Uma pequena experiência

  • Pedro Martins Barata
  • 8 Outubro 2021

A atual situação está a colocar os líderes na transição energética, numa situação insustentável a curtíssimo prazo, sem que do lado dos responsáveis da pasta haja sequer compreensão.

Imagine que um seu amigo lhe diz que há um bom negócio em que deveria investir: a compra de uma mercearia local com um grande distribuidor entre os vários no mercado. As condições para entrada são favoráveis e a Câmara Municipal está a facilitar o licenciamento de novas mercearias, que tinham estado parados dada a complexa regulação que anteriores executivos camarários tinham estabelecido.

Essas mercearias eram subsidiadas pela Câmara Municipal, mas a sua gestão deficiente e o monopólio que tinham levava a um péssimo retalho alimentar, com baixíssimos níveis de satisfação de clientes. Munido de algum capital e muita esperança, você avança para o negócio, que rapidamente prospera.

Ao contrário das velhas mercearias anteriormente licenciadas, as novas mercearias como a sua atraem novos clientes, pois conseguem oferecer os mesmos produtos com preços mais atraentes – ainda que regulados pela Autoridade Alimentar -, assim como complementar com serviços como “take away”, entrega em casa, aconselhamento nutricional, etc… Os clientes estão mais satisfeitos, a actividade económica é maior, a Câmara perdeu o monopólio, mas recebe mais receita de impostos das novas mercearias.

Um dia, contudo, as condições de mercado alteram-se substancialmente: os preços dos produtos que compra sobem rapidamente, cerca de 30% numa semana, várias semanas seguidas. Nessa altura, alguém lhe explica que afinal, os subsídios às mercearias antigas subsistem, e que a Câmara Municipal decidiu, com o beneplácito ou silêncio da Autoridade Alimentar, que os preços das matérias primas não se podem reproduzir sobre os clientes das mercearias antiquadas.

A mesma Câmara que incentivou ao aparecimento das mercearias novas com melhor serviço quer agora ter a certeza de que o preço não sobe nas mercearias novas, porque dessa forma a população em geral ficará mais contente. Enquanto isso:

– o seu empreendedorismo e o dos seus colegas foi às malvas;

– as mercearias novas fecharam todas por falência;

– a Câmara Municipal diz que está a cumprir com o que deve fazer, pois só regula diretamente o preço nas mercearias tradicionais;

– a Câmara tem que ir buscar às reservas que tinha o dinheiro para subsidiar as mercearias novas. No próximo ano, já se intui, o imposto municipal ou a derrama de IRC vão subir.

Você sai da cidade, jura nunca mais confiar na Câmara e decide abrir o seu negócio numa outra cidade gerida por quem perceba o seu papel no mercado. Agora leia tudo o que está atrás, mas:

– substitua “Câmara Municipal” por “Ministério do Ambiente / União Europeia”,

– “mercearia antiga” por “SU Electricidade / mercado regulado”,

– “mercearia nova” por “pequena empresa comercializadora de electricidade”,

– “Autoridade Alimentar” por “Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos”

E percebe um pouco daquilo que se está a passar em Portugal no mercado de electricidade. O que é pena, porque o grau de satisfação das diferentes empresas em Portugal é claro: São os pequenos comercializadores, aqui como em toda a Europa, que fornecem o melhor serviço. A isso somos levados por uma filosofia muitas vezes diferente, uma postura diferente no mercado, que privilegia qualidade sobre quantidade, empatia sobre agressividade na relação comercial.

A atual situação está a colocar estes agentes, claros líderes na transição energética, numa situação insustentável a curtíssimo prazo, sem que do lado dos responsáveis da pasta haja sequer a compreensão do que está em jogo. Quando só houver três operadores ou mesmo dois no mercado, veremos o resultado final no preço e na qualidade do serviço prestado. Mas os responsáveis já terão ido para outro lado.

  • Pedro Martins Barata
  • Membro da direcção da Coopérnico - Cooperativa de Energias Renováveis e consultor em energia e alterações climáticas da Comissão Europeia, OCDE, Banco Mundial e Ministério do Ambiente

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