Quem tem a sua cara?

Costuma dizer-se de um bebé que tem a cara de um dos familiares. Hoje são os governos e as empresas que têm a nossa cara - e os bebés somos nós.

A tecnologia de reconhecimento facial é a maior ameaça às liberdades civis que alguma vez existiu. E está sem controlo, a crescer desmesuradamente. A situação é simples de explicar: Ninguém sabe quantos sistemas existem, quantas bases de dados recolhem as faces, onde estão essas bases de dados e quem as controla. É o perfeito caos, fruto de uma tecnologia que cresceu muito mais depressa do que o nosso entendimento do que ela faria e da capacidade para a controlar.

Como sempre, o problema não é a tecnologia – é o uso abusivo que se faz dela. Neste caso, o abuso ocorre por falta de comparência das autoridades. É claro que é positivo que exista uma forma de impedir que um hooligan entre num estádio de futebol ou que um terrorista apanhe um avião. Mas não é razoável permitir que esta mesma tecnologia impeça cidadãos de participar em manifestações democráticas ou para atacar uma determinada minoria étnica.

A subtileza de uma face é um património tão individual quanto a impressão digital. Mais, até, dado o seu caráter social. O reconhecimento que fazemos uns dos outros é o que nos permite interagir socialmente e gerir a nossa esfera social. E também já sabemos quão fácil é colocar uma cara na de outra pessoa, simulando em vídeo acontecimentos que nunca ocorreram – só possíveis porque os softwares de manipulação facial acedem a muitos milhões de faces para treinar as suas capacidades.

A evolução da tecnologia permite que o reconhecimento facial seja feito em tempo real. Centenas de empresas no mundo inteiro estão a recolher os dados faciais de milhões de pessoas, cruzando-as com as pegadas digitais que deixamos e criando bases de dados relacionais que serão inevitavelmente usadas a favor dessas mesmas empresas – e contra nós. Pior ainda, o reconhecimento facial é a ferramenta perfeita para a opressão social por parte de estados. Nada limita mais uma determinada atuação do que sermos reconhecidos, para mais quando é tão fácil reconhecer com quem nos relacionamos e de quem somos próximos. Mas nada disto impede que forças policiais andem, pela União Europeia, a recolher os dados faciais de participantes em manifestações democráticas e encontros políticos das oposições.

A tecnologia ainda está na sua infância. Daqui a um par de anos, uns poucos saberão tudo sobre nós e poderão fazer o que quiserem da nossa cara. Face a isto, qual é o cenário? É perguntar às autoridades. Ninguém faz a mínima ideia quantas câmaras existem equipadas com reconhecimento facial. Ninguém sabe quantas bases de dados existem, o que contêm e para que servem. E a nova lei de proteção de dados não acautela devidamente as preocupações do registo facial. Mas continuamos todos, entretidos, a discutir a evaporação da água.

Ler Mais: Este tema está a evoluir tão depressa que não parece haver no mercado anglo-saxónico um livro capaz de retratar convenientemente os problemas sociais e individuais que nascem deste exagero de reconhecimento facial. Mas há uma excelente alternativa, que é uma análise do estado policial que esta e outras tecnologias permitiram feito por um jornalista alemão que passou vinte anos a noticiar a China a partir de dentro. We Have Been Harmonised é um assustador relato real de um país cuja população está escravizada por políticas tornadas possíveis graças aos excessos tecnológicos.

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