Editorial

Os europeus já escolheram o presidente dos EUA. E os americanos?

Em dia de eleições, se a escolha dependesse dos europeus, Donald Trump seria derrotado (e bem). Falta saber o que querem os americanos. E vai ser preciso olhar para a Pensilvânia e para a Flórida.

Se os europeus pudessem votar esta terça-feira nas eleições presidenciais dos EUA, Donald Trump já teria perdido, e percebe-se porquê: Trump cortou os laços com a União Europeia e até celebrou o Brexit. A britânica The Economist fez mesmo uma declaração de apoio ao candidato democrata.“Why it has to be Biden” ou, em português, porque é que tem de ser Biden a ganhar. Mas como são os americanos a decidir a escolha do seu presidente, e em certa medida do mundo, ainda ninguém arrisca um resultado certo, apesar do que dizem as sondagens, e todos se lembram do que sucedeu em 2016.

O que é que se sabe ao dia de hoje? Já votaram mais de 99 milhões de americanos, seja por correio seja no voto em urna de forma antecipada, o que corresponde a cerca de 70% da totalidade dos votos de 2016. Sabe-se também que os votos antecipados são sobretudo democratas, com um apoio a Joe Biden. E teme-se que Trump não aceite os resultados, particularmente os por correspondência, recorra para os tribunais, e isso pode significar que ainda não será na madrugada de quarta-feira que será conhecido o presidente americano para o próximo mandato.

De acordo com uma análise do Financial Times às sondagens já publicadas, as intenções de voto em Trump e Biden são as seguintes:

Fonte: Financial Times

Mais do que em qualquer outro momento eleitoral recente, as eleições americanos são mais uma referendo à política de Trump dos últimos quatro anos do que à escolha entre dois candidatos. Quem vai perder, ou ganhar, é Trump, que quase parece estar sozinho nestas eleições. O seu opositor é Biden, conhecido como ‘sleepy Joe’ (Joe dorminhoco), mas poderia ser outro qualquer democrata e as discussões seriam quase as mesmas. Está em causa escolher entre um inimputável (Trump), como se viu em todo o processo da pandemia, e um adversário. (Um nota: Nos EUA já morreram 230 mil pessoas com a Covid-19).

Trump (quase) acabou com o multilateralismo, afrontou a China mas deu-lhe, ao mesmo tempo, oportunidade de se afirmar internacionalmente, saiu do acordo do Clima, criticou a OMC, rompeu com a Organização Mundial de Saúde. Fez, à bruta, uma viragem para o Pacífico (já iniciada por Obama, diga-se), mas sobretudo criou instabilidade no mundo. Perante um radical, Biden é o mínimo denominador comum, e se calhar é mesmo isso que os EUA e o mundo precisam, de quatro anos para recuperar dos estragos que Trump causou.

A economia, essa, correu bem a Trump nestes quatro anos e se não fosse a pandemia, provavelmente estaríamos aqui e hoje a antecipar a renovação do mandato do atual presidente. Para os americanos, para milhões de americanos, é isso que conta. E até este último trimestre revelou uma resposta e uma flexibilidade dos EUA que só se viu… na China. Em termos homólogos, a economia americana cresceu 7,4% em comparação com o trimestre anterior e 33,1% numa base anualizada (a fórmula de cálculo usada pelas autoridades americanas).

Quais são os estados a ter em conta nesta noite eleitoral? Cito aqui (outra vez) a newsletter do Filipe Santos Costa deste sábado:

  • Olhos postos na Pensilvânia (e na Flórida, como sempre)

“Neste cenário, basta a Biden vencer num destes Estados e bloqueia a maioria dos votos no Colégio Eleitoral (279 se vencer só na Pensilvânia; 288 na improbabilidade de vencer só na Flórida). Trump teria de vencer em ambos, e aí contaria 279 votos.

Mas os candidatos não estão em pé de igualdade nos dois Estados que podem ser o tipping point desta eleição. Na Flórida as sondagens dizem que estão empatados, mas na Pensilvânia Biden tem uma vantagem de cinco pontos. Em setembro foi menor, no início de outubro foi maior, mas Biden tem liderado consistentemente na média das intenções de voto do seu Estado natal.

Os dois Estados têm recebido grande atenção de ambas as candidaturas nesta reta final. Biden foi à Flórida dizer: “Vocês têm a chave desta eleição”. Trump assegurou que “se ganharmos a Pensilvânia, ganhamos tudo”.

Ambos têm razão: é quase impossível que Biden vença na Flórida sem vencer na Pensilvânia; tem a ver com dinâmicas do eleitorado. Do mesmo modo, se Trump ganhar na Pensilvânia, venceu quase de certeza na Flórida, porque isso significará que no momento da verdade as coisas viraram a seu favor”.

Uma coisa parece certa, vai ser uma noite longa e provavelmente sem decisões finais. Pior será mesmo se, à ausência de um vencedor se somarem distúrbios e confrontos na rua. A democracia dos pesos e contrapesos, das instituições… ao que chegou depois de quatro anos de presidência de Trump.

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