o problema deixa as entidades e os cidadãos completamente à mercê de quem tem dinheiro e capacidade para manipular o sistema.

Ler mais: Vai ser posto à venda para a semana um livro essencial sobre esta questão da desinformação. Chama-se Fake News: Understanding Media and Misinformation in the Digital Age e é o cruzamento perfeito entre a abordagem académica e o olhar pragmático, incluindo abordagens que permitem minorar e resolver o problema.

Uma carta aos nossos leitores

Vivemos tempos indescritíveis, sem paralelo, e isso é, em si mesmo, uma expressão do que se exige hoje aos jornalistas que têm um papel essencial a informar os leitores. Se os médicos são a primeira frente de batalha, os que recebem aqueles que são contaminados por este vírus, os jornalistas, o jornalismo é o outro lado, o que tem de contribuir para que menos pessoas precisem desses médicos. É esse um dos papéis que nos é exigido, sem quarentenas, mas à distância, com o mesmo rigor de sempre.

Aqui, no ECO, estamos a trabalhar 24 horas vezes 24 horas para garantir que os nossos leitores têm acesso a informação credível, rigorosa, tempestiva, útil à decisão. Para garantir que os milhares de novos leitores que, nas duas últimas semanas, visitaram o ECO escolham por cá ficar. Estamos em regime de teletrabalho, claro, mas com muita comunicação, talvez mais do que nunca nestes pouco mais de três anos de história.

  • Acompanhamos a cobertura da atualidade, porque tudo é economia.
  • Escrevemos Reportagens e Especiais sobre os planos económicos e as consequências desta crise para empresas e trabalhadores.
  • Abrimos um consultório de perguntas e respostas sobre as mudanças na lei, em parceria com escritórios de advogados. Contamos histórias sobre as empresas que estão a mudar de negócio para ajudar o país
  • Escrutinamos o que o Governo está a fazer, exigimos respostas, saímos da cadeira (onde quer que ele esteja) ou usamos os ecrãs das plataformas que nos permitem questionar à distância.

O que queremos fazer? O que dissemos que faríamos no nosso manifesto editorial

  • O ECO é um jornal económico online para os empresários e gestores, para investidores, para os trabalhadores que defendem as empresas como centros de criação de riqueza, para os estudantes que estão a chegar ao mercado de trabalho, para os novos líderes.

No momento em que uma pandemia se transforma numa crise económica sem precedentes, provavelmente desde a segunda guerra mundial, a função do ECO e dos seus jornalistas é ainda mais crítica. E num mundo de redes sociais e de cadeias de mensagens falsas – não são fake news, porque não são news --, a responsabilidade dos jornalistas é imensa. Não a recusaremos.

No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

É por isso que precisamos de si, caro leitor. Que nos visite. Que partilhe as nossas notícias, que comente, que sugira, que critique quando for caso disso. O ECO tem (ainda) um modelo de acesso livre, não gratuito porque o jornalismo custa dinheiro, investimento, e alguém o paga. No nosso caso, são desde logo os acionistas que, desde o primeiro dia, acreditaram no projeto que lhes foi apresentado. E acreditaram e acreditam na função do jornalismo independente. E os parceiros anunciantes que também acreditam no ECO, na sua credibilidade. As equipas do ECO, a editorial, a comercial, os novos negócios, a de desenvolvimento digital e multimédia estão a fazer a sua parte. Mas vamos precisar também de si, caro leitor, para garantir que o ECO é económica e financeiramente sustentável e independente, condições para continuar a fazer jornalismo de qualidade.

Em breve, passaremos ao modelo ‘freemium’, isto é, com notícias de acesso livre e outras exclusivas para assinantes. Comprometemo-nos a partilhar, logo que possível, os termos e as condições desta evolução, da carta de compromisso que lhe vamos apresentar. Esta é uma carta de apresentação, o convite para ser assinante do ECO vai seguir nas próximas semanas. Precisamos de si.

António Costa

Publisher do ECO

Comentários ({{ total }})

O voto tecnológico

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião