Trabalhadores da Efacec saltam portões contra a “raposa dentro do galinheiro”premium

Na manifestação, o ECO ouviu criticas à direção de Ângelo Ramalho e queixas de quem vai à empresa "apertar meia dúzia de parafusos". "Estamos na empresa a gastar o dinheiro dos contribuintes”.

Sem matérias-primas, com a empresa praticamente parada e com o processo de reprivatização a avançar em ritmo lento, os trabalhadores da Efacec reclamam a demissão da atual administração, liderada por Ângelo Ramalho, e pedem que o Estado nacionalize a empresa.

"Os trabalhadores não confiam na atual administração da empresa. O Estado permitiu que ficasse a administração anterior na mesma a gerir a empresa. Nas palavras dos próprios trabalhadores, o Governo deixou a raposa dentro do galinheiro", conta ao ECO, Sérgio Sales, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e Atividades do Ambiente do Norte (Site-Norte).

Centenas de trabalhadores da Efacec realizaram na quarta-feira uma greve de duas horas à porta da sede da empresa, em São Mamede de Infesta. Na manifestação que teve uma "adesão maciça” foram muitos os gritos de revolta e as afirmações de descontentamento com o rumo que a empresa está a tomar.

Para a grande maioria dos trabalhadores, o principal problema da Efacec nem é a falta de matérias-primas, mas sim a má gestão. "A péssima gestão que tivemos até agora é muito mais responsável que a falta de matérias-primas", conta um chefe de secção da Efacec, que trabalha na empresa há 15 anos e prefere manter o anonimato.

"Nós queremos que a Efacec fique na esfera do Estado e que despeça a atual administração, não admitimos outra opção. A empresa tem que ser do Estado, porque isto é uma mais-valia para o norte e para todos os portugueses. Se for preciso um 25 de abril vamos fazê-lo, mas não vai ser com cravos", admite um trabalhador que trabalha na Efacec há 17 anos, mas que por receio de represálias, preferiu manter o anonimato.

Pedro Nogueira, trabalhador da Efacec há 14 anos, lembra que a empresa começou a perder clientes já com a administração de Isabel dos Santos e que posteriormente a atual gestão, liderada por Ângelo Ramalho, "não se esforçou para manter os clientes". "Já não ganhamos novos clientes. A produção veio sempre a cair e nada se fez para mudar isso. Estou farto que esta direção esteja aqui. Não temos trabalho e a atual direção não faz nada para mudar isso. Já não querem saber", afirma Pedro Nogueira.

A 22 de outubro, o Site-Norte tinha já reclamado a intervenção do Governo, enquanto “dono da Efacec”, para garantir que a empresa dispõe das matérias-primas necessárias para retomar a atividade com normalidade.

Horas depois da greve, o ministro de Estado, da Economia e da Transição Digital, Pedro Siza Vieira, defendeu que a "administração da Efacec não tem responsabilidades na situação de impasse que a empresa atravessa" enquanto não é concluído o processo de reprivatização.

Contrariamente às palavras do governante, para o chefe de secção, que prefere manter o anonimato, o "principal responsável deste fracasso tem um nome, o diretor André Carvalho". Questionado se o presidente executivo da empresa, Ângelo Ramalho, tem culpa no cartório, o chefe de secção lembra que o gestor "é responsável pelas pessoas que meteu na empresa e por não controlar as mesmas. Foram essas pessoas que Ângelo Ramalho meteu aqui que destruíram a empresa".

O mesmo trabalhador diz que em janeiro deste ano foram contratados 22 novos diretores para cargos "que nem sequer existiam". E mesmo com esse reforço, a "produção em vez de melhorar, piorou bastante". Os trabalhadores consideram que estão abandonados pela atual gestão.

Rui Pires, que trabalha na Efacec há 15 anos, não compreende o facto de o "Estado ser o maior acionista da Efacec com uma participação de 71,73% e não investir na empresa".

