Um mundo sem apps

Se por acaso passou algumas horas a instalar apps no seu novo telemóvel, este texto vem a calhar. Se não passou, também.

Agora que já olhou para o seu smartphone, imagine o tal mundo sem apps. Imagine que vai simplesmente usar o browser para ir à web sempre que quiser aceder a uma informação, fazer uma compra ou jogar um jogo. Imagine que esses ícones todos que tem no telemóvel não são mais do que atalhos para entrar em páginas da internet, que poderão fornecer serviços mais baratos porque não tiveram de pagar a programadores para desenvolver apps. E que o telefone ficou substancialmente mais barato porque não tem de ser tão rápido nem de incluir tanta capacidade de armazenamento. É um cenário que pode estar a caminho, graças a uma série de processos legais em andamento nos Estados Unidos e na Europa.

Esta história começou no verão, quando a produtora do Fortnite (um jogo muito popular) decidiu instigar os seus utilizadores a não comprar créditos pela AppStore de forma a não ter de pagar a taxa de 30% que a Apple cobra em todas as compras através da AppStore ou das apps que dela saem. Em resposta, a empresa da maçã pura e simplesmente baniu o jogo da AppStore, o que impede novos jogadores de o descarregarem e os utilizadores existentes de receber atualizações – a Google fez o mesmo logo a seguir, mas é mais fácil introduzir um jogo num sistema operativo Android do que num iOS. O ecossistema da Apple é bastante mais limitado do que o Android, o que também serve para garantir que os produtos da empresa de Steve Jobs têm muito menos malware e spyware que a concorrência. Mas tudo isto avançou para um processo pela Epic, a produtora do Fornite, contra a Apple e a Google.

A Comissão Europeia também já anda a olhar para o assunto, graças a uma queixa do Spotify – que, tal como a Netflix, deixou de permitir o pagamento de 30% via app para fugir à taxa Apple. Sendo que, neste caso, o problema é ainda maior: quando a Apple viu que o Spotify tinha potencial para ser bem sucedido, lançou o concorrente Apple Music para beneficiar do apetite por música… sem ter de gastar 30% na taxa. E o Facebook, que já estava envolvido noutro processo contra a Apple por causa das suas políticas de privacidade, decidiu aproveitar a boleia e dar uma ajuda à Epic para conduzir um ataque em várias frentes. E ainda há mais um processo: a Cydia, uma empresa que vivia de desbloquear iPhones e de os retirar do controlo das políticas da Apple, apresentou queixa na justiça contra a prática monopolista da Apple. Infelizmente, é bem possível que este chorrilho de processos acabe por ser prejudicial para o consumidor final, que pode ser forçado a adquirir um smartphone menos seguro – ou a pagar um valor maior pela segurança acrescida.

E começa a ser ponderada uma outra opção: a de viver sem apps, indo diretamente à net para aceder aos serviços e produtos que se pretendem. A introdução das apps não era inevitável e acabou por ocorrer por pressões de marketing, mas também porque se adequavam tecnologicamente melhor aos sistemas operativos dos dois gigantes móveis – e foi isso que impediu o acesso ao mercado de outros fabricantes de sistemas operativos. E mesmo o argumento da segurança começa a quebrar: uma aplicação que foi descontinuada é um portal de acesso perigosíssimo para um utilizador, para além de ter de lidar com misteriosos trackers e registos que ninguém sabe como vão parar às apps.

Claro que, para que o tal mundo sem apps aconteça, a cloud teria de ser muito mais ampla e com melhor processamento energético. As conexões de 5G teriam de ser muito mais eficientes e os browsers teriam de se tornar muito mais poderosos – e isso está longe de acontecer, até porque o maior browser do mundo é detido pela Google e o segundo maior pela Apple. A blockchain poderá ajudar aqui, mas ainda estamos a vários anos de uma efetiva descentralização da internet.

Mais uma vez, o problema aqui é o dos gatekeepers: empresas que bloqueiam o acesso a um efetivo espaço público e limitam a concorrência de outras empresas. Para a Apple tudo isto é business as usual, recorrendo ao argumento da segurança dos utilizadores. Para a Epic, isto equivale a uma taxa cobrada para segurança dos lojistas num bairro como se vê nos filmes que expõem esquemas mafiosos. Que os guardiões do portão agora sejam as empresas que fazem os sistemas operativos dos telemóveis é revelador de quão depressa este mundo mudou nas últimas duas décadas. E nada melhora quando se passa dos sistemas operativos para as redes sociais ou para os browsers, tirando algumas honrosas exceções (como o Firefox que está a ser usado para a escrita deste texto).

O espaço público é totalmente digital e está completamente degradado pelas práticas comerciais das grandes empresas norte-americanas, que tiveram vinte anos para construir um mundo a seu belo prazer sem que qualquer regulador tenha tido capacidade sequer de entender o que estava a acontecer. Agora, que o buraco de competências legislativas é mais do que óbvio, continua-se a querer utilizar remendos que não vão resolver nada de substancial e, provavelmente, só vão piorar a situação.

Ler mais: um bom livro para refletir sobre uma internet diferente foi publicado há cinco anos mas ainda não perdeu atualidade. The Future Internet tem uma série de ensaios sobre temas que cruzam a tecnologia e a regulação, especulando sobre o que aí vem no curto e no longo prazo.

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