Podemos confiar nas auditoras? E na KPMG?

A KPMG foi alvo de uma multa gigantesca em Londres. Em Portugal, auditou o BCP no tempo das offshores, o BES de Ricardo Salgado e durante 12 anos o Montepio. Isto não é currículo, é cadastro.

É mais ou menos consensual que, além dos supervisores, as auditoras também falharam durante a crise e não cumpriram o seu papel de primeira linha de defesa para garantir a integridade das contas que as empresas e os bancos mostravam aos mercados. Muitas vezes foram adulteradas, alindadas, empoladas e falsificadas.

As auditoras, sobretudo as chamadas Big Four, — KPMG, Deloitte, EY e PwC — têm estado na mira das autoridades pelo papel que tiveram (ou não tiveram) na crise financeira. Muitos têm questionado o próprio modelo de negócio da indústria que oferece aos clientes, simultaneamente, serviços de auditoria, consultoria, aconselhamento fiscal, tecnologia de informação e um sem número de outros serviços que levantam inúmeras questões deontológicas, éticas e de conflitos de interesse. A crise veio mostrar que as ‘chinese walls’ são chinesices sem eficácia nenhuma.

Mas não devemos meter todas as auditoras no mesmo saco. Há umas que têm problemas reputacionais maiores do que outras. Uma delas é a KPMG. Esta semana, a empresa foi alvo de uma multa recorde de 12,5 milhões de libras no Reino Unido por ter feito mal o trabalho de auditoria no Bank of New York Mellon. O Financial Times fala em “another blow to the reputation of KPMG” e dá vários exemplos, — no Reino Unido, na África do Sul e nos EUA, — em que a empresa tem sido alvo de pesadas multas por não ter feito bem o seu trabalho.

Mas, a grande mancha na reputação aconteceu há um ano, quando o regulador britânico — o Financial Reporting Council — veio dizer que a qualidade da auditoria da KPMG “é inaceitável”. Na altura, um professor universitário dizia à Bloomberg que “isto é mais uma evidência de que os problemas da KPMG são profundamente sistémicos. Eles são um negócio para maximizar os lucros em vez de uma firma profissional com padrões de independência, caráter e integridade“.

A reputação da KPMG em Portugal

Em Portugal, a reputação da KPMG também anda pelas ruas da amargura. Depois de, em 2013, ter sido condenada pela CMVM num processo de contraordenação muito grave por violação de normas de auditoria no escândalo das offshores do BCP, este ano, a KPMG também foi condenada pelo Banco de Portugal a pagar três milhões de euros por “infrações especialmente graves” no caso BES. O próprio presidente Sikandar Sattar também foi condenado, individualmente, a pagar uma coima de 450 mil euros.

Ficou provado, segundo o Banco de Portugal, que a KPMG e os seus responsáveis tiveram conhecimento dos riscos da carteira de crédito do BES Angola e de como isso poderia afetar a operação do BES em Portugal e prestaram informações falsas ao supervisor.

A escolha da KPMG para o Grupo Espírito Santo era uma daquelas aberrações na auditoria em Portugal que, com a conivência da incompetência dos nossos reguladores, fez com que a KPMG Portugal fosse auditora do BES em Portugal e a KPMG Angola auditasse as contas do BES Angola. A KPMG argumenta, em sua defesa, que a KPMG Portugal e a KPMG Angola eram empresas diferentes, … pausa para um sorriso sarcástico… apesar de o presidente de ambas ser o mesmo, de seu nome Sikandar Sattar.

Claro que o resultado só poderia ter sido aquele que foi, ou seja, uma grande cumplicidade e promiscuidade que ajudou a disfarçar durante algum tempo aquilo que eram as fragilidades e irregularidades do Grupo Espírito Santo. Até que chegou a fatura que os contribuintes, de sorriso amarelo, tiveram de pagar.

Entretanto, em 2015, as regras mudaram na Europa e a supervisão das auditoras, que em Portugal estava em terra de ninguém (num organismo que tinha o pomposo nome de Conselho Nacional de Supervisão de Auditoria) passou para a alçada da CMVM. Uma das regras que mudou, ainda com Carlos Tavares na presidência do supervisor, foi a obrigatoriedade de as empresas e os bancos mudarem de auditor, de 12 em 12 anos. Para evitar vícios e cumplicidades entre o auditor e o auditado.

Carlos Tavares saiu entretanto da presidência da CMVM e agora lidera o Banco Montepio. Como tal, não deixa de ser caricato o braço de ferro recente entre a CMVM e o Montepio, que queria à força ficar com o seu auditor por um período superior aos 12 anos previstos na lei… Pausa para mais um sorriso… E adivinhem quem era o auditor do Montepio nestes 12 anos, cujas contas olhamos com a maior das desconfianças? Se respondeu KPMG, acertou!

Quem chegou ao final deste texto ainda com vontade de sorrir é porque ainda não percebeu a gravidade do que está em causa. Depois da condenação do Banco de Portugal, falta a CMVM concluir o processo que abriu contra a KPMG no caso do BES. Não se percebe a demora. Não se percebe que ainda não tenha sido feita uma reavaliação da idoneidade a Sikandar Sattar. Não se percebe que a própria KPMG internacional ainda não tenha afastado o seu presidente em Portugal que, além do mais, é chairman da KPMG para a Europa, Médio Oriente e África. Não se percebe que a KPMG continue a auditar como se nada fosse apesar do dano reputacional.

Warren Buffett costuma dizer que são necessários 20 anos para construir uma reputação e apenas cinco minutos para destruí-la. A KPMG já teve os seus cinco minutos.

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