Ser inteligente

A inteligência artificial não pode ser um tema "só para especialistas", porque vai ter um impacto cada vez maior na sociedade e na economia. Ser inteligente é ficar atento à inteligência artificial.

Uma folha de cálculo é inteligência artificial (IA)? E o que é mais “inteligente”: um sistema de deteção de spam ou um automóvel que dispensa condutor?

Escrever sobre IA não é fácil, sobretudo num jornal. O conceito é amplo e ambíguo; quiçá, demasiado técnico para a generalidade da população. Uma pesquisa rápida conduz-nos a cérebros com circuitos e robôs com feições humanas, reflexo da nossa mente à luz da ficção científica. E ainda se lembra da Sophia, participante regular da Web Summit em Lisboa, que depois virou “estrela” das campanhas da Meo?

No curso gratuito de IA lançado em Portugal pela Nova SBE, que aqui recomendei em abril, os conteúdos têm críticas frequentes à forma como a IA é retratada na comunicação social. Depois de concluir a certificação, percebo-as. Mas transmitem a ideia de que IA é um daqueles temas “só para especialistas”.

É um mau princípio de conversa, quando está em causa algo tão disruptivo para a sociedade e para a economia.

Se pensa que a IA não vai afetar a sua vida, pense outra vez. Na verdade, o efeito sente-se já hoje, nos bens que adquirimos e nos serviços que contratamos. Os famosos “aspiradores-robô”, guiados por sensores e visão por computador, são uma presença cada vez mais assídua nas casas dos portugueses. E alguns até ficam mais eficientes após cada passagem. Se pedir um crédito ao banco, certamente que terá as suas finanças escrutinadas por um algoritmo.

O impacto na nossa saúde também será relevante. Esta semana, dei por mim na mesma sala que a presidente executiva do grupo Luz Saúde. Por isso, aproveitei a oportunidade para lhe colocar essa questão. O que pensa Isabel Vaz desta tecnologia? A gestora não podia ser mais clara. Considerou que as tecnologias de IA vão gerar “a maior disrupção” nos cuidados prestados aos doentes ao longo dos próximos anos. Mais: será a “revolução da saúde do século XXI”, afirmou.

Não podemos esquecer o impacto da AI no trabalho. Aqui, há duas grandes correntes de pensamento: quem defende que a IA vai rapidamente substituir os humanos nas tarefas repetitivas (por exemplo, um trabalhador de uma linha de montagem) e quem defende que a IA vai rapidamente substituir os humanos em tudo o que seja feito em frente a um computador (por exemplo, um jornalista).

Não é preciso ter medo. Estimando-se uma enorme destruição de empregos pela IA, é também verdade que o ser humano adaptou-se a outras “revoluções” no passado. Ainda se lembra da profissão de ascensorista? Era quem se encarregava de operar um elevador. Eu não me lembro certamente, nem conheço nenhum ascensorista.

Mesmo assim, temos de nos preparar para o que já chegou e para o que aí vem. Olhe para o setor da banca, um dos mais avançados na digitalização. Este mês, o ECO avançou que mais de 2.500 trabalhadores de grandes bancos nacionais vão perder o emprego nos próximos tempos. Ora, o setor já cortou 16 mil postos de trabalho na última década. Quantas destas saídas não terão sido provocadas pela ascensão da IA?

Tenho defendido que um bom primeiro passo passa por promover a “blindagem” dos nossos currículos, tornando-os à prova de futuro. Independentemente da área em que se trabalhe, estudar os princípios gerais da IA torna o mercado laboral mais flexível e resiliente. E há muitos recursos gratuitos para quem procura aprender mais sobre esta realidade.

Se entende bem o inglês, há bons podcasts que pode ouvir. Sugiro duas interessantíssimas conversas de Ezra Klein: a primeira com o autor Brian Christian; a segunda com o CEO da OpenAI, Sam Altman, a empresa que criou o modelo GPT-3 (o tal que escreveu e assinou um artigo de opinião no The Guardian).

A propósito, o Politico conta-nos que a China desenvolveu um modelo semelhante com “dez vezes” mais capacidade.

Além dos bens e serviços, da saúde e do trabalho, existem outros impactos a ter em atenção. Nesta coluna não falo de todos. Mas, por exemplo, estima-se que a IA acelere a transferência de poder do trabalho para quem detém o capital. Altman defende, por isso, uma reformulação total do sistema tributário.

A tecnologia está aí e é preciso serenidade. É certo que há muita coisa que ainda não consegue fazer, mas a ciência tem alcançado importantes avanços. Ser inteligente é ficar atento à inteligência artificial.

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