Tecidos reciclados, amigos do ambiente e tingidos com desperdícios alimentares. Têxtil português atrai os alemãespremium

Para além da inovação, a sustentabilidade teve um papel de destaque na Munich Fabric Start que contou com 31 empresas portuguesas. As expectativas foram superadas e o sentimento é de missão cumprida.

Nem a pandemia da Covid-19 impediu a Munich Fabric Start de arrancar esta semana na cidade alemã de Munique. As empresas portuguesas do têxtil e vestuário marcaram presença em força nesta feira que marca o regresso do setor às feiras presenciais. O balanço foi "bastante positivo" e superou as expectativas. É caso para dizer que o cluster está a dar cartas no mercado alemão.

Da confeção aos tecidos, 31 empresas portuguesas marcaram presença nesta feira para mostrar o que de melhor se faz em Portugal e para ditar as tendências da próxima coleção. A sustentabilidade foi a palavra de ordem naquela que é considerada a principal feira de confeção e tecidos do mercado alemão e uma das principais da Europa. Tecidos reciclados, produção sustentável, processos amigos do ambiente e peças de roupa com tingimentos à base de desperdícios alimentares, como o café e o mirtilo, foram algumas das novidades que as empresas portuguesas mostraram nesta feira.

O evento que já vai na 45.ª edição, e que terminou na quinta-feira, contou com cerca de 1.000 expositores e 20 mil visitantes, principalmente de nacionalidade alemã. Apesar das expressões estarem camufladas pelas máscaras era notório o sentimento de entusiasmo por parte dos expositores e visitantes que sentiram o cheiro do "regresso à normalidade", 18 meses depois de verem os seus negócios serem assombrados pela pandemia da Covid-19.

Se antes da feira se realizar as empresas portuguesas já tinham a esperança que a Munich Fabric Star ia "ser o motor de arranque da indústria têxtil e vestuário”, depois do evento a comitiva lusa regressou a Portugal com o sentimento de missão cumprida.

Fátima Castro/ECO

Quem não abdica de marcar presença na Munich Fabric Start é a Calvelex que viu nesta feira uma oportunidade para promover a empresa no mercado alemão, que representa um papel importante para a empresa de vestuário que emprega 600 colaboradores. "A presença lusa em Munique significa que Portugal está no mercado alemão para dar cartas e mostrar o melhor que se faz em Portugal". Na ótica do líder da Calvelex este tipo de feiras permite ao setor "partilhar experiências, sair mais fortes, mais confiantes e com maior maior conhecimento".

A Riopele, que é uma das mais antigas empresas têxteis portuguesas, também marcou presença nesta feira em Munique. O presidente José Alexandre Oliveira conta ao ECO que o "contacto presencial é fundamental" no cluster do têxtil e vestuário. Foi com "grande alegria" que o líder da Riopele voltou a uma feira presencial. A Alemanha é o terceiro maior mercado da empresa, que emprega 1,100 colaboradores, ao representar mais de 30% do volume de exportações.

O mercado alemão está no top 3 dos principais destinos de exportações portuguesas de vestuário e é um palco com bastante importância e peso para o cluster português. De acordo com os dados preliminares do INE, nos primeiros seis meses do ano, Portugal já exportou perto de 142,3 milhões de euros de produtos de vestuário para a Alemanha, evidenciando um crescimento de 17,4% em relação ao período homólogo e um aumento de 9,0% quando comparado com igual período de 2019.

A presença lusa em Munique significa que Portugal está no mercado alemão para dar cartas e mostrar o melhor que se faz em Portugal.

César Araújo

Presidente da Calvelex e Anivec

A Marfel, que se juntou à comitiva portuguesa em Munique, viu nesta feira uma "oportunidade estratégica" para se posicionarem no mercado alemão. "A Alemanha é um mercado que queremos explorar", tendo em conta que ainda representa uma quota muito pequena no nosso volume de negócios. Marcar presença nesta feira foi uma forma de mostrar o que fazemos e de certa forma conquistar o mercado alemão", refere o diretor comercial da Marfel, Carlos Guedes.

Apesar de ser conhecida pelas camisas, a Marfel, que está localizada em Felgueiras e conta com 200 colaboradores, está a apostar em novos produtos como polos, loungewear, t-shirts e camisas em malha.

O secretário de Estado Adjunto e da Economia, João Neves, que acompanhou a comitiva lusa na Munich Fabric Start, destacou que "Portugal sabe fazer, tem design, preço e proximidade aos mercados". No entanto, apesar de considerar que Portugal está bem posicionado, realça que é necessário “reforçar a presença internacional”. E é exatamente com esse mote que a Marjocri se estreou na feira de Munique. "Com a evolução da conjuntura socioeconómica desta pandemia, sentimos necessidade de explorar novos mercados, novos produtos e novas formas de fazer chegar os nossos produtos a mais potenciais novos clientes”, explica a diretora de marketing e comunicação, Joana Moura.

