Fed. Porquê só no final do ano e não agora?

Depois de toda a especulação, nada mudou. A Reserva Federal liderada por Janet Yellen deixou a taxa de juro intacta entre 0,25% e 0,50%. Mas três membros da Fed foram contra a decisão. Porquê?

Historicamente este é um período de incerteza e expectativa. Estamos a menos de dois meses das eleições norte-americanas. Perto de eleições, desde 1984 que só uma vez, em 2004, a Fed aumentou a taxa de juros. Por isso, na Reserva Federal tem sido momento de nem subir nem baixar taxas de juro ou fazer outro tipo de alterações à política monetária.

Foi o que se verificou esta quarta-feira quando a presidente da Fed anunciou a decisão da reunião, apesar da expectativa acumulada desde Jackson Hole. Sete membros, incluindo Janet Yellen, votaram a favor da manutenção das taxas de juro. No entanto, deixaram novamente em aberto um novo ajustamento monetário antes do final do ano, na próxima reunião em dezembro (em novembro a reunião será uma semana antes das eleições), quando houver “mais dados” sobre a economia.

Não discutimos política nas nossas reuniões e não temos em conta a política na hora de tomar decisões

Janet Yellen, presidente da Reserva Federal dos EUA

Yellen prefere assim jogar à defesa, vincando que seria mais perigoso se a Reserva Federal subisse as taxas de juro cedo de mais. Temendo algum período de recessão após esse aumento, a presidente da Fed colocou de parte possíveis razões políticas: “Não discutimos política nas nossas reuniões e não temos em conta a política na hora de tomar decisões”, defendeu-se Yellen das declarações de Donald Trump contra a decisão.

Janet Yellen, chair of the U.S. Federal Reserve, left, speaks with Mario Draghi, president of the European Central Bank (ECB), ahead of the Group of Seven (G-7) finance ministers and central bank governors meeting in Sendai, Japan, on Friday, May 20, 2016. The risk of Britain exiting the European Union is a key concern for Group of Seven finance chiefs amid fears a vote to leave the EU in just over a month could roil international markets. Photographer: Tomohiro Ohsumi/Bloomberg *** Local Caption *** Janet Yellen; Mario Draghi
Janet Yellen, presidente da Reserva Federal dos EUA, com Mário Draghi, governador do Banco Central Europeu (BCE). Créditos: Tomohiro Ohsumi/BloombergTomohiro Ohsumi/Bloomberg

No entanto, a decisão não foi unânime. Três membros – Esther L. George (Kansas City), Loretta J. Mester (Ceveland) e Eric Rosengren (Boston) – votaram contra, pedindo um aumento da taxa de juro agora. Yellen considerou ser positivo as “diversas opiniões” dentro da Reserva Federal, mas a pergunta mantém-se: que argumentos usam esses membros?

Esta divisão na Fed não acontecia desde dezembro de 2014. Mais do que um ou dois dissidentes em reuniões sobre a definição da taxa é raro. Yellen até admitiu que os membros do comité tiveram “debateram-se fortemente” para perceber as opiniões uns dos outros.

Isto porque a Fed tenta sempre unificar-se para evitar enviar sinais confusos aos mercados financeiros. Mas é exatamente isso que está a acontecer este ano com toda a especulação crescente que começou ainda antes do encontro de Jackson Hole. As bolsas subiram e desceram consoante a especulação dos investidores, à onda da maré.

Têm, pelo menos, uma coisa em comum: os três são governadores das reservas federais de estados. Os três ‘dissidentes’ consideram que a economia está preparada para o custo de emprestar dinheiro ser maior, com um aumento imediato de um quarto.

Já é a quarta vez que Esther George é contra as decisões dos seus colegas. Cética em relação às políticas monetárias de dinheiro fácil, a governadora do Kansas votou contra a manutenção das taxas de juro em março, abril e julho. “Não vejo vantagens em esperar”, afirmou em agosto ao The Wall Street Journal. Os colegas Rosengren e Mester tinha sido mais cautelosos até à reunião desta quarta-feira onde votaram contra, alinhados com Esther George.

Não vejo vantagens em esperar

Esther George, governadora da Reserva Federal do Kansas

The Wall Street Journal

No início de setembro, Loretta Mester já tinha indicado que um aumento das taxas seria “atraente”, mas que o timing exato dependeria dos dados divulgados até à reunião da Fed. Ao que parece, os dados convenceram a governadora da Reserva Federal de Cleveland que acabou por votar contra a manutenção das taxas.

Já Eric Rosengren, que tinha no passado sido conservador em relação à subida das taxas, começou o mês de setembro por dizer que os perigos de manter podem ser superiores aos da subida. A ideia esbarra nas declarações desta quarta-feira de Yellen, mas Rosengren argumenta que a manutenção da taxa de juro em baixa pode tornar o mercado de trabalho demasiado apertado.

Num discurso, Rosengren disse até que “quando o número de gruas que observo numa pequena caminhada numa cidade como Boston chega aos dois dígitos, como é o caso de hoje, vale a pena refletir sobre a sustentabilidade deste crescimento”. O mercado imobiliário é uma das principais preocupações do governador. O responsável pelo banco central de Boston defende que esta política pode resultar numa rápida subida da taxa de juro num futuro próximo e que essa situação pode ser mais desestabilizadora.

O falhanço de continuar a remover a acomodação [da política monetária] pode encurtar, em vez de alargar a duração da recuperação

Eric Rosengren

Discurso em Quincy, Mass

No geral, os opositores são contra a execução máxima da política monetária de quantitative easing, que pode estar a chegar ao fim, ficando a Fed sem armas para combater uma possível recessão. Os principais dados que influenciam a decisão é a inflação e a taxa de desemprego. Se a primeira não corre tão bem – é quase um problema à escala global, incluindo a Zona Euro -, o segundo indicador tem surpreendido pela positiva com números inferiores a 5%. Mas mais dados virão, assim como as contas finais de 2016 e um novo Presidente dos EUA, tudo fatores que podem tornar inevitável uma subida em dezembro.

As minutas deste encontro vão ser reveladas no próximo dia 12 de outubro e aí pode ser ainda mais clara a posição destes três governadores de reservas federais regionais.

Editado por Paulo Moutinho

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