Os limites da tolerânciapremium

Um manifesto de ataque ao jornalismo é um bom pretexto para discutir espaço público, censura e tolerância democrática.

Circula por aí um manifesto que acusa um jornal de censura e faz equivaler a liberdade de expressão ao dever de amplificação dessa mesma expressão. O texto é oportunista e surge a coberto do espaço ocupado pelos negacionistas do Covid-19 e de outros populismos que desprezam o conhecimento científico. O manifesto toma decisões bacocas sobre qual deve ser o papel dos jornais e tece considerações desinformadas sobre as megacorporações. Tudo em nome da defesa de um espaço público em que, aparentemente, o que se quer é a relativização total das opiniões e em que todas as vozes, só por si, possam valer o mesmo.

O texto é assinado, entre outros, por um médico urologista que acha que percebe de virologia e tem espalhado desinformação anti-científica, uma jornalista que não tem carteira profissional e apenas publica textos de opinião e uma académica que salta de universidade ao mesmo tempo que salta de polémica em polémica. Seria difícil esperar rigor e qualidade deste grupo, mas vale a pena pegar no tema para discutir o papel do jornalismo e a relevância da ideia de espaço público.

Só faltava que os jornais tivessem, individualmente, de publicar qualquer opinião de qualquer pessoa a cada momento. E era só o que faltava que um qualquer jornal não pudesse despublicar um texto – independentemente do desleixo que isso revela, é algo que pode e deve acontecer sempre que a sua direção editorial entenda que é necessário.

É óbvio que a direção do Público esteve muito mal ao colocar online um texto que considerava que nunca deveria ter visto a luz do dia; mas o que é essencial perceber aqui é que a responsabilidade de um jornal joga-se com a sua comunidade de leitores. O Público tem, tal como todos os outros, uma comunidade que se revê nele e onde a responsabilidade e respeitabilidade do título se jogam na capacidade de dar resposta aos anseios dessa comunidade.

Enquadrado no respeito pela lei nacional, essa é a sua única responsabilidade – até porque é isso que decide a sua relevância e, no limite, a sua sobrevivência. O que os autores do tal manifesto querem garantir é a utilização do espaço de publicações credíveis para que possam propagar as suas ideias negacionistas e, com isso, ganhar protagonismo. O Público, tal como outros títulos credíveis, não tem de o fazer. Mas isso não equivale a assumir que isso significa um silenciamento de quem não tem espaço ali – muito menos num momento histórico em que o digital dá voz a tanta gente.

É aqui que entra a questão da esfera pública. Até ao final do século XX, o espaço público nas democracias era mediado pelos atores públicos (políticos, famosos) e por quem decidia o que era relevante (as direções editoriais dos títulos informativos). A desintermediação extrema do espaço público nasceu com a internet: ela colocou um bloco de notas público na mão de cada utilizador e logo a seguir as redes sociais colocaram um megafone em frente a cada um desses utilizadores.

A contabilidade ainda vai demorar a ser feita, mas neste momento é claro que o espaço público democrático se degradou consideravelmente – não por causa do aumento de vozes, mas pela forma como muitas dessas novas vozes são promovidas.

Hoje a popularidade é decidida por um algoritmo que está única e exclusivamente ao serviço dos interesses financeiros das plataformas, que sabem que o emotivo vende e por isso exploram mais um discurso de ódio do que um comentário racional. Isto não tem rigorosamente nada a ver com democracia, tem a ver apenas com a exploração de instintos primários do ser humano para gerar mais riqueza a algumas empresas de Silicon Valley. Pior ainda, essas plataformas dão terreno fértil a manipulações desonestas das cabeças alheias: vários interesses estrangeiros manipularam eleições em dezenas de países e estimularam a promoção de uma mentalidade anti-científica em que o sentimento tem o mesmo valor que um facto cientificamente demonstrado. O resultado imediato é uma década em que os populismos e os extremismos cresceram, os ignorantes passaram a gritar mais alto e as manipulações de processos democráticos se repetiram.

A esfera pública está claramente em crise porque o racionalismo deixou de ter o mesmo valor. E nisto, nem os jornais nem os jornalistas estão isentos de responsabilidades. Tem-se visto que, às vezes, os obtusos são também portadores de carteira jornalística; e também que, a coberto da tal economia dos cliques, os jornais têm dado espaço a gente mais ou menos famosa para que falem de cátedra em assuntos sobre os quais são absolutamente ignorantes.

Tudo isto são sintomas, não a explicação para o problema. E do que precisamos é de mais e melhor jornalismo, com mais rigor e mais crivo – não de transformar os jornais em meras plataformas amplificadoras das redes sociais. Se um jornal quer servir a sua comunidade, não o poderá fazer a dar o mesmo espaço a um cientista reconhecido e a um populista sem credenciais apenas porque este fala mais alto; nesse sentido, a esfera pública será melhor tratada se tiver menos vozes, não mais. E cabe absolutamente aos jornais e aos jornalistas escolher com quem querem privar nesse esforço de serviço à sua comunidade.

Nesta matéria, como noutras, o relativismo é extremamente perigoso. E antes que se fale em censura, vale a pena recordar que ela define os limites da tolerância. Karl Popper explicou há muitos anos que uma sociedade que não coloca limites à tolerância acaba por ser vítima de si mesma e é tomada pelos intolerantes, que se encarregam de destruir todos os que pensam diferente. Portanto, o dever a ser intolerante está na base da necessidade da tolerância. Enquanto sociedade, optamos também por deixar que essa tolerância seja definida pela democracia e pelo pluralismo - e ambos estão completamente assegurados no Portugal moderno, independentemente do que a direção do Público decida fazer a um colunista. Claro que colocar no mesmo texto um manifesto de Raquel Varela e uma ideia de Karl Popper é um insulto ao cânone intelectual humanista. Mas serve lindamente para explicar porque é que nem todas as vozes valem o mesmo – isso não quer dizer que devam ser silenciadas, quer apenas dizer que a sua promoção não tem de ocorrer. Essa é a diferença abissal.

Ler mais: Já que usei uma ideia de Karl Popper, aproveito para sugerir uma obra sua. A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos deveria ser de leitura obrigatória para quem ocupa o espaço público.

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