Editorial

Paddy Cosgrave, a Web Summit e a liberdade de imprensapremium

O fundador da Web Summit promove painéis sobre a liberdade de imprensa, mas quando os jornalistas escrevem sobre os negócios e casos que o envolvem, lá vem a ameaça de processos judiciais.

Paddy Cosgrave é uma figura. Literalmente. Com mérito, fundou a Web Summmit e catequizou-nos sobre as virtudes das 'startups', o novo mundo da tecnologia que nos salvaria, a nós, portugueses, da pobreza. É na verdade uma grande feira, digital, mas as feiras não são pouco importantes, cria expectativas e esperanças a empreendedores que sonham construir o novo Facebook, e promete às grandes empresas que patrocinam o evento a oportunidade de descobrirem novos negócios 'baratinhos'. Agora, ameaça jornais e jornalistas que façam notícias sobre o processo judicial de que é alvo por parte de um antigo sócio. "Think again"...

Em outubro, lá aparece Paddy Cosgrave em jornais e televisões a 'vender' a web summit -- aqui no ECO, também --, a anunciar novos mundos, novas oportunidades. A Web Summit negociou um contrato com o Estado português, à data por causa do empenhamento de Leonardo Mathias e Paulo Portas, era uma oportunidade que, depois, já com o Governo PS, se transformou num enormíssimo negócio, milionário. Durante dez anos, 11 milhões de euros e o país político a correr para os seus braços. Marcelo, Costa, Siza, Medina, e agora Moedas. Esqueceram-se de blindar o evento e agora o negócio deixou de ser o que era, tal a profusão de 'Web Summits' por esse mundo fora, a mesma feira com outros nomes. E na entrevista que deu ao ECO -- pode ler aqui -- o cofundador da cimeira tecnológica não se compromete, no entanto, com a manutenção do evento para lá de 2028, data fechada com o Governo português. A negociação já começou, e pelos jornais. Justifica-se o investimento? Quais são os resultados?

Os resultados prometidos é que estão longe da realidade. Uma avaliação divulgada pelo Gabinete de Estudos Económicos (GEE) do Ministério da Economia revela que, afinal, o impacto económico da Web Summit em Portugal entre 2016 e 2019 terá ficado bem abaixo do estimado inicialmente. Nesse período, a Web Summit terá gerado menos 77,5 milhões de euros para os cofres do Estado, o Valor Acrescentado Bruto (VAB) terá crescido menos 196 milhões de euros do que o estimado, terão sido criados menos 2.673 postos de trabalho e despendidos menos 16 milhões de euros do que o antecipado. Qual foi a explicação? É a política, diz Paddy. Estará o fundador da Web Summit a acusar uma entidade pública de ter 'martelado' os números por um qualquer interesse obscuro? Parece que sim, mas do Governo não se ouviu uma palavra de defesa do trabalho técnico daquela direção geral.

O mundo de Paddy também quartos escuros, a exigir mais explicações. Um deles envolve um ex-sócio e processos judiciais na Irlanda. David Kelly acusa Paddy Cosgrave de usar os recursos da cimeira tecnológica para “benefício do seu agregado familiar”. O atual diretor executivo da cimeira é ainda acusado de bullying e intimidação. Nada disto prova que as acusações têm fundamento. O próprio Paddy Cosgrave garante que estes processos fazem parte de uma estratégia para distrair a atenção de outro processo que a Web Summit terá avançado contra este ex-sócio. Faz parte, eles que se entendem, ou os tribunais que decidam.

Não haveria problema nenhum se Paddy Cosgrave, o missionário que nos mostrou o advento da tecnologia (e um país pacóvio que se rende sem espírito crítico), não tivesse decidido ameaçar os jornais e jornalistas que escrevam sobre este processo. Regra geral, é resposta de quem tem culpas no cartório. As primeiras notícias surgiram na imprensa irlandesa, mas Paddy não gostou.

Vamos ver quanto tempo Paddy Cosgrave demorará a apagar este tweet que é uma ameaça clara à liberdade de imprensa. Curioso é que um dos painéis da Web Summit deste ano era "Speaking truth to power: the art of investigative #journalism" e em 2020 havia um intitulado "Can press freedom survive?" (obrigado Miguel Prado, jornalista do Expresso que recuperou esta informação na sua conta de twitter).

Portanto, Paddy Cosgrave gosta muito de jornais e jornalistas quando é preciso vender a Web Summit e os novos amanhãs tecnológicos que cantarão. Mas já não gosta de jornais e jornalistas que publicam notícias sobre os processos de que é alvo. Provavelmente, faria melhor em esclarecer os jornais que lhe enviaram questões sobre o processo em causa. Um exemplo: É acusado de beneficiar a mulher na venda de camisolas no site da Web Summit: Como é que este acordo foi feito? Pelo próprio Paddy ou por um terceiro administrador sem relação familiar? Há contrato? Que comissão cobrou a Web Summit? É a mesma de outros parceiros? A Web Summit investiu na promoção deste produto? Quanto? Haverá outras que Paddy Cosgrave será obrigado a responder em tribunal.

O ECO questionou Paddy Cosgrave, mas o fundador da Web Summit limita-se a dizer que o seu ex-sócio está a desviar as atenções. Isso não chega. Um tribunal irlandês aceitou um processo e decidirá quem tem razão. Se Paddy Cosgrave entende não fazer comentários ou responder em público com documentos que provem as falsas acusações de que será alvo, está no seu direito, e os jornais e jornalistas não podem escrever o que lhes apetece por causa disso. Mas podem e devem fazer perguntas, devem escrutinar. E o Governo português, não tem nada a dizer?

No entanto, as ameaças de perseguição do fundador da Web Summit por difamação são a pior escolha. O ECO continuará a escrever sobre este processo sempre que tal se justifique, a ouvir Paddy Cosgrave para que tenha a oportunidade de contrariar ou desmentir informações. O jornalismo é isto, e é muito mais do que painéis na Web Summit a cada mês de novembro.

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