Joana Morais Fonseca

Joana Morais Fonseca
Joana Morais Fonseca

O Governo apresentou, na sexta-feira, a versão final do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para aceder às verbas comunitárias pós-crise da Covid-19. Transição digital na saúde e na educação, energias renováveis e biotecnologia, são algumas das áreas prioritárias para investir no âmbito desta "bazuca" europeia, segundo os profissionais de vários setores ouvidos pelo ECO. Já para a cultura e para a restauração, os apoios destinados parecem insuficientes face ao que perderam com a pandemia.

No âmbito deste programa, que prevê 19 componentes que integram 36 reformas e 77 investimentos nas áreas sociais, clima e digitalização, Portugal vai receber 16.643 milhões de euros, dos quais 13.944 milhões de euros financiados através de subvenções (dinheiro a fundo perdido) e 2.699 milhões de euros através de empréstimos.

Na apresentação das linhas gerais do Programa de Estabilidade, o ministro das Finanças anunciou, que, até 2025, se estima que a chamada “bazuca” europeia tenha um impacto de 22 mil milhões na criação de riqueza em Portugal, mas este impacto até poderá ser maior já que o PRR tem de ser executado até 2026. O documento deverá ser apresentado em Bruxelas na segunda-feira, segundo revelou o ministro do Planeamento, sendo que haverá um capítulo específico sobre o impacto macroeconómico do PRR. Mas, afinal, o que faria um epidemiologista com este dinheiro? E um chefe de cozinha? O ECO foi procurar saber junto de cinco profissionais de áreas distintas.

Carmo Gomes defende aposta na digitalização da saúde

Depois da habitação e do investimento e inovação, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) é uma das áreas prioritárias no âmbito da resiliência do PRR. Estão destinados 1.383 milhões de euros, que incluem investimentos na transição digital da saúde, uma das áreas em enfoque para o Manuel Carmo Gomes. Nesse sentido, o epidemiologista destaca de o Executivo deve investir em tudo o que "sustenta a recolha, o fluxo e a automatização da informação", bem como no que toca à "anonimização dos dados em suporte informático" para que depois essa informação possa "chegar a toda a comunidade que pode usá-la, trabalhá-la e pode devolver essa informação para benefício do SNS", aponta, em declarações ao ECO.

Andou-se a gastar milhões em plataformas informáticas e, às vezes, no mesmo centro hospitalar não falam umas com as outras".

Manuel Carmo Gomes

, epidemiologista e professor

Ao mesmo tempo, Carmo Gomes destaca que "um dos aspetos que dificultou muito e continua a dificultar" o acompanhamento da pandemia prende-se com a falta de comunicação entre os vários subsistemas de saúde que, na sua opinião, faz com que não se tenha a "informação de que se necessita de forma rápida, fiável e, de preferência, automatizada e sem problemas de anonimização". "Andou-se a gastar milhões em plataformas informáticas e, às vezes, no mesmo centro hospitalar não falam umas com as outras", lamenta.

Um dos exemplos dados por Manuel Carmo Gomes em relação à falta de comunicação entre os subsistemas de saúde diz respeito ao programa digital "vacinas", onde qualquer pessoa vacinada nos centros de saúde fica registada. Sublinhando que este "foi um grande avanço" no que toca ao programa nacional de vacinação, o médico lamenta que esses dados depois não sejam acedidos pelos hospitais. "Uma maneira extraordinária de ver se as vacinas contra a Covid-19 são eficazes era ir a todos os doentes que estão a dar entrada nos hospitais com Covid-19 e verificar se eles estão vacinados ou não", afirma, acrescentando que como "não há ligação a esta informação", isso não é possível.

Quanto à "bazuca" europeia na sua globalidade, Carmo Gomes receia que seja "insuficiente" e que fique "aquém" das necessidades, quando comparada com os pacotes já apresentados do outro lado do Atlântico e crítica a demora na chegada das verbas europeias. "Quando vier já é preciso o triplo ou o quadruplo. Assim como a quantidade o timing também me parece importante", assinala. Por outro lado, o especialista sublinha que "é muito importante que haja algum controlo para evitar esquemas de corrupção e de má utilização dos dinheiros". "Isto da corrupção parece uma coisa muito ligada ao DNA dos humanos", conclui.