Trabalhadores exigem ao Governo que fiscalize os 40 milhões

Para além dos 70 milhões que o Governo já injetou na Efacec, em agosto do ano passado, a empresa vai ter um novo financiamento da banca, de 40 milhões, com garantia de Estado, através do Banco de Fomento. Os trabalhadores não sabem para onde foi o dinheiro e pedem ao Governo que fiscalize a nova injeção.

A esperança dos trabalhadores é que a nova injeção permita a retoma laboral. "Espero que os 40 milhões que o Estado vai voltar a injetar na Efacec me metam a trabalhar", diz Ricardo Silva.

Uma opinião partilhada pelo colega Rui Pires. O trabalhador da Efacec adianta que não fizeram esta greve por aumentos, mas sim para "exigir ao Estado que assegure matéria-prima para os trabalhadores continuarem a trabalhar e gerar valor para a empresa e para o país. Não queremos aumentos, só queremos matéria-prima para trabalhar", afirma.

Fátima Castro/ECO

Parados devido à falta de matérias-primas

Para além da falta de cobre e ferro, faltam matérias-primas básicas como porcas e parafusos. "Está tudo completamente parado porque não temos matérias-primas para produzir. Depois de marcar o ponto, estamos apenas a passar tempo na empresa. Eu vou à empresa para apertar meia dúzia de parafusos. Estamos na empresa a gastar o dinheiro dos contribuintes", lamenta Ricardo Silva, que trabalha na Efacec há 25 anos.

"Custa-me muito acordar às 5.20 horas da manhã para vir para aqui, de segunda a sexta, e saber que não vou fazer nada. Apesar de continuarmos a receber o ordenado, não produzimos nada para justificar esse ordenado", contou um trabalhador ao ECO que preferiu manter o anonimato.

Rui Pires, que trabalha na Efacec há 15 anos, questiona como é possível o "Estado injetar 70 milhões de euros e nem existem matérias-primas para conseguirmos trabalhar", destaca.

O dirigente sindical, Sérgio Sales, pede ao Governo para "que se comprometa a comprar matérias-primas para que os trabalhadores continuem a trabalhar e que se crie riqueza".

Horas depois da manifestação dos trabalhadores da Efacec, Siza Vieira, admitiu que "há dificuldades no acesso a matérias-primas", mas garante que o Governo "está a trabalhar no sentido de assegurar que a empresa mantém tesouraria disponível para funcionar nestes próximos tempos". No entanto, os trabalhadores não querem apenas a tesouraria a funcionar, mas sim matérias-primas para continuarem a laborar.

Um trabalhador ouvido pelo ECO garante que a Efacec está praticamente parada, por falta de pagamento aos fornecedores. "André Carvalho disse há seis meses que tinha pago a 95% dos fornecedores. Se pagamos a 95% dos fornecedores como é que não temos matérias-primas", questiona e garante que esse "dinheiro não foi pago aos fornecedores", até porque tem acesso a esse tipo de documentos e sabe que não foi pago.

O Governo pretende que o processo de reprivatização dos 71,73% do capital social da Efacec, atualmente nas mãos do Estado, esteja concluído antes do final do ano, tendo a resolução do Conselho de Ministros aprovado a terceira fase do processo de reprivatização.

Nenhum dos trabalhadores ouvidos pelo ECO acredita que essa data será cumprida. Uma intuição que parece estar correta, tendo em conta que o ministro da Economia reconheceu aos jornalistas que “o processo de reprivatização tinha-se estimado concluir em menos tempo, vai demorar mais algum tempo, e já está a demorar”.

No final de outubro, o PCP acusou o Governo de “destruir” Efacec com reprivatização “perigosamente lenta”, reiterando que a manutenção da tutela pública é “condição necessária” para preservar o “enorme potencial” da empresa. Como o ECO revelou, a Efacec já admite cerca de 20 milhões de prejuízos operacionais em 2021, isto é EBITDA negativo, o que é significativamente pior do que os números já apresentados aos dois candidatos à reprivatização, a DST e a Sodécia.

Assine para ler este artigo

Aceda às notícias premium do ECO. Torne-se assinante.
A partir de
5€
Veja todos os planos