António Domingues na primeira intervenção pública. Seis ideias do presidente da CGD sobre a banca

O novo presidente da Caixa Geral de Depósitos partilhou as suas ideias sobre a banca, a situação do banco público e a forma como a crise afetou o setor.

António Domingues fez a sua primeira intervenção pública. Foi na quinta-feira à noite, durante um jantar organizado pela Associação Portuguesa de Gestão e Engenharia Industrial (APGEI). Não respondeu a perguntas, nem falou sobre as polémicas que têm envolvido o banco público, mas partilhou várias ideias sobre a banca, a situação da Caixa Geral de Depósitos (CGD) e a forma como a crise afetou o setor. Deixamos-lhes as principais.

“A CGD não precisa de um bad bank

O novo presidente da CGD foi o último a juntar-se aos banqueiros que se opõem à ideia de um banco mau, numa altura em que é cada vez mais certo que o Governo vai avançar com este modelo como solução para o crédito malparado do sistema financeiro. A Caixa, que estará em pleno processo de recapitalização, ficará de fora do modelo que vier a ser desenhado, adiantou já António Costa.

Mas nem por isso António Domingues deixou de se pronunciar sobre a ideia de um veículo para o malparado: “Um banco que não saiba recuperar crédito não deve dar crédito. A CGD não precisa de um bad bank“, frisou. E acrescentou: “A Caixa vai fazer a recuperação de crédito dentro da sua estrutura, podendo, eventualmente, vir a melhorar essa mesma estrutura”.

“Sou completamente contra a privatização da Caixa Geral de Depósitos”

António Domingues entrou na Caixa “com a condição de que esta é 100% pública” e é “completamente contra a privatização da Caixa Geral de Depósitos”. Porquê? Porque “só faz sentido vender ativos quando têm valor, quando a operação está mais valorizada”.

A missão de um banco público? “Defender e financiar os seus clientes e remunerar o capital”

Na missão que Pedro Passos Coelho definiu para a CGD em 2013, a prioridade central do banco público era “a concessão de crédito à atividade produtiva em Portugal“. Qual é agora? Segundo António Domingues, não será muito diferente: “A CGD tem de defender e financiar os seus clientes e remunerar o capital“, diz, salientando que o Estado, enquanto acionista, tem de se comportar como investidor privado e cumprir as regras como investidor privado.

“Não sou muito otimista face à evolução das receitas”

É um dos grandes desafios que o setor da banca enfrenta, e o banco público não escapa. “Não sou muito otimista face à evolução das receitas devidas devido às taxas de juro”. Tanto assim é que a administração da Caixa “está a trabalhar com base no cenário em que as taxas de juro se mantêm negativas até 2020“.

Foi preciso mostrar a Bruxelas que a CGD “é um banco que opera em concorrência”

O plano de recapitalização esboçado por António Domingues e pela consultora McKinsey determina que o banco tem necessidades de capital entre os dois mil milhões e os 5,1 mil milhões de euros. Para que este plano — “estratégico, credível e flexível”, que “assegurasse a independência da influência do acionista” — fosse aprovado, disse Domingues, foi preciso convencer a Comissão Europeia de que a Caixa não fica atrás da concorrência.

“Foi preciso demonstrar que é um banco que opera em concorrência e que remunera e tem uma política de incentivos em linha com o que os concorrentes praticam”, disse o presidente da Caixa.

E sublinhou tudo o que acredita que está por fazer: desde 2007 até 2015, o BCP reduziu o número de trabalhadores em 31%, as agências em 24% e os custos operacionais totais em 42%. O BPI, no mesmo período, reduziu 23% dos seus funcionários, 15% dos seus balcões e 17% dos seus custos operacionais. A CGD apenas diminuiu 13% do número de trabalhadores, 6% das agências e 9% dos custos operacionais, uma das situações que obrigou à sua recapitalização.

A crise e a banca: “Devia ter havido uma atuação mais rápida e mais robusta”

Por fim, o impacto da crise no setor da banca. Para António Domingues, o maior problema foi a reação lenta e tardia para resolver os problemas de capitalização. “Se olharmos para trás, uma das ilações que tiramos é que houve algum voluntarismo e a capitalização aconteceu a um ritmo lento. Devia ter havido uma atuação mais rápida e robusta.

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