Turismo é "pilar da economia". Apoios são insuficientes, diz Vítor Sobral

Apesar de o PRR ser fortemente dirigido ao setor público, o plano contempla também apoios ao tecido empresarial. Na "reta final", o Governo decidiu dar mais dinheiro às empresas, sendo que no total vai "injetar" cerca de cinco mil milhões de euros em apoios diretos às empresas (um reforço de cerca de 400 milhões de euros face ao previsto inicialmente) e 2,7 mil milhões de euros em apoios indiretos. Ao ECO, o chef Vítor Sobral vê com bons olhos este reforço, já que são "as empresas que criam riqueza e postos de trabalho".

Contudo, o dono de quatro "Padaria da Esquina" e outros três restaurantes, lamenta que não haja um apoio específico para o setor do turismo, um dos mais fustigados pela pandemia. "No que diz respeito ao turismo, que é sobretudo um pilar da nossa economia, os apoios são deficitários", aponta, lembrando que este setor implica não só a restauração, hotelaria e a aviação, mas também "mais de 60 atividades inerentes", como a "pesca, a agricultura, até mesmo a indústria".

Para o chef, o tecido económico português precisa de um "turismo forte" que consiga "fazer frente aos outros destinos da Europa". Para atingir esse objetivo é necessário "melhorar a qualidade do turismo", nomadamente através da qualificação dos profissionais que trabalham nesta área, com o intuito de subir o "preço médio" que os turistas "deixam em Portugal"."A mão-de-obra é uma vítima dos preços que praticamos porque se praticássemos preços mais aproximados dos destinos que são nossos concorrentes, a nossa mão-de-obra era melhor remunerada. Se era melhor remunerada era também de melhor qualidade", conclui.

Ao mesmo tempo, o empresário sugere que sejam apoiados projetos que defendam e privilegiem "tudo o que é nacional" e que "tem qualidade no país", mas também que se reforce a "capacidade de comercialização e de divulgação" dos produtos portugueses, já que considera que "a marca portuguesa muitas vezes perde notoriedade para outras marcas". Por fim, Vítor Sobral diz que o Governo devia investir "significativamente" naquilo que "é a história da gastronomia" portuguesa,

Relativamente ao plano delineado pelo Executivo, e que esteve sob consulta pública tal como sugerido por Bruxelas, o chef acredita que o dinheiro "vai ser aproveitado", mas espera que se "criem mecanismos de fiscalização", com o intuito de Portugal possa "aprender com os erros do passado". "Todos sabemos que durante muitos anos houve fundos que foram muito mal aproveitados e lapidados e que Portugal não teve o melhor retorno desses fundos", conclui.

"Se não estiverem todos envolvidos na transição digital as coisas não funcionam"

Sérgio Leal, professor na Escola Secundária Seomara da Costa Primo, na Amadora, vê com bons olhos para a chamada "bazuca" europeia, referindo que no que concerne à transição digital nos estabelecimentos de ensino o plano "nem está mal pensado". No total, 2.513 milhões de euros são para transição digital, dos quais 559 milhões para a escola digital.

Neste contexto, o também investigador e dono dos centros de estudo "Educate", em Benfica, aponta que deve haver um investimento em infraestruturas tem em vista melhorar "o nível de rede e de net", bem como um "investimento de equipamentos" (o chamado hardware) já que "estão sempre a ficar obsoletos". Ao mesmo tempo, o professor de física e química assinala que o Governo deve investir no "software para estar atualizado" e na formação "contínua" dos professores, para que depois os "próprios professores possam formar os alunos.

"A formação tem de ser estruturante, seja uma escola ou uma empresa, tem de ser a todos os níveis, desde os líderes ao pessoal mais técnico. Se não estiverem todos envolvidos na transição digital as coisas não funcionam", explica, ao ECO. Foi através de fundos europeus que Sérgio Leal já fez algumas formações nesta área, pelo que alerta para a burocracia no processo de acesso às verbas comunitárias. "Normalmente os acessos aos fundos pelo comum dos mortais é bastante complicado e difícil porque costumam arranjar uma burocracia tal, uma especificidade tal, uma necessidade de fazer mundos e fundos com quinhentas mil condições que torna um bocado impraticável o acesso", assinala, acrescentando que espera que o processo seja mais "agilizado".

