Rui Pinto, o julgamento do século? Expliquem-me como se fosse burra

Para se ser whistleblower é preciso pertencer a uma organização ou empresa onde se terão cometido esses crimes. É o caso? Decidam vocês porque eu já sei a resposta.

Há umas semanas, jornalistas da revista Der Spiegel contavam os contornos da entrevista feita ao hacker Rui Pinto. Numa mensagem de texto encriptada, com a morada de um parque de estacionamento de um supermercado, um carro aproximou-se da viatura e dois homens com máscara fizeram sinal para que este fosse seguido. Durante vários minutos os jornalistas seguiram o veículo que fez várias manobras perigosas (qualquer semelhança com um qualquer filme de ação norte-americano não é mera coincidência) para garantir que não estava a ser seguido. Depois de largos minutos, o carro para finalmente e Rui PInto, 31 anos, sai do banco de trás, com um chapéu, óculos de sol e máscara. .

Talvez isto tenha sido o início daquilo que me parece alguma histeria coletiva face a este processo. Mas o rótulo pegou e está para ficar. Já que o julgamento do hacker português – acusado de 90 crimes – começou na sexta-feira e é já chamado de ‘julgamento do século’. O jovem de 31 anos terá acedido a mails de altas esferas do futebol e da Justiça, divulgando informação relativa a clubes de futebol – sendo o Benfica o alvo preferencial do adepto ferrenho do FCP – a Isabel dos Santos e a advogados dos envolvidos. Mas este é também aquele que é, simultaneamente, arguido e testemunha ao abrigo do sistema de proteção de testemunhas.

Pois então, e por isso, o Estado português, de recursos ilimitados nos seus cofres (ironia dispensável, bem sei), decidiu alocar armamento pesado, viaturas blindadas, agentes e carros à paisana, snipers, equipas infindáveis de agentes da PSP para revista de jornalistas (previamente acreditados) e definiu regras como a proibição de uso de telemóvel e computador na sala por parte das dezenas de jornalistas – numa audiência que é pública – onde se assistia à audiência por videoconferência. Não fosse um dos jornalistas presentes ficar com vontade de atirar um objeto pesado à cabeça de Rui Pinto que … não estava presente nessa sala.

Tudo isto para conseguir neutralizar (!) qualquer ameaça durante o percurso do hacker e durante a sessão de julgamento. Por onde entrou o jovem para o tribunal, como saiu, em que carro veio e para onde foi é algo que se encontra no segredo dos deuses. Certo é que levou a comunicação social (onde me incluo) a protagonizar mais alguns daqueles momentos hilariantes em que corremos que nem doidos para ouvir um mero advogado, um mero assistente ou mesmo duas fãs de Rui Pinto. Em que nós, os pobres coitados que não fazem parte da elite televisiva, são engolidos pelas câmaras e não conseguem gravar as declarações na íntegra. E isto tudo por causa de… Rui Pinto.

Herói para uns, criminoso para outros. Certo é que a tese da defesa e do próprio é mesmo essa, a do herói (tal como Snowden o foi ou, quem sabe, um Robin dos Bosques que pretende acabar com essa malvada classe dos poderosos): “sou um whistleblower e o que denunciei tem óbvio interesse nacional”. No meio de todo este aparato, que é também novo com certeza para a juíza presidente do coletivo Margarida Alves (essa que já que não teve direito a honras de proteção policial), não houve oportunidade para explicar um ponto que se calhar não é de somenos… para se ser whistleblower é preciso pertencer a uma organização ou empresa onde se terão cometido esse crimes. É o caso? Decidam vocês porque eu já sei a resposta.

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