• Reportagem por:
  • Juliana Nogueira Santos

Real Hotéis recrutou numa open night. O ECO foi dar um passo de dança

O grupo hoteleiro apostou num novo conceito de recrutamento: uma festa em que um currículo dá direito a uma bebida. Ainda assim, foi difícil encontrar um emprego.

A música eletrónica que ecoa de um velho edifício da zona de Alcântara, em Lisboa, não deixa adivinhar que lá dentro se estão a recrutar candidatos para um grupo de hotéis com mais de 20 anos. O Grupo Hotéis Real chamou-lhe “Open Night”, um evento informal para quebrar o gelo que, habitualmente, torna desconfortáveis as entrevistas de trabalho.

Tinha-me candidatado como recém-licenciada de Comunicação que ainda não encontrou trabalho depois de terminar os estudos. De acordo com a minha formação, estava “interessada” em cargos no departamento de comunicação e marketing, ou até no front office, mas com o anúncio de vagas em vários departamentos, o objetivo era sondar todas as possibilidades. Vejo seguranças de porta, separadores de fila e carpetes pretas: é ali a festa.

“Bem-vinda à Open Night. Trouxe o seu currículo?”, perguntam-me à entrada do espaço WIP, que também faz parte do Real Hotels Group. Ao entregar o documento, chega a explicação daquilo que se vai passar. “Cá em baixo tem a pista de dança, onde pode levantar a sua bebida, enquanto no andar de cima há várias demonstrações”, aponta a jovem da receção. “E tem aqui alguns cartões onde pode escrever o seu nome e contacto, para o caso de estar a falar com uma chefia.”

As pessoas que vão entrando nestes primeiros minutos de evento, que teve como início a batida das sete da noite, estão vestidas com roupas casuais, deixando transparecer que terminaram as tarefas diárias e rumaram àquela festa. Mais tarde, viriam a chegar indumentárias mais formais, mas já lá chegamos. Com o andar das demonstrações ainda fechado, começam a ocupar, envergonhados, a pista de dança.

A pista de dança do espaço WIP foi se enchendo de candidatos.Real Hotels Group

“Já estou habituada a este ambiente de festa, trabalhava em cruzeiros”, confessa-me uma das candidatas, quando lhe pergunto o que acha desta iniciativa. “Agora queria fazer outra coisa, talvez na área do spa“, aponta, não se mostrando completamente confiante nesta escolha. Aliás, à medida que as pessoas sobem para o já aberto piso de demonstrações e passam pelos stands, vão ficando cada vez menos certos do caminho que querem fazer. Muitos só querem um trabalho.

Todos os hotéis do grupo num só piso

Ao subir para o segundo piso, a música mantém-se, mas o networking adensa-se. Os responsáveis por cada área vão conversando com os presentes e mostrando — e demonstrando — as valências. À entrada, o front office, onde se procuram rececionistas para dois dos nove hotéis da chancela. “Procuramos pessoas comunicativas e com experiência“, informa o gerente de secção, riscando assim uma das minhas opções.

"O diretor costuma dizer-nos que somos muito bons a trabalhar, mas a festejar nem se fala.”

Gerente de housekeeping

Segue-se a área de pisos, ou seja, de housekeeping. “Gosto muito do que faço porque sou muito perfeccionista”, diz-me a gerente. “E é uma função onde se fazem muitas coisas, muito desgastante, as pessoas é que chegam ao quarto e encontram sempre tudo perfeito. Acham que alguém chegou com uma varinha e deixou tudo arrumado por magia.”

Quando expresso a minha surpresa por um hotel ter feito um evento de recrutamento deste tipo, a gerente de housekeeping garante que este espírito descontraído faz parte da identidade da marca e dos seus colaboradores. “O diretor costuma dizer-nos que somos muito bons a trabalhar, mas a festejar nem se fala”, deixa escapar, entre risos.

Panorâmica do piso de demonstrações da Open Night.Real Hotels Group

Ao lado, e concentrando muita da atenção da sala, está a secção de spa, onde uma massagista vai intercalando as explicações com as demonstrações. Esta conta-me que entrou na empresa através de um estágio, tendo sido contratada logo após terminar. “Nunca tive uma experiência de estágio tão boa como esta”, vangloria. “Para quem esteja mesmo agora a começar é perfeito.”

