Editorial

O Web Summit acabou

Marine Le Pen foi convidada para estar no Web Summit e desconvidada logo a seguir. Um erro corrigido com outro erro, ou o fim do Web Summit como o conhecemos.

Marine Le Pen já não vem ao Web Summit, portanto, tudo está bem quando acaba bem, certo? Errado. Este é um daqueles episódios em que tudo está mal, desde logo o convite a um líder político nacionalista para uma cimeira da globalização, mas também o ‘desconvite’ por causa da pressão das redes sociais.

Paddy Cosgrave, o fundador do Web Summit, decidiu convidar Le Pen para o evento deste ano. Porquê? Num longo texto nas redes sociais, afirmou: Porque vê uma Europa onde “políticos extremistas”, que a seu ver são “detestáveis”, estão a ser eleitos. “Há uma necessidade palpável de debate e discussão sobre este fenómeno, as suas causas e o papel que a tecnologia está a desempenhar”, considerou. “O Web Summit é um fórum para o debate e discussão de muitos pontos de vista, e não uma plataforma política para um só ponto de vista”, salientou, chegando a comparar o convite dirigido a Marine Le Pen com a vinda de sindicalistas a edições anteriores do Web Summit.

A comparação pode parecer excessiva, mas não é. O que distingue a agenda política de Le Pen com a dos comunistas, do Bloco de Esquerda e de outros movimentos de extrema-esquerda na Europa? Pouco ou nada, porque os extremos tocam-se. É evidente que o convite é completamente despropositado e simplesmente não deveria ter sido feito. Porque não estão em causa apenas diferenças de opiniões, mas a discussão com alguém que quer mesmo acabar com o espírito Web Summit na Europa e no mundo (leia-se o espírito de quem lá vai, porque dos organizadores, já se viu, a coisa é um pouco diferente…). Le Pen tem os seus canais de comunicação, e bem oleados, como sabemos, tendo em conta os resultados das últimas presidências francesas, com 35% dos votos na segunda volta, perdendo para Macron. Cosgrave não resistiu ao número de marketing, não resistiu a ter um nome polémico, como convém a estes eventos. Enganou-se.

Tão rapidamente justificou o convite, como, logo a seguir, faz ainda pior. O líder do WS – uma iniciativa privada, de empreendedores tecnológicos – passou a decisão para o governo. Se recebesse alguma indicação do poder político, aquele que lhe garante os financiamentos, desfazeria o convite. Publicamente, o governo fez saber que não faria qualquer comentário ou daria alguma orientação, e bem. O mundo virado ao contrário ou, na verdade, a confirmação de uma coisa que já deveríamos saber. O WS é um evento comercial, a cultura do evento é o dinheiro, e não há problema nenhum nisso… desde que não nos enganem.

O fim deste caso, já sabemos, não foi preciso muito tempo para Paddy Cosgrave anunciar que, afinal, depois de muita reflexão (???), tinha concluído que a decisão correta era retirar o convite a Le Pen. Na verdade, não resistiu à pressão da esquerda, pressão nas redes sociais, o que não deixa de ser uma ironia, pela natureza do próprio Web Summit. A tolerância que tanto defendem na sua expressão mais restrita: Só para os nossos, para aqueles com quem concordamos.

O Web Summit, tal como o conhecemos, acabou. Este desfecho merece, ainda assim, duas ou três notas finais:

  1. Há, em muitas cabeças, uma grande confusão entre o papel do Estado e do governo como patrocinadores do evento e quem o organiza. A reação que fez cair o convite já feito e aceite com a justificação de que o Estado financia o evento mostra como é a conceção de independência dos promotores do evento na definição dos seus conteúdos. O Governo financia o WS para o país ter publicidade internacional, mas, está visto, passa também a ser dono do evento. Ou, os promotores podem ter toda a liberdade desde que convidem as pessoas certas.
  2. Paddy Cosgrave não voltará a ter liberdade para convidar quem quer. A partir de agora, aqui ou em qualquer outro país, terá de fazer uma lista prévia e enviá-la ao poder político em funções, ao que lhe paga. Só depois disso, por aprovação formal ou tácita, poderá fazer os devidos convites. Estamos a falar de um evento promovido por quem defende o empreendedorismo, a liberdade de iniciativa privada e a inovação.
  3. Tendo em conta que há uma negociação em curso entre o Web Summit e o Estado português para o prolongamento do evento em Lisboa pormais dez anos, não é difícil antecipar que este acordo já estará fechado. Paddy Cosgrave colocou-se nas mãos do governo, arriscou a sua credibilidade e independência, e do próprio evento. Só pode ter uma explicação: o Web Summit acabou tal como o conhecemos, mas vai continuar por cá mais uns anos.

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