La Pasta Fresca: Trazer Itália para Lisboa pode começar por aqui

  • Marta Santos Silva
  • 3 Dezembro 2016

Numa altura em que o referendo preocupa, Stefania assegura: "Itália fica na Europa". Afinal foi assim que, com Giuseppe, se instalou em Lisboa para divulgar a massa fresca... e para a dar a provar.

Dois engenheiros mecânicos napolitanos, uma vontade de divulgar a massa fresca e um amor por Lisboa: são os ingredientes improváveis que, bem misturados, deram no La Pasta Fresca. Stefania Raiola abandonou a Fiat e Giuseppe Godono saiu do seu trabalho na General Electric para seguirem o sonho, que se concretizou num restaurante e fábrica de massa fresca perto do Campo Pequeno, em Lisboa.

Desde julho de 2015, quando inauguraram o espaço acolhedor que agora ocupam na Avenida 5 de Outubro, que os dois ainda não conseguiram voltar a Itália, por estarem a fundar e a tomar conta do estabelecimento a que Stefania chama carinhosamente o “recém-nascido”. Mas o referendo deste domingo em Itália está na cabeça de Stefania, que não votou “pela primeira vez em muitos anos”, como forma de protesto.

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Giuseppe Godono e Stefania Raiola no La Pasta Fresca.Paula Nunes / ECO

O caminho até Lisboa teve muitas curvas para o casal. Stefania foi a primeira a conhecer a capital portuguesa, chegada em 2006 para liderar o departamento de marketing dos veículos comerciais na Fiat. E quando, quatro anos depois, teve de voltar para Itália, foi com a ideia de regressar. Foi viver para Turim e iniciou uma relação com Giuseppe, que vivia na Sicília. “São 1600 quilómetros. Cinco anos assim”, conta ao ECO. “Se era para mudar de cidade, e era…”

Decidiram viver juntos em Lisboa e começar aí um pastificio — a palavra italiana para uma fábrica de massa fresca artesanal. “Desde o início que queríamos abrir uma fábrica, um laboratório de massa fresca, mas também com restauração. Porque a venda não iria ser suficiente, primeiro porque não existe hábito” de consumir este produto em Portugal, esclarece Stefania.

O desafio de vender “pasta fresca” aos portugueses

Os dois eram engenheiros mas Giuseppe sempre gostara de cozinhar, Stefania tinha jeito para os vinhos, e ambos tinham vontade de aplicar a experiência de gestão num negócio próprio. Giuseppe sublinha cuidadosamente que gostar de cozinhar não é o mesmo que saber cozinhar para um restaurante. “Não é só fazer um bom prato. É preciso fazer dez pratos bons diferentes”, explica. E o casal de napolitanos não se atirou de cabeça para a aventura.

“Antes de abrir fui alguns meses aprender com um amigo que tinha um restaurante na Sicília, para aprender a logística, os tempos…” diz Giuseppe. A abertura em Lisboa foi planeada com igual cuidado: Stefania explica que fizeram análises de mercado, definiram o público-alvo da massa fresca e escolheram com dedo cirúrgico o bairro onde se iam instalar. “Este é um bairro que durante o dia está cheio de pessoas de fora que vêm para aqui trabalhar, está cheio de empresas, bancos, ministérios”, explica. “E também estamos cheios de turistas, porque à nossa volta temos seis hotéis de cinco estrelas”.

Porquê cozinhar com massa fresca?

Um grande desafio na venda da massa fresca para fora é o desconhecimento e a falta de hábito dos portugueses. “Aqui há uma cultura da massa, mas não é uma massa de excelência, é mais uma massa de acompanhamento”, explica Stefania. “É um trabalho de divulgação”. A criação do restaurante faz parte dele: mostrar às pessoas aquilo que um prato de massa pode ser e depois incentivar a compra do produto. “Temos que dar a provar, se não ninguém vai comprar”, resume Stefania.

Agora o La Pasta Fresca já entrou mais na rotina — a equipa, que custou muito a constituir, já está mais segura, e as rotinas mais fixas. Agora, o próximo desafio será abrir um novo espaço para vender a massa fresca. “Os nossos custos fixos já temos”, diz a gerente do restaurante de forma otimista. Gostaria de instalar o novo ponto de venda num bairro onde vivam muitos portugueses, mas os pormenores, para já, ficam por revelar.

Para Stefania, o referendo é “histeria coletiva”

Mesmo vivendo em Lisboa, o referendo italiano para alterar a Constituição — e que se transformou num voto de confiança no primeiro-ministro Matteo Renzi — tem a capacidade de deixar Stefania Raiola exaltada. “É um fenómeno de histeria coletiva”, afirma a gerente do La Pasta Fresca. “As pessoas estão a dar ao referendo um significado que não tem”.

É muito forte o sentido de pertença à Europa. Nem o [Beppe] Grillo vai conseguir acabar com isso.

Stefania Raiola

Fundadora do La Pasta Fresca

A transformação do debate público em Itália acerca do referendo, que se desviou da discussão da alteração constitucional para uma aprovação ou rejeição do governo de Renzi, deixou Stefania tão frustrada que acabou por decidir não votar. “Realmente tenho pena de não ter exercido o meu direito. Mas é porque não acredito nem nas razões do Não, nem nas razões do Sim”, explica.

E será que acredita que uma queda do governo de Renzi e uma chegada de um partido populista ao poder poderia fazer com que Itália saísse da União Europeia? A napolitana está confiante de que tal não vai acontecer. “É muito forte o sentido de pertença à Europa. Nem o [Beppe] Grillo vai conseguir acabar com isso”, afirma.

E destaca as facilidades dadas pelo mercado único e livre circulação de pessoas e mercadorias, que lhe são muito pessoais. “Quisemos abrir aqui uma empresa e pronto, somos cidadãos europeus, porque não? A expansão além-fronteiras só pode trazer coisas boas”, explica. Coisas boas como um pastificio no Campo Pequeno, para dar a provar a massa fresca italiana.

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