Como mudar a economia da cidade? Beba um chá

A Companhia Portugueza do Chá quer recuperar a longa tradição portuguesa. O fundador, o argentino Sebastian Filgueiras, acredita que a história pode mudar a vida e a cidade.

No dia em que Sebastian Filgueiras recebeu, em Lisboa, o email de um cliente com uma encomenda de dois quilos de Earl Grey Portugal para entrega no Japão, o argentino de 47 anos teve mais uma validação para o negócio. O cliente japonês a viver nos Estados Unidos tinha passado por Lisboa e, surpreendido com o blend criado pela loja de Sebastian, quis oferecer à mãe, grande fã de chá preto e viver no Japão, o chá português com bergamotas do Alentejo.

A ideia de abrir uma loja de chá em Lisboa, que recuperasse a tradição dos antigos salões de chá do Chiado, concretizou-se em 2014, ano em que criou a Companhia Portugueza do Chá. Para além de importar chás vindos um pouco por todo o mundo — muitos encomendados em viagens que faz todos os anos, e outros, através de catálogos e amostras — a loja da Rua do Poço dos Negros produz blends exclusivos como o Chá Branco dos Açores — uma parceria com o serviço de desenvolvimento agrário da ilha de S. Miguel, nos Açores –, o Earl Grey Português — feito com bergamotas produzidas no Alentejo — e até o Lisbon Breakfast, um blend à medida dos pequenos-almoços na cidade das Sete Colinas.

“O chá teve bastante importância no nascimento daquele Chiado elegante, com a abertura de lojas gourmet como a Casa Pereira da Conceição ou a Casa Pereira, e outras, que faziam café e traziam chás pérola da China, chás fumados. Com o tempo — e também um pouco devido às colónias como o Brasil e África –, o café foi ganhando mais importância”, conta Sebastian.

A viver em Lisboa desde 2000, foi só depois da abertura de dois espaços de restauração na capital — o Café Buenos Aires e o Buenos Aires na Fábrica — que o empresário decidiu abrir uma loja dedicada à cultura e à comercialização de chás que pudesse fazer frente às melhores casas de chá da Europa. O objetivo era claro, tal como é hoje: “Poder voltar a dar força ao chá, voltar a trazer chás raros que já não vinham a Lisboa e despertar a curiosidade das pessoas por provarem novos chás e criar o ritual de preparar e beber e, o meu sonho seria que toda a gente beba chá em casa, de manhã, e café na rua. Isso é que era”, diz.

Sebastian Filgueiras, fundador da Companhia Portugueza de Chá.
Sebastian Filgueiras, fundador da Companhia Portugueza de Chá.Paula Nunes/ECO

A ideia não fica por aqui. É que Sebastian acredita que beber chá de manhã, ainda em casa, podia levar à transformação das pessoas e da cidade. Senão vejamos: “Ao tomar o pequeno-almoço em casa, as pessoas tiram 15 minutos para si, veem-se obrigadas a sentar-se, parar e fazer o chá. Comer uma torrada, parar um pouco de tempo. É outra maneira de começar o dia. Na rua bebemos um bom café… temos marcas excelentes. O café na rua, o chá em casa. Isso ajuda a apoiar o que é nosso e as coisas que estão a ser feitas em Portugal, que geram trabalho e dinheiro”.

E como é que isso pode mudar a cidade? Simples, garante. “Criando bons elementos, bons produtos e bons momentos. São bebidas que vão criar momentos, que vão ajudar momentos de pausa, de criatividade, de reflexão. E que vão ajudar muito à economia da cidade, a pensar a cidade de outra forma sempre com vista à arte de receber. O chá abre todo um panorama que mostra que Lisboa não é só as tabernas: sempre houve a arte dos salões de chá de uma maneira muito lisboeta, portuguesa.”

Dois anos depois da abertura — e após a mais recente mudança para uma loja maior, na mesma rua da primeira — na Companhia Portugueza do Chá há mais de 200 diferentes. A variedade é uma característica dos produtos, que incluem chás da Índia, China, Japão, Laos e Ceilão, entre outros, mas não da clientela. É que entre 85% a 90% dos clientes da loja são portugueses.

“Os estrangeiros gostam muito do nosso espaço, entram, dão-nos os parabéns, tiram fotografias, alguns levam chá e outros não levam. São os portugueses que vêm cá comprar, investigar. Há clientes que vêm com a lista de todos os chás e jardins, assinalam o que já provaram, provam os chás de forma separada”.

São os curiosos que incitam Sebastian a melhorar na qualidade e na variedade dos chás à venda. E são também eles que não o desviam do objetivo. “Os negócios têm de ser pensados muito com base nestas singularidades, naquilo que podem trazer de novo. Acho que termos um chá dos mais antigos da Europa em Portugal é algo maravilhoso. Por que não termos também todas estas pequenas colheitas, chás de autor? Chás muito singulares e com preço que realmente mereçam? O chá pode ser quase como o vinho: cada vez mais estas pequenas colheitas onde a raridade e a singularidade da coisa vão fazer com que seja toda uma experiência poder usufruir desse chá, toda uma experiência sensorial e organoléptica que pode trazer muito ao consumidor”, descreve.

