Sem hidrogénio verde, o futuro é a energia nuclear

  • Eduardo Moura
  • 14 Julho 2020

A análise sobre o Hidrogénio Verde é inútil, se não respeitar o pressuposto do combate às alterações climáticas e aos riscos do nuclear. O CO2 e a segurança justificam a aposta no Hidrogénio Verde.

Chegou-se à conclusão que transformar toda a eletricidade que consumimos mundialmente em eletricidade 100% renovável, jamais será suficiente para resolver o problema do aquecimento global. De facto, à roda de 70% das emissões atuais de CO2 tem origem fora do setor elétrico.

Pensou-se também, e justamente, que a eletricidade renovável poderia ser expandida para novas funções, substituindo o gás doméstico e os combustíveis dos automóveis ligeiros. Todavia, mesmo alcançando esse objetivo longínquo que está em curso, ainda sobrará o equivalente a 40% a 50% das emissões atuais de CO2, o bastante para se continuar a grelhar o planeta.

Pensa-se, agora, que é possível endereçar a eliminação da maior parte desta metade das emissões através de eletricidade renovável. Não aquelas que têm origem na desflorestação, no gado bovino e nos resíduos, mas aquelas que têm origem nos transportes pesados, nas cimenteiras e noutras indústrias transformadoras.

Neste caso, já não se pode substituir o uso de combustíveis pelo uso direto de eletricidade. Os combustíveis devem permanecer. Isto é assim porque a eletricidade não consegue oferecer o poder térmico e a densidade energética que são exigíveis em muitos processos industriais e nos transportes pesados.

Para superar este obstáculo da física, a ideia dominante é utilizar eletricidade renovável para fabricar hidrogénio, e a partir do hidrogénio, que assim nasce verde, consumi-lo diretamente ou, a partir dele, fabricar os combustíveis que hão de servir nos aviões, barcos, cimenteiras, siderurgias.
Outra ideia não menos importante, paralela à anterior e tão transformadora como ela, é a indústria do petróleo e do gás começar a lavar os seus combustíveis, retirando-lhos os poluentes e o CO2. Se a indústria encetar esta abordagem, estará a garantir a sua cadeia de valor. É caro, energeticamente excessivo, mas é fazível com o devido enquadramento político.

São dois caminhos competitivos que visam a descarbonização total. São duas estratégias diferentes que servem o mesmo objetivo. São dois eixos de investimento extremamente dispendiosos porque tanto um como outro terão de modificar os processos tecnológicos, os equipamentos e as infraestruturas, e gastar mais energia para comercializar a mesma.

Mas seja pela via do hidrogénio verde ou por via dos combustíveis lavados, ou pelas duas abordagens combinadamente, este investimento é uma despesa que todos teremos de fazer. O preço que estaremos dispostos a pagar há de ser igual ao valor que dermos à qualidade do nosso modo de vida.

Se acharmos que o futuro não vale o esforço de medidas estratégicas, arriscadas, dispendiosas, então certamente vivemos na ilusão e na fantasia de que não há aquecimento global, nem riscos para a segurança e a saúde humanas.

Por isso, reconheçamos a importância da Estratégia Nacional para o Hidrogénio. Não fomos o primeiro país a posicionar-se, corremos até o risco de não o ter feito melhor que os outros. Mas trata-se, sem dúvida, de um trabalho meritório e bem articulado, corolário de muito conhecimento acumulado por especialistas portugueses. Promove uma estratégia indispensável para um país que se comprometeu com o objetivo da neutralidade carbónica e é um documento que encaixa perfeitamente na estratégia europeia. É ainda um texto que estabelece mecanismos de preço discutíveis, mas inteligentes.
Além disso, como é próprio de um documento político que olha para um horizonte de 30 anos, nem sempre os calendários e as prioridades estão solidamente definidos. E nota-se bastante um certo entusiasmo em colecionar hipóteses experimentais, sem prova de mercado, e uma fixação em soluções de impulso central, a par de números que assustam quando comparados com o risco da incerteza e outras oportunidades alternativas.

Mas a maneira de discutir esta proposta de estratégia, como se vê muito pelos media e em tomadas de posição públicas organizadas, tem sido recusar a sua relação com o pressuposto das alterações climáticas. A crítica sistemática à estratégia nacional passa ao largo do aquecimento global e da necessidade de alcançar a neutralidade carbónica. Olha para as propostas sem olhar para a sua finalidade. Critica sem pronunciar uma alternativa, que está subliminar. Tamanho alheamento, é das coisas mais extraordinárias a que temos assistido.

Mas talvez esta pergunta possa ajudar a posicionar melhor as omissões na discussão: se vamos eliminar o carvão em breve, porque é que alguém há de achar que os outros combustíveis fósseis vão sobreviver politicamente, havendo uma alternativa tecnológica?

Esta é a primeira questão que o Hidrogénio Verde levanta. Se ele for uma alternativa tecnológica credível, o setor do petróleo e do gás é impelido a investir fortemente na lavagem dos combustíveis fósseis.

A segunda questão é mais subtil. Se o Hidrogénio Verde for a alternativa credível, mais crescem as aplicações das energias renováveis e menor será o espaço que sobra para a energia nuclear. Porque há ainda quem tenha a esperança de substituir as energias renováveis por energia nuclear, acenando com o preço, mas passando os custos para a segurança humana.

Perceba-se, assim, o afã em retirar credibilidade ao Hidrogénio Verde.

  • Eduardo Moura
  • Gestor. Diretor-adjunto de Sustentabilidade na EDP

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