A conversa é interrompida por uma massagem de alguns minutos, com direito também a conselhos. “Está muito tempo sentada ao computador”, pergunta-me, em jeito de afirmação, a massagista. “Sim, nota-se muito?”, retribuo eu, sem querer avançar o que faço. “Tem os ombros muito tensos, tem de beber muita água e ir massajando durante o dia, para os músculos irem relaxando”, aconselha.

"Não fazemos estágios pelo IEFP porque demoram muito tempo e são muito burocráticos. Os nossos estágios são não remunerados, com direito a alimentação nos nossos restaurantes.”

Colaboradora dos Recursos Humanos

À massagem segue-se o risoto de farinheira e a poké bowl de sushi, cortesia dos chefs dos vários hotéis da marca. “Só vim acompanhar a minha amiga, mas também vim pela comida e pela bebida”, atalha uma das presentes na sala, afirmando que a troca direta entre um currículo e uma bebida grátis, como se anunciava na descrição, foi um dos fatores de atratividade do evento.

Por entre copos e pratos, os currículos vão se juntando nas mesas, como que a fazerem de individuais. Circulam pastas e micas nas mãos dos candidatos e cartões de contacto nas mesas de pé alto que vão recebendo também speed datings entre as chefias e os que andam à procura de emprego. À medida que passam as horas, começam a chegar pessoas vestidas a rigor, elas de vestido e eles de fato. A festa ainda nem estava a meio.

Começar nos Real, mas sem receber

Em conversa com o pessoal dos Recursos Humanos, e apresentando-me como uma recém-licenciada em Comunicação, a porta da contratação direta fechou-se à partida. Segundo estes, o caminho de alguém sem experiência deve começar pelo estágio para ir subindo degrau a degrau até à assinatura de contrato.

“Não fazemos estágios pelo IEFP porque demoram muito tempo e são muito burocráticos”, afirma uma das colaboradoras do departamento. “Os nossos estágios são não remunerados, com direito a alimentação nos nossos restaurantes“, responde ainda, quando lhe pergunto quais são então as modalidades de estágio disponíveis.

Com poucas esperanças de arranjar uma vaga para a qual tenha qualificação ou experiência, subo as escadas para encontrar o tema do novo hotel lisboeta de chancela Hotéis Real, o Real Maxime Hotel. Este, como o nome indica, instalar-se-á no edifício do mítico Maxime, na Praça da Alegria e será inspirado nos cabarets, ostentando plumas e brilhos como a regra dita.

É para esta nova unidade hoteleira que o grupo necessita de mais colaboradores, principalmente nas áreas de restaurante e cozinha. Com este cenário, desço para a pista de dança quase vazia, mais de duas horas após começar a festa e sento-me com a rapariga que veio acompanhar a amiga e a dita. Conta-me que tirou gestão hoteleira, mas que tem sido complicado arranjar emprego, mesmo com o boom do turismo.

"Hoje em dia só se entra para um hotel se fores sobrinho de alguém ou se já tiveres dez anos de experiência.”

Candidata

“Hoje em dia só se entra para um hotel se fores sobrinho de alguém ou se já tiveres dez anos de experiência”, lamenta a jovem. “E tudo o que aparece é precário, pagam mal ou não pagam nada.” Pergunto-lhe se com o surgimento de hostels e residências a oferta não aumentou, mas a resposta não é favorável. “Para esses sítios pedem pessoas só com o ensino secundário, o que me faz perguntar às vezes porque é que gastei tempo e dinheiro numa licenciatura.”

Ao ECO, Américo Batista, diretor de recursos humanos do grupo, garante que estiveram presentes cerca de 200 pessoas, sendo que o Real Hotels Group procurou “deixar claro o nosso posicionamento enquanto empregador no competitivo mercado de trabalho da hotelaria.” “Aqui a qualidade e profissionalismo só fazem sentido aliados à diversão e celebração”, aponta ainda.

Quanto à minha procura de emprego, parece não ter dado muito resultado. Fiquei-me por metade da festa, que durou até à uma da manhã, e fui para casa com os ombros mais relaxados e a barriga confortada. Pode ser que me chamem para uma entrevista.

(Esta reportagem foi escrita na primeira pessoa para testemunhar a experiência pessoal da jornalista que se inscreveu neste recrutamento para poder escrever sobre o assunto.)

  • Juliana Nogueira Santos
  • Redatora

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