Risk in the Boardroom: da Gestão à Supervisão
Os conselhos de administração estão a ser desafiados por riscos interligados: climáticos, geopolíticos, tecnológicos e reputacionais, verificou Helena Anjos, o risco subiu ao boardroom das seguradoras
A recente audição da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF) no Parlamento representou um marco simbólico da transição institucional: entre o balanço dos últimos anos, marcados por crises sucessivas e iniciativas profícuas da supervisão em instrumentos técnicos de gestão de riscos e medidas políticas de regulação dos setores, e as perspetivas futuras quanto aos principais eixos estratégicos e desafios imediatos — para uma supervisão independente, uma maior proteção dos consumidores e a inovação do setor segurador na transição climática e digital.
No debate, ressaltaram igualmente alguns desafios, em particular, de alterações para o ramo Vida, com o aumento das taxas aplicadas a este ramo e aos fundos de pensões. Para além do impacto financeiro imediato, este tema revela uma questão mais profunda: a necessidade de colocar a governação de risco Vida no centro da agenda, tanto das empresas como da própria supervisão. O debate sobre custos não deve esconder a realidade estrutural. O ramo Vida, pela sua maior volatilidade e relevância prudencial, exige competências técnicas especializadas e visão prospetiva na análise de riscos. Sem esta base, corre-se o risco de transformar medidas conjunturais em pressões adicionais sobre a sustentabilidade de longo prazo do setor.
O conceito de risk in the boardroom, desenvolvido em iniciativas internacionais como a série do Financial Times em parceria com grandes grupos seguradores e resseguradores, mostra como os conselhos de administração estão a ser desafiados por riscos interligados: climáticos, geopolíticos, tecnológicos e reputacionais. Estes riscos não são compartimentos distintos, mas forças interligadas e condicionam decisões estratégicas das seguradoras. No caso do ramo Vida e Fundos de Pensões, o desafio adensa-se no contexto macroeconómico e geopolítico de maior incerteza e volatilidade, com impacto financeiro nas taxas de juro e exigências regulatórias, transição demográfica e pressões das expectativas sociais.
No artigo académico a concurso da última edição dos Prémios de Investigação ASF (Julho 2025)1, pretendeu-se,
precisamente, consolidar numa estrutura articulada esta visão, integrando riscos económicos, quadro regulatório e desafios de relato na estratégia de negócio das seguradoras em Portugal.
A experiência prática na gestão de riscos das seguradoras, o domínio regulatório e a visão de futuro para o setor permitiram definir um diagrama conceptual inovador – disponível no artigo completo – que apresenta um modelo conceptual original, baseado nos choques externos, canais de transmissão e impactos prudenciais, e na integração da governação e supervisão de riscos. Este diagrama sintetiza o impacto dos novos riscos emergentes nos riscos do quadro prudencial, evidenciando a interligação entre a governação corporativa e a gestão de risco ao nível do conselho de administração. No núcleo, a supervisão estratégica e a tomada de decisão informada são destacadas como fatores determinantes para a resiliência da empresa.
O artigo reforça a necessidade de mecanismos formais de monitorização e reporte, bem como da diversidade de competências e experiências dos membros do conselho, de modo a assegurar decisões robustas face a incertezas complexas. Este enquadramento sublinha que a governação e a supervisão de risco não são atividades isoladas, mas elementos estruturantes da estratégia corporativa, fundamentais para garantir sustentabilidade e valor a longo prazo.
Nesse sentido o conceito de risk in the boardroom articula-se com três dimensões centrais do diagrama concebido: na identificação e avaliação de riscos críticos, na identificação imediata dos seus canais de transmissão — micro e macroeconómicos — nos riscos prudenciais de negócio, e na integração na estrutura e cultura de risco proativa com comunicação transparente entre o conselho e as unidades de negócio.
Por seu turno, a eficácia da supervisão depende da capacidade do conselho em compreender não apenas riscos macroeconómicos, financeiros e específicos do negócio, mas também antecipar os riscos emergentes — climáticos, tecnológicos e reputacionais — e de os incorporar de forma ágil nos planos estratégicos.
As audições desta semana confirmam que estamos perante um ponto de viragem. A supervisão prudencial não pode limitar-se a responder a pressões conjunturais de financiamento. É necessário avaliar se os órgãos de decisão — nas empresas privadas e nas instituições públicas — dispõem dos meios e competências específicas para enquadrar riscos de Vida e Pensões, antecipar cenários macroeconómicos e alinhar regulação com sustentabilidade.
Este é o momento de reforçar os eixos estratégicos da gestão de riscos para o próximo mandato da supervisão:
- Colocar o ramo Vida no centro da análise de risco e supervisão prudencial no contexto Europeu;
- Aprofundar o ramo Não-Vida na antecipação dos riscos climáticos na transição climática e digital;
- Integrar cenários macroeconómicos, climáticos e demográficos na governação de novos riscos;
- Assegurar diversidade de competências nos conselhos e na supervisão de riscos de longo prazo.
O risk in the boardroom não pode ser visto apenas como uma boa prática corporativa. É uma exigência prudencial, regulatória e política. A confiança dos cidadãos nos seguros de Vida depende da capacidade de alinhar a governação de riscos com decisões transparentes e sustentáveis.
Mais do que discutir restrições financeiras, tensões demográficas ou debates ideológicos, importa perceber se estamos preparados para integrar riscos cada vez mais complexos na estratégia das nossas organizações. A agilidade da resposta, a capacidade de antecipação e a resiliência da governação dependerão da coragem de colocar o risco no centro da sala — do boardroom das empresas à supervisão estratégica.
1 Chaves Anjos, H., Oliveira Matos, N., & Azevedo Lopes, P. (2025). Governação da gestão de riscos e planos de sustentabilidade das empresas de seguros, no quadro regulatório em Portugal. Artigo submetido ao Prémio de Investigação ASF, 31 de março de 2025.
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