Sustentabilidade na indústria da Moda: da massificação à personalização

  • José Carlos Pires
  • 18 Novembro 2020

A pandemia e a consequente alteração de padrão de consumo vieram agravar os efeitos da produção em massa e excesso de stock.

A produção têxtil como a conhecemos tem os dias contados. O desperdício que resulta da ineficiência da grande produção na indústria da moda é um fenómeno que contribui para crises sociais e ambientais e que causa prejuízo às marcas. A pandemia e a consequente alteração de padrão de consumo vieram agravar os efeitos da produção em massa e excesso de stock.

Alguns retalhistas produzem em excesso de forma deliberada para obterem um custo mais baixo por peça, na esperança de conseguirem vender todo o stock ao longo da estação. No entanto, este quadro resulta muitas vezes num círculo vicioso de saldos de fim de estação, levando muitas empresas a endividar-se ou mesmo a fechar operações. Os players deste setor estão cada vez mais consciencializados sobre a necessidade de uma mudança. Se há dez anos esta não era possível, hoje é-o e cabe a todos tomar essa iniciativa. Mas de que forma?

Mudar o paradigma do “feito” para o “pedido”

Não há nenhuma razão para que a produção não recorra às ferramentas tecnológicas que são hoje básicas no dia-a-dia dos consumidores, tornando-se bidirecional. Os avanços na tecnologia permitem o acesso a plataformas onde os consumidores podem dar as suas opiniões sobre tendências, cores, tamanhos, materiais. Com recurso à realidade aumentada e à modelização 3D, os clientes podem experimentar peças de vestuário virtualmente e customizar o seu pedido, ainda antes de uma amostra ser criada fisicamente.

Este tipo de soluções estreitam o campo de ação dos estilistas ainda antes de estes concluírem o seu projeto e contribuem para a criação de uma coleção mais ajustada às expectativas. O resultado traduz-se em stocks menores, mais sustentáveis, com prazos criativos mais curtos e eficientes.

Priorizar a multidisciplinaridade nas equipas de desenvolvimento e criação

Estando o mercado testado, as equipas de design/desenvolvimento devem organizar-se em células de trabalho e desenvolver metodologias baseadas em momentos curtos de delineação e teste que permitam que os produtos sejam entregues em tempos recorde alinhados com os requisitos do mercado. Ter equipas organizadas por função ou departamento diminui a agilidade, dificulta planeamento e gestão, consequentemente, aumenta o tempo de desenvolvimento e entrega.

Investir na produção local

O foco das grandes marcas costuma passar por encontrar locais geograficamente distantes e com baixos custos de produção, o que muitas vezes resulta em custos acrescidos de transporte e passagens alfandegárias e na obrigatoriedade de encomendar lotes de maior quantidade. Os retalhistas devem, cada vez mais, investir em produção e entrega local, poupando nos transportes mas investindo na economia do seu país e países vizinhos, na qualidade dos materiais, em condições laborais dignas e na criação de relações de proximidade com maior flexibilidade.

O panorama de crise que vivemos deve também servir como uma motivação para este esforço. Os fornecedores não devem ser perspetivados como contratados, mas sim como parceiros com quem as marcas trabalham de forma regular e leal, mostrando que a coleção aporta uma recompensa mútua.

Dar o primeiro passo

É urgente criar um movimento de mudança em toda a cadeia de valor. As consequências económicas e ambientais da indústria da moda, que tem na sua matriz um modelo extrativo, são insustentáveis. Evoluindo para um modelo inclusivo, em que a economia prospera sempre mais, todos os intervenientes na cadeia de valor devem fazer parte do processo de decisão criando uma ação coletiva e garantindo impacto positivo global.

  • José Carlos Pires
  • Senior Partner do Kaizen Institute Western Europe

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