Empresas lusas apostam na sustentabilidade

A sustentabilidade foi o mote de arranque nesta primeira feira presencial do setor e teve um papel de destaque. A inovação aliada à sustentabilidade, é uma nova exigência do consumidor e as empresas portuguesas fizeram questão de mostrar ao mercado alemão os avanços que têm feito neste caminho.

Para o presidente da Anivec, "Portugal é dos países com uma indústria melhor em termos sociais e ambientais e tem de estar na linha da frente no desenvolvimento da moda", destaca César Araújo.

Contrariamente à Marjocri, que está a marcar presença na feira em Munique pela primeira vez, a RDD já é presença habitual na Munich Fabric Start, ora não estivesse o mercado alemão está no top cinco dos principais destinos de exportação da RDD, que emprega 135 pessoas.

A empresa de Barcelos especializada em tecidos sustentáveis aproveitou a feira em Munique para apresentar várias gamas desde fibras sustentáveis até tecidos com tingimentos naturais à base desperdícios alimentares oriundos de produtos como o café ou os mirtilos. A RDD tem vindo a apostar em processos amigos do ambiente tais como as fibras naturais com reduzido impacto ambiental.

Elsa Parente, general manager da RDD, conta que a "feira correu muito bem e que é uma oportunidade de mostrar ao mercado aquilo que têm feito de inovador no último ano e meio". Para a general manager da RDD, "Portugal está muito bem representado na feira e já provou ao longo dos últimos anos que sabe produzir produtos com qualidade".

Fátima Castro/ECO

O secretário de Estado Adjunto e da Economia, João Neves, realça que as "empresas portuguesas estão focadas na sustentabilidade". João Neves realça que Portugal quer "aproveitar esta dinâmica para tornar as cadeias de distribuição mais curtas" -- uma forma de reforçar a vertente da proximidade com os mercados de destino.

A TMR Fashion Cloting é um exemplo da aposta em peças sustentáveis. A empresa aproveitou a feira em Munique para exibir um vestido sustentável chamado Hype que faz parte da nova coleção Brand Me. Esta peça é feita com materiais sustentáveis, os acabamentos não têm químicos e até conta com uma bolsa impermeável incorporada.

"A nossa empresa já trabalha com produtos e marca de sustentabilidade há alguns anos e em junho conquistamos o certificado Global Recycle Standard (GRS). A sustentabilidade está a ir muito ao encontro não só dos orgânicos e dos naturais, mas também dos reciclados. Essa é a nossa aposta e existe muito procura", conta ao ECO, Mariana Máximo, digital marketing strategist da TMR.

Mariana Máximo realçou que o balanço da feira foi "muito positivo" e adiantou que receberam contactos "bastante interessantes". À semelhança de outras empresas portuguesas, o mercado alemão está entre o primeiro e o segundo lugar dos principais destinos de exportação da TMR. "Em 2019 exportamos 1,2 milhões para o mercado alemão, em 2020 exportamos 2,2 milhões e este ano o nosso foco é chegar aos 3,3 milhões", adianta a responsável de marketing da TMR, localizada em Guimarães.

À semelhança da TMR Fashion Cloting, a Marfel tem vindo a percorrer um caminho com foco na sustentabilidade. "Muitas das vez somos nós que propomos ao cliente, mas existe uma enorme procura por parte dos clientes em produzir peças que incluam materiais sustentáveis, como o algodão orgânico", realça o diretor comercial da Marfel.

Quem também não abdica das repetidas presenças na Munich Fabric Start é a Fitecom para quem a feira representa um ponto de encontro com o mercado alemão, um dos mais relevantes e em crescimento para a empresa que participa na feira com stand próprio desde 2012. Para a Fitecom a sustentabilidade é o futuro. Nesta feira apresentaram "um reforço na linha de ecológicos nomeadamente de laminados e tecidos compostos com características acrescidas como a repelência ou o regulador de temperatura adaptado ao meio ambiente”, avança Nuno Mendes, responsável de exportações da Fitecom.

A Troficolor também juntou-se ao mote da sustentabilidade e aproveitou a feira para apresentar a sua coleção de inverno de denim e PPT (pronto a vestir) baseada na economia circular, mais concretamente em fibras recicladas e algodão BCI.

Para as empresas portuguesas este arranque foi "bastante positivo" e já estão a preparar-se para as próximas feiras presenciais como é o caso da Première Vision, em Paris. Em suma, a dinâmica está de volta e o "cluster está vivo". "Estamos vivos e vamos continuar a trabalhar”, é com estas palavras que o vice-presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), Paulo Melo, que acompanhou a comitiva portuguesa, resume a presença das empresas portuguesas nesta feira em Munique.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos