Saber é poder (de compra)

  • Patricia Macedo
  • 28 Julho 2022

OCDE aponta a população empregada como grupo-alvo prioritário para o desenvolvimento de competências financeiras e fundamental o envolvimento das empresas, através da educação finananceira.

Tudo indica que 2022 vá ficar para a história como um verdadeiro ano recordista. Segundo as mais recentes projeções das Nações Unidas, a população mundial irá atingir o patamar de 8 mil milhões de habitantes ainda antes do final do ano. Em Portugal, foi ultrapassado no dia 14 de julho o anterior valor de temperatura máxima para o mês de julho. E em junho tinha sido a vez da inflação, que atingiu o seu valor mais elevado desde 1992: uma taxa de variação homóloga de 8,7%.

No que à inflação diz respeito, se 8,7% é preocupante, mais inquietantes são os valores registados para as três categorias que representam a maior fatia do orçamento das famílias portuguesas: a inflação atingiu os 13,5% para habitação, água, luz e gás; 13,2% para produtos alimentares; e 14,3% para transportes.

E se os efeitos da perda de poder de compra afetam todas as famílias, serão ainda mais danosos para as que não tiverem bases sólidas no que toca às competências financeiras.

Segundo os resultados do 3.º Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa, conduzido pelo Conselho Nacional de Supervisores Financeiros em 2020, apenas 55,5% dos inquiridos soube responder corretamente se uma inflação de 2% resultaria numa perda, num aumento ou numa não alteração do poder de compra. 19,1% respondeu incorretamente à questão, e uma significativa fatia de 25,4% não soube responder ou não o fez. Sem esta base, como podemos esperar que as famílias tomem decisões financeiras corretas num contexto económico como o que vivemos?

As boas notícias são que, a partir de 2024, a literacia financeira passará a fazer parte do currículo de Matemática para o Ensino Secundário, equipando os adultos do futuro com competências essenciais para a tomada de decisões no dia-a-dia. Mas é importante não esquecer os adultos de hoje.

Chegar aos mais de 8 milhões de adultos residentes em Portugal não é uma tarefa trivial. Mas as entidades patronais estão bem posicionadas para alcançar grande parte dela. A OCDE aponta a população empregada como um dos grupos-alvo prioritários para o desenvolvimento de competências financeiras, e considera fundamental o envolvimento das empresas, através da educação financeira nos locais de trabalho. Os trabalhadores representam a maioria da população adulta e, dentro dessa, daquela responsável por decisões financeiras no seu agregado familiar.

Mas não só os colaboradores beneficiam de um adequado programa de educação financeira. Também as próprias empresas colherão os benefícios, desde logo, através de aumentos na produtividade: colaboradores com um maior bem-estar financeiro têm níveis menores de stress, de absentismo, e de presenteísmo. E, num mercado de trabalho cada vez mais competitivo, os programas de apoio à educação financeira podem também servir como uma importante ferramenta de atração e retenção de talento.

Se uma inflação perigosamente perto de dois dígitos é uma ameaça ao bem-estar financeiro das famílias, podemos escolher olhar para ela também como uma oportunidade para que finalmente sejam dados passos na direção certa no que toca à educação financeira na vida adulta, que podem (e devem) começar no local de trabalho.

  • Patricia Macedo
  • Senior Associate – Retirement na WTW Portugal

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