Além disso, o professor considera que a gestão dos fundos não deve ser tão "centralizada", defendendo que deveria estar "nas estruturas intermédias", de modo a que esta gestão seja mais eficaz e que se evite que depois o dinheiro tenha que ser devolvido, dado que tem um prazo de execução.

Apoios para a Cultura são "irrisórios", diz Moita Flores

Há cerca de uma semana o Governo anunciou algo que não estava planeado no primeiro documento do PRR: dinheiro para a Cultura. Mais precisamente, mais de 240 milhões de euros e ainda 1% do investimento global em obras públicas irá reverter para a arte. A ausência de uma referência direta à cultura no PRR gerou duras críticas ao Governo. Porém, as críticas ainda não terminaram. Para Francisco Moita Flores, escritor, este anúncio é apenas "de propaganda eleitoral" - tal como têm sido as outras medidas anunciadas para o setor durante a pandemia. "Reerguer este setor tão vasto, que é a cultura portuguesa no seu todo, vai ser uma odisseia. Não tenho dúvidas de que mais uma vez, neste Portugal analfabeto e completamente liderado por ignorantes, vai ser à custa e pelo esforço dos próprios profissionais da cultura", afirma ao ECO.

Para os que vivem da criação 244 milhões de euros é irrisório no mundo do espetáculo. Não chegará para fazer grande coisa."

Francisco Moita Flores

Escritor

Quando questionado onde investiria os milhões da "bazuca", Moita Flores explica que “é muito mais complexo que o dinheiro" e que "não é por aí que se refaz o tecido cultural do país”. O escritor não poupava no investimento na cultura visto que, para ele, todas as áreas precisam: da produção de espetáculos de teatro e música, ao cinema e feiras do livro, tudo é necessário. “Um investimento que abrange autarquias, sociedades recreativas, grupos amadores e profissionais de teatro. É um trabalho tão complexo e tão gigantesco”, diz.

Além do mais, não considera 244 milhões suficientes. "Para os que vivem da criação 244 milhões de euros é de irrisório no mundo do espetáculo. Não chegará para fazer grande coisa." As suas perspetivas são ainda piores, pois pensa que estes milhões são apenas "prometidos", mas que "não vão ser executados" e, a chegarem, não darão "para colocar em funcionamento as redes principais de teatro, música, e dança". "Este Governo distribui promessas e anuncia medidas e leva-nos a todos nessa cantiga", declara.

Da aquacultura à biotecnologia, há muito para explorar

João Correia, biólogo e um dos fundadores da Flying Sharks, empresa dedicada a promover a sustentabilidade dos Oceanos, olha para o pacote anunciado para o Mar a 12 de abril com bons olhos. São 252 milhões de euros para financiar investimentos na investigação, na economia do mar e na segurança pesqueira. “Quanto mais melhor, mas 250 milhões parece-me bem simpático”, revela o biólogo, acrescentando que é um apoio “recebido de braços abertos” que vem consolidar o trabalho feito por cientistas e empresários nos últimos anos neste setor.

Apesar do trabalho dos últimos anos – que considera “extraordinário” – há áreas onde gostaria de ver investido este dinheiro. A começar, na “aquacultura responsável”. Segundo João Correia, “a aquacultura em Portugal ainda é um pouco ineficiente”. Existem alguns casos, mas a maioria de pequena dimensão e, por isso, merece a atenção do Governo. Depois, investiria também nas energias renováveis, utilizando o mar e a força das ondas. De recordar que, no PRR que foi a consulta pública estavam incluídos já 371 milhões de euros para a categoria “hidrogénio e renováveis”.

Por fim, ressalva que há “muita coisa para explorar e fazer na área da biotecnologia”. “Há uma imensidão de moléculas super interessantes que podem ser extraídas do mar e de organismos marinhos que depois têm aplicações na indústria farmacêutica, nutrição, cosmética e beleza.” João Correia dá alguns exemplos de empresas que o aplicaram muito bem, como a Bioalvo (empresa entretanto extinta) e a ALGAplus.

É uma pessoa positiva, tem esperança que este dinheiro acabe mesmo por chegar ao setor. No entanto, admite que “há sempre medo de que estas medidas sejam anunciadas à última da hora” ou retirem ou diminuam o apoio. Ainda assim está confinante, pois considera que “é difícil as coisas falharem da forma gritante que antigamente falhavam, pois a opinião pública hoje em dia está muito mais ativa”.

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