“Na aviação fomos os primeiros a cair”. Trabalhadores da Groundforce estão “sem dinheiro na conta”

Numa manifestação pelo 2.º dia consecutivo, os funcionários da Groundforce voltaram a exigir o pagamento dos salários e denunciam que a falta de pagamento está a causar "situações dramáticas".

“Queremos trabalhar, queremos receber. Quem é que vai pagar para eu poder comer”. Foi sob este “mote” e ao som de palmas que arrancou pelas 11h30 desta quarta-feira a manifestação organizada pela comissão de trabalhadores (CT) da Groundforce à frente da sede da empresa. No segundo dia de manifestação consecutiva, os funcionários voltaram a exigir o pagamento dos salários de fevereiro e denunciam que a falta de pagamento está a causar “situações dramáticas” para as famílias que dependem da empresa. Ao mesmo tempo, o ambiente aqueceu com a chegada do presidente do Conselho de Administração da Groundforce que foi recebido com vaias e apupos.

Neste momento, estamos sem dinheiro nas nossas contas. Neste momento, temos pessoas a passarem dificuldades. Maridos e mulheres a trabalharem aqui [na Groundforce] os dois ao mesmo tempo, que este mês não receberam nada. Isto é grave”, afirma Rute Sousa, em declarações ao ECO. Há 15 anos a trabalhar para a empresa de handling, a funcionária assegura que nunca pensou “chegar a uma situação como esta”. “Temos os nossos momentos complicados, mas temos tido lucros”, salienta, acrescentando que “o que é certo é que na aviação fomos os primeiros a cair”.

Trabalhadores da Groundforce manifestam-se em frente à sede da empresa - 03MAR21
Hugo Amaral/ECO

 

Também Luísa Borba, que pertence à CT da Groundforce, alerta para a “situação dramática” que os atrasos nos salários estão a provocar nas famílias que dependem desta empresa. “Há colaboradores em que o cônjuge está desempregado e situações efetivamente dramáticas que nos estão a chegar“, admite. A Groundforce é detida em 50,1% pela Pasogal e em 49,9% pela TAP, sendo que segundo a responsável, que trabalha no setor da aviação há 22 anos, “é a primeira vez que acontece uma ausência total de salários”, desde que a companhia aérea de bandeira portuguesa existe.

Tal como todo o setor da aviação, a atividade da Groundforce tem sido fortemente penalizada pela pandemia e a empresa — cujo maior cliente é a TAP – tinha pedido em julho uma garantia pública para um empréstimo de 30 milhões de euros. Essa garantia nunca chegou a receber o aval do Governo e a Groundforce acabou por entrar em rutura de liquidez.

Trabalhadores da Groundforce manifestam-se em frente à sede da empresa - 03MAR21
Hugo Amaral/ECO

Marco Moura, também membro da CT, denuncia que a situação financeira da empresa tem-se “agravado nos últimos quatro meses”, tendo levado a que a empresa decidisse “unilateralmente” deixar de pagar “evoluções de carreira” e “evoluções de anuidades”, mas a gota de água sucedeu quando no final de fevereiro a empresa comunicou aos cerca de 2.400 trabalhadores que não tinha liquidez para pagar os salários referentes a fevereiro.

Recebemos, pela primeira vez, um e-mail do senhor Alfredo Casimiro [presidente do Conselho de Administração da Groundforce] a explicar que não havia liquidez e que aguardava que o empréstimo fosse efetivado no prazo de 15 dias e, portanto, era aguardar pacientemente”.

Alexandra Silva

funcionária da Groundforce

“Um dia antes de receber o salário, recebemos sempre o recibo de vencimento por e-mail. Este mês [fevereiro], tal como nos outros meses, recebemos o recibo normalmente. No dia seguinte era suposto entrarem os salários [na conta]. Mas os salários não entraram e nesse dia há noite, pelas 22h, recebemos, pela primeira vez, um e-mail do senhor Alfredo Casimiro [presidente do Conselho de Administração da Groundforce] a explicar que não havia liquidez e que aguardava que o empréstimo fosse efetivado no prazo de 15 dias e, portanto, era aguardar pacientemente“, explica Alexandra Silva, uma das trabalhadoras da empresa de assistência em terra, ao ECO.

Para pagar os salários de fevereiro, a empresa de assistência em terra tinha pedido o adiantamento do pagamento, em parte ou no todo, das faturas emitidas à TAP pelos serviços prestados em dezembro 2020 e janeiro 2021 e que totalizam 6 milhões de euros, mas a companhia aérea não aceitou. Pelo contrário, a TAP propôs o adiantamento de dois milhões de euros por serviços ainda não prestados referentes a maio de 2021 e pedia como garantia o penhor das ações detidas pela Pasogal, o que o acionista classificou na terça-feira como “incompreensível” e “ilegal”.

ontudo, ainda durante a manifestação desta quarta-feira, o acionista maioritário da Groundforce revelou que mudou de ideias. “A contrapartida é aceite pelo acionista maioritário. Vou dar as minhas ações como penhor. A Pasogal está disponível para dar as ações como garantia às faturas vencidas do mês de dezembro e janeiro”, disse Alfredo Casimiro, ao som de apupos e vaias à chegada à manifestação que juntou cerca de 300 funcionários. O responsável disse ainda acreditar que o acordo entre a Pascogal e o Ministério das Infraestruturas seja alcançado nas próximas horas. “Se hoje ficar assinado o acordo, acredito que amanhã teremos a situação resolvida”.

Quando houver voos cheios e voltarmos a ter uma atividade normal a Groundforce vai dar o pulo”.

Esta solução é vista com bons olhos por parte da CT que refere que, a concretizar-se “é a solução mais rápida”, para resolver o “problema do imediato”, isto é, o pagamento dos salários em atraso. “O mais urgente neste momento é tratar dos vencimentos e sentarmo-nos à mesa para resolvermos os restantes problemas“, sinaliza Marco Moura. Não obstante, Rute Sousa sublinha que esta “é uma medida se for duradoura”, mas avisa que caso a situação se repita nos próximos meses vão voltar “à carga” com outras formas de luta.

Trabalhadores da Groundforce manifestam-se em frente à sede da empresa - 03MAR21
Hugo Amaral/ECO

Se em 2019, os trabalhadores da Groundforce não tinham mãos a medir para a afluência de passageiros no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, a pandemia veio trocar a volta às suas rotinas. Com o estado de emergência em março de 2020 e as fronteiras fechadas, a maioria dos trabalhadores foi mandada para casa a receber dois terços dos salários. No verão, a situação melhorou, embora em níveis muito inferiores ao boom do turismo, e a Covid obrigou-os a alterarem as rotinas de trabalho. “Começámos a ter um trabalho completamente diferente do que tínhamos”, conta Alexandra Silva.

Além de ficarem responsáveis pelos embarques, desembarques e check-in, estes profissionais passaram também a verificar algumas medidas de prevenção da Covid. “Por causa da pandemia passámos a verificar testes à Covid, a verificar por que razão cada passageiro vai entrar naquele país e se pode fazê-lo”, explica. Um ano depois, os trabalhadores dizem que “mudou muita coisa”, mas acreditam que quando a pandemia passar a Groundforce “vai dar o pulo”. “Só precisamos que nos ajudem agora”.

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