Like & Dislike: Capitalizar a CGD com rácios do BPI?

Já muito disparate foi dito sobre a Caixa Geral de Depósitos. Este de Mourinho Félix está a disputar a liderança.

É a nova polémica na Caixa Geral de Depósitos. Sim, mais uma.

Esta quarta-feira, a Comissão Europeia veio confirmar aquilo que já todos desconfiávamos: António Domingues foi a Bruxelas negociar o plano de recapitalização da Caixa quando ainda era administrador do BPI.

António Domingues só assumiu funções como presidente da CGD no dia 31 de agosto, tendo renunciado ao cargo que mantinha no conselho de administração do BPI a 30 de junho. No entanto, em março e abril teve reuniões com Daniele Nouy do Mecanismo Único de Supervisão e mais tarde com a Direção-Geral de Concorrência. Era apresentado como vice-presidente do BPI, mas que vinha para negociar em nome da Caixa.

A situação é estranha e bizarra e levanta uma série de dúvidas sobre eventuais conflitos de interesse. Entretanto, o próprio António Domingues veio, em resposta a Pedro Passos Coelho, dizer que nessas reuniões não tinha tido acesso a informação privilegiada para elaborar o plano de recapitalização da Caixa.

“Quem conhece o setor e tem experiência adequada sabe que a informação pública disponível era suficiente para a elaboração de tal plano”, responde na altura Domingues.

Ao que o líder do PSD perguntou, e bem, “como é que se negoceia com a Direção-Geral da Concorrência um plano de capitalização sem ter informação da carteira de clientes?”.

A resposta chegou hoje. O secretário de Estado do Tesouro e das Finanças veio dizer hoje ao jornal Público que “quando se trabalhou no plano de negócio, fez-se com informação pública, aplicando à Caixa os rácios do BPI”.

A ver se nos entendemos. Mourinho Félix acabou de dizer que o plano de recapitalização do maior banco privado português foi elaborado tendo em conta os rácios de capital do BPI, um banco que em termos de dimensão e perfil de negócio tem pouco ou nada a ver com a Caixa.

Das três, uma:

  1. Domingues negociou com base em informação errada;
  2. Mourinho Félix disse um grande disparate;
  3. Ou os rácios da Caixa e do BPI são muito parecidos e permitem elaborar um plano de recapitalização de um com base nos indicadores do outro.

Então vamos à procura dos rácios. Segundo as contas da Caixa, no final de setembro, “o rácio de crédito vencido com mais de 90 dias atingiu 7,8% em setembro de 2016”. O rácio de crédito em risco, calculado de acordo com os critérios do Banco de Portugal, situou-se em 12,2%.

Estes são dois dos indicadores mais importantes a considerar num plano de recapitalização ou de negócio porque o Estado está a injetar capitais públicos na Caixa precisamente para tapar o buraco deixado pelos clientes que não pagaram, obrigando o banco a reconhecer enormes imparidades.

E então os rácios do BPI são parecidos? A 30 de Setembro, segundo o relatório e contas do banco, “o rácio de crédito a clientes vencido há mais de 90 dias ascendia a 3,5% nas contas consolidadas. O rácio de crédito em risco ascendia a 4,6%”.

Resumindo: a 90 dias, o rácio da Caixa é de 7,8% e o do BPI 3,5%. O crédito em risco no CGD é 12,2% e no BPI 4,6%. Com base nestas contas descartamos a hipótese 3) os rácios da Caixa e do BPI são muito parecidos e permitem elaborar um plano de recapitalização de um com base nos indicadores do outro.

Sobram duas: 1) Domingues negociou com base em informação errada; ou 2) Mourinho Félix disse um grande disparate;

Qualquer uma delas merece um Dislike.
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