O chá abre todo um panorama que mostra que Lisboa não é só as tabernas: sempre houve a arte dos salões de chá de uma maneira muito lisboeta, portuguesa.

Sebastian Filgueiras

Fundador da Companhia Portugueza do Chá

 

Chá como património

Mas, se é em Portugal a mais antiga produção de chá a Europa, o que aconteceu para o país não se ter destacado como produtor? Sebastian detalha razões históricas: o crescimento dos cafés, a ligação longa com o Oriente que deixou de se trabalhar da forma mais digna e até um imposto ao chá criado por Salazar parecem ter sido algumas das causas para a perda de destaque deste produto.

"Os que viemos de fora, os que descobrimos as coisas como se fosse a primeira vez, vemos com outros olhos. E vemos as coisas realmente com aquele toque de tesouro, é um tesouro que há aqui. Noto que há neste momento uma intenção de os portugueses descobrirem estes tesouros.”

Sebastian Filgueiras

Fundador da Companhia Portugueza do Chá

“Ao que parece, Salazar criou um imposto muito forte para o chá açoriano, que afetou a produção. O chá Gorreana nos Açores é realmente uma pérola no Atlântico, ninguém na Europa tinha chá. E nos Açores, chegou a haver 14 fábricas de chá, tudo no século XIX. O que é notável nos Açores é que, a grande impulsão que começou é quase contemporânea ao trabalho dos ingleses na Índia, com o Darjeeling. Só que, na altura, os Açores não tiveram o apoio do governo, do poder, foi sempre um grupo de empresários que tentou levar aquilo em frente. Vemos hoje o que é o Darjeeling: o próprio chá é merecedor de tudo o que os ingleses fizeram naqueles jardins de chás que hoje têm uma enorme reputação, uma denominação de origem controlada, são chás que atingem preços incríveis [um chá Darjeeling pode ir a preços que começam em 60 euros/100gr]. Realmente é uma experiência beber esses chás, penso que nos Açores também há uma grande qualidade na matéria-prima”, diz Sebastian.

Companhia Portugueza de Chá.
Companhia Portugueza de Chá.Paula Nunes/ECO

Comemorada pela primeira vez na Índia, em 2005 — em resposta à crise da indústria do chá, em 1998 — a data que assinala o Dia Internacional do Chá foi criada para chamar a atenção de governos, organizações e da população mundial para os problemas relacionados com a produção de chá no mundo. A ideia de assinalar o 15 de dezembro é a de garantir os direitos aos trabalhadores e de alcançar preços justos para o produto. Três anos depois, a data começou a ser comemorada. A data tornou-se entretanto muito popular, tanto nos países produtores de chá — como o Bangladesh, Índia, Nepal, Vietname, Indonésia, Quénia, Sri Lanka, Malawi, Uganda, Malásia e Tanzânia — como nos países consumidores como a Holanda, a Inglaterra, a França e a Alemanha, entre outros.

Em Portugal e além fronteiras

Portugal tem, neste momento, a produção mais antiga de chá da Europa: a Gorreana, nos Açores, produz chá há mais de 100 anos. Recentemente, têm surgido outros projetos associados a pequenas produções: são o caso da marca chamada Chá Camélia, que faz importação do chá do Japão e está a criar aos poucos uma plantação no norte de Portugal, do lado continental do país.

Sebastian destaca outra pequena produção, recentemente criada na Escócia. Países como a China têm apostado na produção de chás, sobretudo em regimes mais ecológicos. Esta é, de resto, uma das grandes tendências a nível mundial.

Três tendências no mercado do chá

  • Darjeeling mantém uma cotação elevada, sobretudo porque existem grandes países consumidores do chá — por exemplo, o Japão — que são agora grandes admiradores e descobridores de Darjeeling. “Não sabemos o quão perfeccionistas os japoneses podem ser e o quão interessados em algo podem chegar a revelar-se”, conta Sebastian.
  • Chás orgânicos: quase todos os jardins estão a passar por processos de adaptação ou total conversão dos campos de chá, limitar em quantidades enormes aquilo que possa ser ingredientes químicos adicionados às plantas, mesmo na China, para o chá natural, em tentar passar tudo para o modo orgânico,
  • Chás da China: há cada vez uma maior apetência para os chás da China. “São de uma enorme elegância, elaborados com um saber-fazer que vai passando de geração em geração, e sã chás com capacidades que vão para além da degustação. São chás capazes de trazer-nos um grande momento de inspiração, de calma. São chás poderosos, podemos sentir um conforto orgânico, físico, quase de imediato. É algo mágico”, explica Sebastian.

Um chá contra a solidão

Sebastian Filgueiras e Sancha Trindade
Sebastian Filgueiras e Sancha TrindadeD.R.

Este Natal, Lisboa tem um chá que quer pôr os portugueses a “sorrir para os idosos na rua”. O projeto do Chá Atlântico, uma parceria entre a plataforma A Cidade na ponta dos dedos e a Companhia Portugueza do Chá, criou um chá sem fins lucrativos e com uma missão solidária, com vista a reduzir o “impacto da solidão e isolamento”, e cuja venda reverte integralmente a favor dos mais de 120 idosos que a Associação Mais Proximidade Melhor Vida ajuda.

A história do chá é acompanhada com um documentário realizado por Rui de Brito da Subfilmes.

 

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