Solidariedade europeia e recuperação económica: As energias renováveis podem proporcionar ambas

  • Giles Dickson
  • 16 Abril 2020

Uma coisa é certa: quando o Covid-19 chegar ao fim, continuaremos a ter de "consertar" o ambiente. Não podemos cair de novo nos velhos hábitos perante a crise climática que se avizinha.

A situação é grave. O Covid-19 abalou o mundo. A Europa está em modo de crise, com os governos a imporem medidas rigorosas de confinamento. Mas não só o número crescente de infeções e tragédias humanas é alarmante.

A economia europeia está paralisada, podendo alguns Estados-Membros enfrentar quedas de dois dígitos no PIB. A pandemia causou uma agitação sem precedentes e pôs a nu a vulnerabilidade do nosso sistema. Se a Europa quer ultrapassar este período crítico, tem de combater de forma correta o Covid-19. O risco é elevado, especialmente para os países que ainda estão a recuperar da crise financeira de 2008.

Uma coisa é certa: quando o Covid-19 chegar ao fim, continuaremos a ter de “consertar” o ambiente. Não podemos cair de novo nos velhos hábitos perante a crise climática que se avizinha. Quaisquer novos investimentos em setores e tecnologias antigas, e que não estejam virados para o futuro, acarretam um elevado risco de estagnação de ativos (stranded assets) e de efeitos de “lock-in. O Covid-19 não é, portanto, um motivo para atrasar a concretização do Pacto Ecológico Europeu (Green Deal), como defendem alguns líderes governamentais. Muito pelo contrário. O Green Deal da UE é o objetivo certo, no momento certo. O estímulo previsto de um bilião de euros que será proporcionado pelo seu pilar de investimento, o Plano de Investimento Sustentável, pode criar emprego e um crescimento “verde” em toda a Europa.

Com a primeira Lei Climática europeia, a UE comprometeu-se em ser neutra em carbono até 2050. Temos de começar a construir os alicerces que nos permitam cumprir este compromisso: Uma economia sustentável, com emissões zero e baseada na eletrificação. Durante a fase que se avizinha de elevado emprego e baixas taxas de juro, podemos impulsionar a economia verde e torná-la no motor da recuperação económica.

A notícia positiva é: Enquanto sociedade, podemos retirar muitas lições da atual pandemia e aplicar os nossos conhecimentos a um esforço comum sustentado e acelerado para mitigar a poluição. Na verdade, os paralelos entre a pandemia e a crise climática são surpreendentes.

Em ambos os casos, precisamos de aplanar a curva. Com o Covid-19, a curva é a das novas infeções. Com as alterações climáticas, a curva é a das emissões de carbono e do aumento da temperatura global. Por vezes poderão ser necessários sacrifícios pessoais para o bem maior, como agora acontece com as regras de distanciamento social.

Em ambos os casos, é necessária uma ação rápida e coordenada internacionalmente. Tal como o Covid-19, as alterações climáticas não respeitam fronteiras. Por estes dias, aprendemos dolorosamente que, depois de atingir determinados pontos de viragem, a ameaça já não pode ser controlada e provoca o colapso dos nossos sistemas. É por isso que ambas as crises exigem contramedidas rápidas e decisivas.

E, em ambos os casos, a prevenção é mais barata do que a cura. Os prejuízos financeiros causados pelo Covid-19 nas economias europeias são impressionantes. Na situação atual que vivemos, tivemos de aprender a confiar na ciência. Para evitar que a situação piore, seguimos os conselhos de virologistas e médicos. A mesma prudência é necessária, quando ouvimos os cientistas climáticos e os seus avisos.

E há mais notícias positivas: O Green Deal da UE é uma oportunidade de aumentar a resiliência do nosso sistema, bem como uma oportunidade de prosperidade a longo prazo. Isto é especialmente verdade à luz das discussões em curso entre os governos do sul da Europa e do norte da Europa sobre a partilha de encargos e a solidariedade financeira. O estudo da WindEurope sobre Tendências de Financiamento e Investimento vê Espanha como o maior investidor em novos projetos de energia eólica, com 2,8 mil milhões de euros financiados em 2019. Os novos fundos criados pela Comissão Europeia reforçarão as ambições do sul no que respeita à implementação das energias renováveis e à criação de empregos sustentáveis.

Muitos políticos já compreenderam. Recentemente, 13 Estados-membros instaram a UE a dar prioridade ao Green Deal com vista a uma recuperação ecológica mais rápida e uma transição justa. Entre estes signatários contam-se Espanha e Itália, os países mais atingidos pelo Covid-19, mas também Portugal. Em conjunto, apelam a uma rápida expansão das energias renováveis e a novos investimentos na eletrificação, mobilidade sustentável e renovação de edifícios como “um forte sinal político para o mundo e os nossos cidadãos de que a UE dará o exemplo, mesmo em tempos difíceis”.

As energias renováveis são baratas e estão prontas para serem utilizadas. Em muitos países, a energia eólica é hoje a forma mais barata de produzir eletricidade. A investigação e a inovação em centrais renováveis híbridas, hidrogénio verde e integração de sistemas estão a avançar, oferecendo novos modelos de negócio e novos mercados internacionais. Os líderes europeus devem fazer uso das tecnologias disponíveis. Vamos abraçar a atual situação económica como uma oportunidade para recuperar o atraso e criar uma Europa saudável e verde.

  • Giles Dickson
  • CEO da WindEurope

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