Rússia: o maior risco político para a Europa

Estarão os líderes europeus preparados para enfrentar um serviço de inteligência à frente da segunda maior potência militar do mundo?

Julgo que já restam poucas dúvidas: o regime de Putin é hoje a maior ameaça geopolítica para a Europa e, em particular, para a União Europeia. Antes de mais, ameaça a defesa da União Europeia. Para vários países europeus, desde as repúblicas Bálticas, passando pela Polónia e a Roménia, até à Finlândia e à Suécia, a Rússia constitui a maior ameaça à sua segurança. Os Bálticos e a Finlândia vivem apavorados com os exercícios militares que os russos realizam frequentemente nas suas fronteiras. Um dia destes, em Bruxelas, conversei com um comissário de um país báltico que me disse que a Rússia era, de longe, a maior ameaça à segurança da Europa. Depois do que aconteceu na Ucrânia e na Crimeia, um ataque militar russo voltou a ser uma possibilidade para aqueles que vivem na fronteira leste da União Europeia.

A Rússia tem mísseis nucleares com capacidade para destruir a maioria das capitais europeias e é para aí que estão apontados. Só em Kaliningrado há capacidade nuclear para destruir Berlim. Aliás, os países da Europa Central avisam frequentemente os outros membros da União Europeia sobre a ameaça russa, mas a “velha Europa”, embalada pela ilusão pacifista do fim da guerra na Europa e pelos interesses dos negócios com Moscovo, não os ouve. Como confessou o mesmo comissário báltico, os países do sul da Europa, nomeadamente a Grécia e a Itália, evocaram a “solidariedade europeia” durante a crise financeira, mas onde está essa solidariedade quando se fala da ameaça russa?

Apesar da gravidade da ameaça russa à defesa europeia, há uma segunda questão possivelmente ainda mais grave. O regime russo tem uma ambição política: destruir a União Europeia. Há dois argumentos que relativizam ou negam mesmo a existência de uma ameaça russa. O primeiro olha para a Rússia como um país europeu, apenas um pouco mais autoritário do que o resto da Europa, e um aliado na luta contra o radicalismo e o terrorismo islâmico. Encontramos neste argumento não só uma visão racial da política europeia, o ‘branco’ europeu contra o ‘muçulmano’ não-europeu mas também uma abordagem dos conflitos geopolíticos em termos de choques entre religiões, neste caso o Cristianismo contra o Islão. Estas análises são demasiado simplistas, e carregam um perigo óbvio: tratam a Rússia como um aliado e não como uma ameaça. Um erro que se pode tornar fatal.

O segundo argumento, mesmo que reconheça a natureza do regime de Putin, acha que Moscovo não tem o poder suficiente para ameaçar a existência da União Europeia. Há aqui uma combinação, igualmente perigosa, entre idealismo – certos avanços e progressos políticos são irremediáveis, como a construção da UE – e complacência em relação ao poder europeu e à fraqueza russa. Está na altura dos defensores destes dois argumentos enfrentarem a realidade.

Putin mantém a velha estratégia soviética de tentar dividir a Europa dos Estados Unidos. A natureza ideológica da União Soviética e o anti-comunismo estrutural do sistema político norte americano impediram os objectivos soviéticos. Mas hoje, na Casa Branca, encontra-se um Presidente demasiado ambíguo em relação a Moscovo. Ninguém conhece bem a natureza da relação entre Trump e Putin, ou sobre os negócios que terão feito no passado, mas os sinais são preocupantes. Com Trump, há o risco dos Estados Unidos deixarem de liderar a Aliança Atlântica contra a Rússia.

Mas Moscovo também está activamente a fomentar a divisão europeia. A Rússia tem ajudado, incluindo financeiramente, os partidos anti-europeus, sobretudo o UKIP (no Reino Unido), a Frente Nacional (em França) e o AfD (na Alemanha). Os factos não enganam. Putin apoia os partidos que querem acabar com a União Europeia. Há, contudo, um ponto que tende a ser esquecido, mas que é muito preocupante.

A Rússia é o primeiro país moderno a ser governado por um serviço de inteligência. O partido comunista e a União Soviética desapareceram, mas o KGB chegou ao poder. E agora, está no topo do Estado, não obedece a ninguém. Estarão os líderes europeus preparados para enfrentar um serviço de inteligência à frente da segunda maior potência militar do mundo? Sobretudo, se perderem o apoio dos Estados Unidos?

Nota: O autor escreve segundo a antiga ortografia

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